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sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Objetos transicionais e fenômenos transicionais

Winnicott, D. W. (1951). Objetos transicionais e fenômenos transicionais. In: Winnicott, D. W. (1988). Textos selecionados: da pediatria à psicanálise. Rio de Janeiro: F. Alves, pp. 389-408.

"É costume fazer referência ao 'teste de realidade' e efetuar uma distinção clara entre apercepção e percepção. Reivindico aqui um estado intermediário entre a inabilidade de um bebê e sua crescente habilidade em reconhecer e aceitar a realidade. Estou, portanto, estudando a substância da ilusão, aquilo que é permitido ao bebê e que, na vida adulta, é inerente à arte e à religião. Podemos compartilhar do respeito pela experiência ilusória e, se quisermos, reunir e formar um grupo com base na similaridade de nossas experiências ilusórias. Essa é uma raiz natural do agrupamento entre seres humanos. No entanto, ela se torna a marca distintiva da loucura quando um adulto exige demais da credulidade dos outros, forçando-os a compartilharem de uma ilusão que não é própria deles" (p. 391).

"A área intermediária a que me refiro é a área concedida ao bebê, entre a criatividade primária e a percepção objetiva baseada no teste de realidade" (p. 402).

Presume-se aqui que a tarefa de aceitação da realidade nunca é completada, que nenhum ser humano está livre da tensão de relacionar a realidade interna e externa e que o alívio desta tensão é proporcionado por uma área intermediária de experiência" (p. 404).

FQu como um tipo de percepção "intermediária": acurada, mas também saturada de subjetividade.

Se um adulto nos reivindicar a aceitação da objetividade de seus fenômenos subjetivos, discerniremos ou diagnosticaremos nele loucura. Se, contudo, o adulto consegue extrair prazer da área intermediária pessoal sem fazer reivindicações, podemos então reconhecer nossas próprias e correspondentes áreas intermediárias, agradando-nos descobrir certo grau de sobreposição, isto é, de experiência comum entre membros de um grupo na arte, na religião ou na filosofia" (p. 405).


Pediatria e psiquiatria

Winnicott, D. W. (1948). Pediatria e psiquiatria. In: Winnicott, D. W. (1988). Textos selecionados: da pediatria à psicanálise. Rio de Janeiro: F. Alves, pp. 237-311).

A relação com a realidade externa
Voracidade: amor por interesse
Relação objetal: o objeto está dentro ou fora?

A mãe permite a ilusão de que o bebê criou o seio - satisfação pulsional, união emocional e "início da crença na realidade como algo acerca da qual se pode ter ilusões" (p. 296).

Depois, a desilusão gradual (desmame)

Para Winnicott, a objeção de que não há, de fato, contato direto com a realidade não faz sentido em psicopatologia, já que "a maior parte das pessoas usa tão bem aquilo que é objetivamente observado e esperado, que pode passar sem alucinações, a não ser no cansaço ou fraqueza provocados por exaustão física" (p. 296).

Ajustamento bom devido à submissão (atitude submissa)




Desenvolvimento emocional primitivo


Winnicott, D. W. (1945). Desenvolvimento emocional primitivo. In: Winnicott, D. W. (1988). Textos selecionados: da pediatria à psicanálise. Rio de Janeiro: F. Alves, pp. 269-285.

1- integração (unidade)                  -                                  I
2 - personalização (indwelling, conluio psicossomático) - AM
3 - realização (tempo, espaço, realidade "partilhada") - ALONE

"Por vezes, se supõe que o indivíduo saudável está sempre integrado, vivendo dentro do próprio corpo e capaz de sentir que o mundo é real. No entanto, muitas vezes a saúde tem uma qualidade sintomática, estando carregada de medo ou negação da loucura, medo ou negação da capacidade inata que todo ser humano tem de se tornar não-integrado, despersonalizado, e de sentir que o mundo é irreal" (p. 276).

Não integração ----> integração parcial (dissociações):
-Estados tranquilos X excitados;
-O bebê tranquilo e satisfeito é o mesmo quando está excitado e tenso?
-A mãe construída através das relações tranquilas é a mesma por trás do seio que o bebê quer destruir?
-A criança que dorme X a criança acordada

Adaptação à realidade
contradições: o objeto foi alucinado ou está lá para ser percebido? Pergunta inútil.

A ideia é enriquecida pelos sentidos, material que será utilizado quando a necessidade advier (e a nova alucinação ocorrer). O bebê evoca o que realmente existiu; ou o que foi-lhe oferecido pela mãe como fragmento de realidade simplificado.

Quando a realidade externa é aceita, verifica-se o uso que se pode fazer dela (para que serve?) O leite real é gratificante, comparado ao leite imaginário (alucinado), mas o bebê pode mesmo usá-lo?

Fantasia: mágica, amor e ódio não têm freios.
Não desejar, como resultado da satisfação, é aniquilar o objeto.

Ilusão: tonar alucinação como apresentação (de objetos).

Crueldade primitiva: relação objetal em que não há preocupação com os efeitos da ação sobre o objeto (ruthlessness).

Retaliação primitiva: a sucção do dedo ou o roer das unhas volta o amor para dentro, preserva o objeto do amor e do ódio.

Localiza o objeto a meio caminho entre o dentro e o fora (área transicional): o objeto é parte do self, como a pulsão que o evoca.


Retraimento e regressão

Winnicott, D. W. (1954). Retraimento e regressão. In: Winnicott, D. W. (1988). Textos selecionados: da pediatria à psicanálise. Rio de Janeiro: F. Alves, pp. 425-435.

Retraimento: desligamento momentâneo da relação desperta com a realidade externa, um breve sono.

Regressão: à dependência
                  às zonas erógenas
                  (ao processo primário?)

Retraimento --------|--------> Regressão
                       HOLDING

A dependência pode ser dolorosa de aguentar: para regredir é importante estar certo de que há um meio suficientemente bom: sensível e devotado às necessidades, previsível, indestrutível (não retaliador, é capaz de sobreviver por si próprio, não precisa ser protegido).

A mente e sua relação com o psique-soma

Winnicott, D. W. (1949). A mente e sua relação com o psique-soma. In: Winnicott, D. W. (1988). Textos selecionados: da pediatria à psicanálise. Rio de Janeiro: F. Alves, pp. 409-425.

Psique: "elaboração imaginativa de partes, sentimentos e funções somáticas"

A inter-relação entre a psique e o soma constitui uma fase inicial do desenvolvimento. Posteriormente, "o corpo vivo, com seus limites, e com um interior e um exterior, é sentido pelo indivíduo como formando o cerne do self imaginativo"

A mente tem a raiz na necessidade que o bebê tem de um ambiente perfeito. Na medida em que este fracassa, a atividade mental o compreende, compensa e transforma em sucesso adaptativo.
"Se ela [a mãe] é suficientemente boa, o bebê se torna capaz de compensar suas [dela] deficiências através da atividade mental. (...) A atividade mental do bebê transforma o relativo fracasso de adaptação em sucesso adaptativo. O que livra a mãe da necessidade de ser quase perfeita é a compreensão do bebê" (pp. 412-413).

Algo ocorre neste processo que torna o bebê (a criança) incapaz de inscrever, em sua atividade mental, um tipo específico de fracasso ambiental. A demanda real da ameaça de castração, ou seja, de que há limites sociais para a realização do desejo, é rejeitada por um tipo específico de bebê. Podemos nos arriscar a dizer que, para este tipo de bebê, houve um jogo oculto entre os pais, em que o bebê esteve envolvido por meio de uma promessa feita também às ocultas: de que o bebê era aliado, parte de um dos pais (contra o outro). Desta forma, houve comprometimento no estabelecimento de uma relação triádica entre pessoas totais, o que é base do conflito edípico e da constituição do complexo de castração e do complexo edípico. Ao contrário, pode ser difícil estabelecer limites entre o que é subjetivo e objetivo, dado que o bebê precisou responder a uma demanda feita pelo meio, intrusiva, e não um movimento natural de sua continuidade de ser.

Mente-psique patológica, em oposição ao psique-soma original: "Como resultado mais comum de um grau pequeno de cuidado materno torturante nos estádios iniciais da vida infantil, o funcionamento mental torna-se uma coisa em si, praticamente substituindo a mãe boa e tornando-a desnecessária. Clinicamente, isso pode acompanhar uma dependência da mãe real e um crescimento pessoal falso com base na submissão. Esse é um estado de coisas extremamente desconfortável, especialmente porque a psique do indivíduo de deixa 'atrair' por essa mente, afastando-se do relacionamento íntimo que originalmente mantinha com o soma. O resultado é uma mente-psique, que é patológica." (p. 414).

Crescimento excessivo da função mental como relação a uma maternagem inconstante. O pensamento do indivíduo começa a controlar e organizar os cuidados a serem dispensados ao psique-soma, ao passo que na saúde, isto é uma função do ambiente.

A falsidade do conceito de mente como fenômeno localizado
"O curioso atualmente é que, de novo, no pensamento médico científico, o cérebro foi igualado à mente, que um certo tipo de doente sente como uma inimiga, e uma coisa dentro do crânio" (p. 423).

Por que a cabeça?
"Sinto que a necessidade do indivíduo de localizar a mente por ser ela um inimigo, isto é, para controlá-la, é um ponto importante. Um paciente esquizoide me diz que a cabeça é o lugar onde se deve por a mente porque como não se pode ver a cabeça, ela não existe de maneira óbvia, como parte de nós mesmos" (p. 415).

"Podemos ver que um dos objetivos da doença psicossomática é atrair a psique para longe da mente, de volta à associação íntima original com o soma".

Fracasso excessivo da adaptação ativa do meio às necessidades do indivíduo: além da capacidade de compreensão ou de predição. Em vez de odiar, o indivíduo deixa-se desorganizar pelos fracassos do meio, porque estes existiram antes da experimentação dos impulsos libidinais amorosos fundidos aos agressivos; isto é, a desorganização se dá porque o indivíduo é, ainda, incapaz de amar ou odiar.

A aceitação do não-saber produziu um enorme alívio. 'Saber' transformou-se em 'o analista sabe', isto é, 'comporta-se fidedignamente, adaptando-se às necessidades do paciente'. Toda a vida da paciente havia sido construída em torno do funcionamento da mente, que controla e regula suas necessidades, mais do que um psique-soma que experimenta e cria.

Sobre "O Uso de um Objeto"

Explorações psicanalíticas, 1963-1968, pp. 170-191.

"O princípio é que é o paciente, e somente ele quem tem as respostas" (p, 171-172).

Borderline: "o cerne do distúrbio do paciente é psicótico, mas ele possui sempre suficiente organização psiconeurótica para ser capaz de a´resentar uma psiconeurose ou um transtorno psicossomático quando a ansiedade psicótica central ameaça irromper de forma grosseira".

Relação com objetos
Catexoa: o objeto se torna significante, o sujeito está esvaziado a um ponto em que algo dele é encontrado no objeto (a pulsão que o originou).
O uso do objeto demanda um objeto real (e não um feixe de projeções).

Princípio da realidade
capacidade de usar objetos
                          ------> colocação, pelo sujeito, do objeto como fenômeno externo, fora do controle onipotente.
~~~o objeto tem estatuto de um objeto por si próprio.

O sujeito destroi o objeto.

Relacionar-se ----> destruir -------> o objeto sobrevive ------> FANTASIA E USO
(subjetivo)            (objetificar)

Um objeto que é destruído por ser real e se torna real por ser destruído.

"Enquanto o sujeito não destroi o objeto subjetivo (material de projeção), a destruição aparece e se torna um aspecto central na medida em que o objeto é objetivamente percebido e pertence à realidade 'partilhada'" (p. 174).

A destruição desempenha seu papel de construção da realidade, situando o objeto fora do self. Se o objeto sobrevive após a destruição, ou seja, não retalia, o indivíduo pode entender esse objeto como algo não eu (e minimamente persecutório), situado fora do controle onipotente, do lado de fora, no mundo.

"Se fôssemos melhores em diagnóstico, pouparíamos a nós mesmos e a nossos pacientes um bocado de tempo e desespero" (p. 182).

O pensar e a formação de símbolos


Winnicott, D. W. (1968). Alucinação e desalucinação. In: Winnicott, C; Shepherd, R. & Davis, M. (Orgs.) (1994). Explorações psicanalíticas: D. W. Winnicott. Porto Alegre: ArtMed, pp. 167-169.

"O pensar começa como uma maneira pessoal que o bebê tem para lidar com o fracasso graduado de adaptação da mãe. O pensar faz parte do mecanismo pelo qual o bebê tolera tanto o fracasso da adaptação à necessidade do ego, quanto a frustração do instinto que produz tensão-tensão, particularmente o primeiro"

Quando a adaptação não é suficientemente boa, temos:
-funcionamento mental tornando-se uma coisa em si (mente-soma)
-dependência da mãe real e falso crescimento pessoal, com base na submissão.

A dependência da mente assume o lugar da mãe suficientemente boa. O falso self se forma um intelecto explorado para fazer às vezes do cuidado materno.

Alucinação e desalucinação

Winnicott, D. W. (1957). Alucinação e desalucinação. In: Winnicott, C; Shepherd, R. & Davis, M. (Orgs.) (1994). Explorações psicanalíticas: D. W. Winnicott. Porto Alegre: ArtMed, pp. 33-35.

"Amiúde me impressiona, como sendo uma dificuldade que não enfrentamos, que às vezes dizemos que um paciente está alucinando e tomamos isso como prova de psicose" (p. 33)

Pergunta: "existe alguma diferença entre as alucinações que denotam enfermidade e aquelas que não possuem tal significação?"

Alucinar normal X patológico

No alucinar patológico, "algo foi desalucinado e, de maneira secundária, o paciente alucina em denegação da desalucinação.
É complexo porque, primeiramente, houve algo que foi visto, depois algo desalucinado e, então, uma longa série de alucinações que, por assim dizer, preenchem a lacuna produzida pela escotomização" (p. 34).

Um tipo especial de alucinar que é compulsivo e assustador, apesar do fato de que o que é alucinado não constituir, em si mesmo, uma ameaça.


Ansiedades psicóticas e prevenção

Little, M. I. (1992). Ansiedades psicóticas e prevenção: registro pessoal de uma análise com Winnicott. Rio de Janeiro: Imago.

Psicose: doença por carência ambiental, exige volta ao tempo em que a deficiência ou adequação do ambiente era muito importante, pois o verdadeiro self ainda pode esperar uma reversão do fracasso original, encontrando no analista uma adaptação suficiente para suas necessidades.

Na caracterização do que é psicose, mais do que sintomas (alucinações ou delírios), a vivência de agonias impensáveis.

A mãe também pode sentir algum grau de ansiedade de aniquilação relativa à ideia de separar-se do seu filho ou de que aquele bebê é uma pessoa separada dela.

Possíveis defesas contra um ambiente intrusivo:
-retraimento
-identificação com o ambiente, partilha da ilusão primária de estar integrado a ele (cisão e falso self).

Na regressão à dependência, não há formação de símbolos; as coisas são. O analista é a mãe, suas mãos são o cordão umbilical, o divã é a placenta.

Regressão e organização defensiva

Winnicott, D. W. (1967). O conceito de regressão clínica comparado com o de organização defensiva. In: Winnicott, C.; Shepherd, R. & Davis, M. (1994). Explorações Psicanalíticas: D. W. Winnicott. Porto Alegre: ArtMed, pp. 151-156.

"Podemos adotar este curso, acredito, sem nos separar da fonte de nosso trabalho, que deve ser sempre os seres humanos que vêm até nós ou que nos são trazidos por causa das dificuldades da vida" (p. 151).

Esquizofrenia -- regressão
                     -- organização de defesas

Seja lá o que for que já é conhecido ou será descoberto a respeito da bioquímica, da neuropatologia ou da farmacologia relativa à esquizofrenia, existirão ainda lá os pacientes, pessoas como nós, com uma história em casa caso do desencadeamento do transtorno e com uma carga de esforço e sofrimento pessoais, com um meio ambiente que é simplesmente mau ou bom ou, então, que confunda a um grau que pode ser desnorteante até mesmo relatar" (p. 152).

No contexto da psicose, o enunciado do desenvolvimento em termos de progressão de zonas erógenas não é tão útil quanto o é a ideia da progressão da dependência absoluta rumo à independência ----> provisão ambiental.

No desenvolvimento da criança psicótica, o meio ambiente pode continuar a ser um fator adverso, por causa do fracasso do indivíduo em obter suficiente autonomia: Envolvimento do paciente identificado no jogo do casal: Palazzoli)

Na psiconeurose, ao contrário, a pista para o conflito subjacente reside dentro do indivíduo.

Em contraste, a psicose envolve as pessoas na elucidação de uma cisão na pessoa do paciente, o extremo de uma dissociação: "A cisão toma o lugar do inconsciente reprimido do psiconeurótico" (p. 152).

A cisão pode aparecer em várias formas de dissociação:
-Falso e verdadeiro self;
-Vida intelectual ex-cindida do viver psicossomático (mente-psique)

Uma pessoa pode padecer de expectativas patológicas oriundas do meio ambiente.

Mara Selvini Palazzoli também sabe disso, Winnicott!

A dependência inicial continua a ter significado, especialmente na adolescência e, talvez, de maneira disfarçada, através de toda a vida.

As crianças que não foram significantemente decepcionadas na etapa de dependência absoluta puderam construir uma estrutura de autoconfiança sobre a acumulação da confiabilidade introjetada. Elas acreditam na realidade e confiabilidade de si mesmas e do mundo. É difícil entender uma outra criança que carrega consigo, por toda a vida, agonias impensáveis decorrentes de deficiências na confiabilidade do meio. Um ambiente instável fracassa por ser imprevisível e intrusivo: ele interrompe a continuidade do ser e exige que o bebê reaja (falsamente, não por impulso próprio).

Regressão: retroação em direção oposta ao desenvolvimento, seja por bloqueio ao crescimento, seja por uma provisão ambiental que permita a dependência.

A regressão à dependência, mais ou menos relativa, mais do que uma ou outra zona erógena especifica.

As agonias impensáveis  estão relacionadas à fração de segundo antes da organização de novas defesas frente ao trauma (que é o impacto provindo do meio ambiente antes que o indivíduo possa prevê-lo, compreendê-lo e tolerá-lo).
Elas podem ser classificadas em termos da quantidade de integração que sobrevive ao ataque.
O resultado do trauma é certo grau de distorção no desenvolvimento: "a raiva implicaria a sobrevivência do ego e uma retenção da ideia de uma experiência alternativa em que o 'desapontamento' não ocorreu"

Pânico: horror organizado para proteger o indivíduo contra o impredizível (num momento tal de dependência que o indivíduo não poderia suportar tamanho fracasso).

Abandonar a invulnerabilidade (autismo) criada pelos medos e tornar-se sofredor.

"Escolher" a deficiência mental ao horror do sofrimento vinculado ao viver genuíno.

"À medida que progredimos e o paciente alcança confiança em nós em grande escala, então nossos equívocos e fracassos se tornam novos traumas. Aprendemos a esperar uma sensibilidade crescente por parte do paciente e começamos a imaginar se é a bondade ou a crueldade que nos motiva" (p. 155).

A Psicologia da Loucura e o conceito de trauma

Winnicott, D. W. (1965). A psicologia da Loucura: Uma Contribuição da Psicanálise. In: Winnicott, C.; Shepherd, R. & Davis, M. (1994). Explorações Psicanalíticas: D. W. Winnicott. Porto Alegre: ArtMed, pp. 94-101.

"Por 'psicose' se quer dizer uma enfermidade que tem seu ponto de origem nos estágios do desenvolvimento individual anteriores ao estabelecimento de um padrão individual de personalidade (p. 95)".

Posso incluir na necessidade da intervenção precoce multidisciplinar intensa uma possível explicação da relutância dos psiquiatras não-psicodinâmicos em aceitar a esquizofrenia como um fenômeno psicológico:
"Todo psiquiatra possui uma carga imensa de casos graves. Está sempre sendo ameaçado pela possibilidade de suicídio entre os pacientes que se acham a seu cuidado imediato e existem pesados ônus associados com a tomada de responsabilidade pela certificação e decertificação, bem como com a prevenção de ciosas como o assassinato e o mau trato de crianças. Além disso, o psiquiatra tem de lidar com a pressão social, uma vez que todos aqueles que precisam de proteção quanto a si próprios ou precisam ser isolados da sociedade inevitavelmente vêm acabar sob os cuidados dele e, ao final, não pode recusá-los (pp. 95-96)".

"Deve-se deixar aberta a porta para a formulação de uma teoria em que uma certa experiência de loucura, seja o que for que isso possa significar, é universal"

Medo da loucura: elementos que se acham fora do funcionamento da lógica

A loucura original pertence a um estágio muito anterior à organização no ego dos processos mentais que abstraem as experiências catalogadas e apresentam-nas ara uso em termos de lembrança consciente.
"A loucura que tem que ser lembrada só pode ser lembrada em seu reviver (p. 98)".

"O paciente acha-se então sob uma compulsão - surgida de alguma premência básica que os pacientes têm no sentido de tornarem-se normais - de chegar à loucura e a necessidade de ser louco. (...) Pode-se ver, que se, em tal caso, o colapso é atendido por uma premência psiquiátrica à cura, todo o sentido do colapso é então perdido, pois, ao entrar em colapso, o paciente tinha um objetivo definido e o colapso não é tanto uma enfermidade quanto um primeiro passo no sentido da saúde (p. 99)".

As defesas se organizam em torno da ansiedade:
"no caso mais simples possível, houve portanto uma fração de segundo em que a ameaça da loucura foi experienciada, mas a ansiedade [ou agonia] neste nível é impensável. Sua intensidade acha-se mais além da descrição e novas defesas organizaram-se imediatamente, de maneira que a loucura, de fato, não foi experienciada. Por outro lado, contudo, ela foi potencialmente um fato (p. 100, grifo meu)".

--
O conceito de trauma em relação ao desenvolvimento do indivíduo dentro da família (1965, pp. 102-105)

A natureza do trauma envolve fatores externos, ou seja, é do domínio da dependência. O trauma rompe a idealização do objeto pelo ódio advindo do indivíduo. O ódio é reativo ao fracasso desse objeto em desempenhar sua função: uma adaptação perfeita. Em certa medida, todos somos "traumatizados" por fracassos do ambiente, mas apenas quando a falha ocorre em um tempo ou dimensão que são incompreensíveis para o bebê, ou que ele seja incapaz de tolerar, aí sim decorre um trauma no sentido estrito do termo.

Medo do colapso

Winnicott, D. W. (1963). O medo do colapso. In: Winnicott, C.; Shepherd, R. & Davis, M. (1994). Explorações Psicanalíticas: D. W. Winnicott. Porto Alegre: ArtMed, pp. 70-76.

Experiências passadas do indivíduo e caprichos ambientais.
Colapso (breakdown): fracasso da organização defensiva.

"Notar-se-á que embora haja valor em pensar que, na área das psiconeuroses, é a ansiedade de castração que faz por trás das defesas, nos fenômenos mais psicóticos que estamos examinando é um colapso do estabelecimento do self unitário.
O ego organiza defesas contra o colapso da organização do ego e é esta organização a ameaçada. Mas o ego não pode se organizar contra o fracasso ambiental, na medida em que a dependência É um fato da vida" (p. 71)

-Inversão do processo de amadurecimento

Holding --> Handling --> object presenting

Desenvolvimento integrador
Indwelling (personalização): conluio psicossomático ----> relacionamento objetal

Agonias primitivas
-Retorno à não-integração --- defesa: desintegração)
-Cair para sempre (gravidade) --- defesa: self holding
-Perda do conluio psicossomático --- defesa: despersonalização
-Perda do senso de real --- defesa: exploração do narcisismo primário
-Perda da capacidade de relacionamento de objeto --- defesa: estado autista

A enfermidade psicótica como defesa
A agonia subjacente à defesa é impensável. A enfermidade psicótica é "uma organização defensiva relacionada a uma agonia primitiva, e é geralmente bem-sucedida (exceto quando o meio ambiente facilitador não foi deficiente, mas sim atormentador, que é talvez a pior coisa que pode acontecer a um bebê humano)" (p. 72).



O medo do colapso é o medo de um colapso que já foi experienciado.
"É um medo da agonia original que provocou a organização de defesa que o paciente apresenta como síndrome de doença.
A experiência original da agonia primitiva não pode cair no passado a menos que o ego possa primeiro reuni-la dentro de sua própria e atual experiência temporal e do controle onipotente agora (p. 73)".

A agonia original é um fato que o indivíduo carrega consigo, escondido no inconsciente que é tudo aquilo que foi vivido, mas que a integração do ego não foi capaz de abranger na área de onipotência. A regressão à dependência, na análise, permite ao indivíduo reviver a agonia na transferência e, se o analista foi suficientemente bom, tornar o inconsciente (não reprimido, mas não integrado) capaz de emergir à consciência. Caso contrário, o indivíduo busca o detalhe passado no futuro: a agonia primitiva passada se transforma, definitivamente, em ansiedade (e, consequentemente, em medo).

A transferência permite que o indivíduo gradualmente reúna o fracasso original do meio ambiente, atualizado nas falhas do analista, dentro da área de sua onipotência.

O diacrônico impossível e esquisito se torna sincrônico e possível. Libertador.

O medo da morte é similar ao medo do colapso e, no mais das vezes, faz uso da religião para ser negado e postergado para o futuro mais distante.
Morte fenomenal: envio do corpo a uma morte que já aconteceu na psique (suicídio).

"Tudo o que lhe peço é que me ajude a cometer suicídio pela razão certa e não pela razão errada".
A alternativa delirante: eu estou morto - querem me matar.

A morte, para o ego primitivo, é o aniquilamento: a continuidade do ser é interrompida para sempre; isto é, não há como entender que a intrusão terá fim (uma espera de meia hora para um recém-nascido?)

Medo do vazio: nada de proveitoso aconteceu quando poderia ter acontecido.

O vazio primário é o antes de começar a se encher. "Na prática, a dificuldade é que o paciente teme o horror do vazio e, como defesa, organizará um vazio controlado, não comendo ou não aprendendo, ou então, impiedosamente o encherá por uma voracidade que é compulsiva e parece louca. Quando o paciente pode chegar ao próprio vazio e tolerar esse estado por causa da dependência no ego auxiliar do analista, então receber em si pode começar a ser uma função prazerosa" (pp. 75-76).

Na análise de psicóticos, experienciar equivale ao lembrar da análise dos neuróticos. Em ambos os casos, apenas na transferência a regressão, e consequente afrouxamento das feresas, é possível.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Natureza humana

Criança indesejada? O mundo é que não foi desejado - o self é a possibilidade de se tornar capaz de existir (continuidade do ser, awareness) "a despeito" do mundo.

Dependência: holding ---concern---> triangulação (ódio, culpa e concern)

Saúde física: hereditariedade (nature) e criação (nurture). Os dispositivos inatos só se tornam reais mediante a experiência.

Doenças:
"É importante também que saibamos de que tipo é a ansiedade que produz a ameaça; por exemplo, as defesas podem ser contra o medo de perder o pênis, ou de perder alguma função importante associada a um instinto. Podem ser também defesas contra a depressão, ou seja, contra uma desesperança pertencente a sentimentos de culpa, inconscientes eles mesmos, ou relativos a algum elemento inconsciente. Também é possível que as defesas sejam contra o medo de perder o contato com a realidade externa, ou contra o medo de uma desintegração caótica"

Efeitos da psique sobre o corpo e seu funcionamento
A saúde física dá significado à saúde psíquica e vice-versa - o corpo terá de ser sacrificado em muitos pontos, já que a liberdade dos instintos é restringida no processo de socialização. O compromisso entre as exigências do instinto e as da realidade social pode, contudo, ser construído com um mínimo de prejuízo.
Conflitos na consciência: manejo constante.
Conflitos no inconsciente: formação mais cega de sintomas.

A psicanálise da criança permite conhecer um processo ainda em meio a sua formação e derivar acesso a formações rudimentares presentes no adulto. Não temos uma idade: temos todas as nossas idades juntas ao mesmo tempo: as idades passadas na história, a idade presente e as expectativas das idades futuras.

A psique "torna-se algo que é capaz de criar e de perceber a realidade externa, torna-se um ser qualitativamente enriquecido, em condições de ir além daquilo que se pode explicar pelas influencias ambientais, e capaz não apenas de se adaptar, mas também de se recusar a se adaptar, e de se transformar numa criatura com algo que parece ser capaz de fazer escolhas" (p. 47)

Pré-genital             ingestão -------------------- ruthless (implacável)
   Alimentar            excreção ------------------- anal
                                    (experiências)                 uretral
                                                                                             "coisa" excretada "boa"
                                                                                                                         "má"

Fálica                   Menino, e o menino dentro das meninas


                                         genital masculino ----------- penetrar
                                                                   ----------- engravidar (ativo)
Genital
                                                                | ser penetrada
                                        genital feminino | ser engravidada (passivo)
                                                                | reter e livrar-se



Importância da pré-genitalidade
Diferença entre fantasia da experiência fálica e da experiência genital

Experiência fálica:
Ereção (coisa importantíssima, cuja perda seria terrível),
Exibição (desejo exibicionista);

depois, um objetivo declarado (penetrar e engravidar)

O funcionamento genital feminino verdadeiro tende a permanecer oculto ou até mesmo secreto. A menina que não sabe guardar segredo não pode ficar grávida, do mesmo jeito que o menino que não sabe lutar ou enfiar um trenzinho no túnel não pode deliberadamente engravidar uma mulher.

Tudo isso se dá na saúde. "Feliz e saudável é o menino que chega precisamente a este ponto de seu desenvolvimento físico e emocional [, o do complexo edípico,] quando a família está intacta, e que pode ser acompanhado em meio a esta constrangedora situação em primeira mão pelos próprios pais, que ele conhece muito bem, pais que toleram ideias, e cujo relacionamento é firme o bastante a ponto de não temerem a tensão sobre as lealdades, criada pelos ódios e amores de criança" (p. 68, grifo meu).
Assim, a criança "tornar-se-á capaz de tolerar os sentimentos humanos mais intensos sem construir defesas excessivas contra a ansiedade. As defesas, porém, sempre existirão e levarão à criação de sintomas. Os sintomas neuróticos são organizações de defesa contra a ansiedade, na verdade contra a ansiedade de castração, ansiedade que surge dos desejos de morte inerentes ao Complexo de Édipo. O anormal aponta para o normal".


"Para as crianças há ainda mais certeza quanto à frustração da vida instintiva do que na idade adulta, e é em parte por isso que observamos na infância uma valorização maior do brincar e da imaginação criativa" (p. 72)

Relações triangulares
"A criança odeia a terceira pessoa. Por ter sido um bebê, a criança já conhece o amor e a agressão, e também a ambivalência e o medo de que aquilo que é amado seja destruído. Agora, finalmente, na relação triangular, o ódio pode aparecer livremente, pois o que é odiado é uma pessoa que pode se defender, e que na verdade já é amada"
O ódio somente pode aparecer de forma saudável contra uma pessoa total, com capacidade de se defender e de retaliação, a qual já fora/é amada (outrora) e por isso também é capaz de perdoar.

"A criança deve empregar os tipos de experiência pré-genital e genital imatura que estão a seu alcance, e deve valer-se ao máximo do fato de que a passagem do tempo, algumas horas ou por vezes alguns minutos, traz alívio para praticamente tudo, por intolerável que pareça, desde que alguém familiar e compreensivo esteja presente, mantendo a calma quando o ódio, a raiva, a ira, o desespero ou a mágoa parecem ocupar o universo inteiro" (pp. 75-76).

Valor e perigo da cena primária
Sonho de ocupar o lugar de um dos pais na cena primária, construção da fantasia e risco de que ela se torne real. Os pais podem falhar na criação dos filhos por não serem capazes de distinguir claramente entre os sonhos da criança e os fatos (e assim também todas as pessoas da sociedade, particularmente ao ouvir de fantasias de destruição). A criança saudável não consegue tolerar compleramente os conflitos e ansiedades presentes no auge da experiência instintiva. A fantasia é, portanto, matéria prima que permite a civilização, pois "sem a fantasia, as expressões de apetite, sexualidade e ódio em sua forma bruta seriam a regra" (p. 78). Eu sou humano na medida de meus símbolos.

Autoconhecimento
"Os pacientes psicóticos (e as pessoas normais de tipo psicótico) pouco se interessam por ganhar maior autoconsciência, preferindo viver os sentimentos e experiências místicas, e suspeitando do autoconhecimento intelectual ou mesmo desprezando-o. Estes pacientes não esperam que a análise os torne mais conscientes, mas aos poucos eles podem vir a ter esperanças de que lhes seja possível sentir-se reais" (p. 79).

(...) a análise da psicose do tipo esquizoide (...) exige que o analista seja capaz de suportar a regressão real à dependência.

Holding = interpretação correta e oportuna no setting continente pelo analista suficientemente bom.


Desenvolvimento emocional característico da primeira infância
Oral (dentro e fora)
Reconhecimento bidimensional da membrana do self
EU e não-EU
Senso de responsabilidade pela experiência instintiva e pelos conteúdos do eu
Sentimento de independência do que está fora - há algo equivalente ao eu no fora: o seio como parte de uma pessoa (de um outro)

eu + objetos = relacionamento

Posição depressiva
Discriminação entre estado excitado e tranquilo - o "ataque" impiedoso cede lugar ao concern (a mãe é uma pessoa que cuida do EU ao oferecer uma parte de si mesma para ser comida). O bebê começa a se preocupar com os relacionamentos.

ruthlessness --- concern (possibilidade de fazer reparações)
repetição do machucar-e-curar

Separar o que é bom e o que é mau no interior do self.

Amor (oral), culpa (sádico) e reparação (anal)

A mãe, que sustenta e põe o tempo em marcha, oferece parte de si para ser comida. Por satisfazer o instinto e gerar prazer, o seu seio é bom e o bebê pode sentir que seu leite é bom: há algo de bom nele. Por, ao mesmo tempo, também se ausentar e deixar, em parte, o instinto não satisfeito, ela também proporciona desprazer na frustração. O bebê se enche de ódio dela e deseja destruí-la. A próxima mamada deixará introjetar também parte de um seio mau, e o bebê sentirá que há algo de mau nele (raiva). Aos poucos, por sustentar ser atacada e permanecer, ainda assim, o bebê sentirá que seus ataques podem destruir a mãe, que é boa e ao mesmo tempo má. Ele deverá fundir a agressão e o amor e tolerar a ambivalência. Se a mãe sobrevive, lhe será mais fácil tolerar a ambivalência e assumir responsabilidade pelos seus possível ataques. O bebê sentirá culpa e se preocupará com a mãe. Dotado de elementos bons ele mesmo, o bebê precisará de oportunidades de oferecer à mãe algo que a cure, que repare o mau causado. Esta será uma produção sua (as fezes), que será recebida pela mãe e o bebê poderá ficar tranquilo e suportar mais um dia.

1) Experiências instintivas
a. satisfatórias (boas)
b. insatisfatórias, complicadas por raiva devida à frustração (más)

2) Objetos incorporados (experiências instintivas)
a. no amor (bons)
b. no ódio (maus)

3) Objetos ou experiências interiorizadas magicamente
a. para controlar (mau potencial, persecutório)
b. para usar como enriquecimento ou controle (bom potencial)

O potencial dependerá da experiência para vir a se tornar fato, ou pode permear também as fantasias.
A separação é a capacidade de esperar o futuro e reconhecer a constância do objeto.

O que a posição depressiva permite descobrir:
O self é uma unidade; o objeto externo é uma coisa inteira. O tempo e o espaço existem, a psique está integrada ao corpo. O bebê pode se preocupar quanto ao objeto e quanto às consequências no self da experiência excitada.

"A partir do momento em que a integração é alcançada (mas não antes), a criança controla os impulsos instintivos por causa das ameaças ao seu movimento implacável, que provoca uma culpa intolerável - ou seja, o reconhecimento do elemento destrutivo na ideia excitada primitiva e bruta" (p. 99).
"A culpa pelos impulsos amorosos primitivos representa uma conquista do desenvolvimento", ou seja, não é inata.

"Os psicóticos são portadores de distúrbios derivados de um estágio ainda mais precoce e básico. Suas dificuldades e problemas são especialmente aflitivos. Por não serem inerentes, não fazem parte da vida, e sim da luta para alcançar a vida - o tratamento bem-sucedido de um psicótico permite que o paciente comece a viver e comece a experimentar as dificuldades inerentes à vida" (p. 100)

Quando a ansiedade é grande demais, processos mágicos acontecem, enquanto substitutos dos processos externos anteriores (alimentação e alucinação). O fenômeno interno mau que não pode ser controlado, contornado ou excluído é sentido pela criança como uma ameaça que vem de dentro, frequentemente se transforma em dor. Experiências más internas têm menor limiar de tolerância (como fugir?). Elementos persecutórios podem ser projetados, percebidos ou encontrados no mundo exterior. "Quando existe a expectativa de perseguição, uma perseguição real traz alívio, um alívio devido ao fato de que o indivíduo não precisa se sentir louco ou delirante" (p. 101).
A função anal depreende da possibilidade de expulsar objetos maus internos, intoleráveis, (potencialmente) ingeridos (introjetados) e persecutórios - não farão mal ao corpo, pois podem ser (e são) naturalmente jogados fora, todos os dias. Alguns conjuntos de perseguidores, contudo, são grandes demais e precisam ser projetados magicamente. "Os indivíduos lentamente aprendem como levar o mundo a persegui-los, de modo a poderem obter alívio da perseguição interna sem estarem expostos à loucura do delírio" (p. 105).
A capacidade de se deprimir, de apresentar uma depressão reativa, de sofrer um luto por uma perda não é inata, nem constitui uma doença (...) O importante é a capacidade do bebê ou do indivíduo de aceitar a responsabilidade pela intenção destrutiva no impulso amoroso total, incluindo a raiva pela frustração" (p. 106) e direcionar-se para a reparação.

Ansiedade hipocondríaca
Dúvida=doença

Desenvolvimento emocional primitivo
O primeiro contato influencia o padrão de relacionamento com a realidade externa.
A mãe torna possível a ilusão de que o seio foi criado pelo impulso originado na necessidade. A total dependência demanda uma adaptação perfeita: mas as falhas permitem o desilusionamento.

necessidade --- desejo
ilusão ----> desilusão

E neste momento o bebê está pronto para ser criativo, já que o potencial de excitação, em algum momento, de fato, resultará na produção de leite na mãe. Assim, o bebê cria uma realidade que, de fato, está lá para ser criada. Caso a "mamada teórica" seja forçada, a realidade é outorgada sobre o bebê e ele não tem espaço para criar.
Ao chupar o dedo ou agarrar um pano, o bebê declara seu controle mágico sobre o mundo e prolonga a onipotência originalmente satisfeita pela adaptação realizada pela mãe. A loucura seria a persistência da exigência de tolerância à criatividade onipotente do bebê na área transicional.
Quando a mãe é incapaz de satisfazer as vontades do bebê de forma sensível, o contato com a realidade fracassa. Ele não necessariamente morre, mas sua existência está fadada a um destino débil. São desenvolvidos tipos diferentes de relação objetal, que podem existir desconectados um do outro.
- De um lado estará a vida do bebê, na qual os relacionamentos têm por base a sua capacidade de criar, mais do que a memória dos contatos anteriores,
- e do outro lado estará um falso self, que se desenvolve sobre uma base de submissão e se relaciona com as exigências da realidade externa de forma passiva (p, 127-128).

No Rorschach, isso pode aparecer em termos de:
FQu                                         L alto
H baixo                                    D alto
A alto                                       p>a+1

"Nos graus menos extremos dessa doença não é tanto o estado primário de cisão que iremos encontrar e sim uma organização secundária cindida que indica uma regressão diante de dificuldades encontradas num estágio posterior do desenvolvimento emocional" (pp. 128-129). A desintegração, portanto, pode ser um processo de defesa ativa, porquanto se origina do ser, e não é reativa a falhas do ambiente.

"Há um tipo de artista que inicia seu trabalho com a representação bruta dos fenômenos secretos do self ou da vivacidade pessoal, que para ele é repleta de significados, mas que num primeiro momento não têm sentido para os outros. A tarefa dele é tornar inteligíveis suas representações e, para fazê-lo, ele deve até certo ponto trair a si próprio. Quanto à sua criação, na verdade, se ela for apreciada em excesso, o artista poderá retrair-se inteiramente, pela sensação de ter sido falso para si próprio. Esse artista é apreciado por pessoas retraídas, aliviadas por encontrar algum (não demasiado) compartilhamento daquilo que é basicamente pessoa e essencialmente secreto".
--devemos reconhecer a criatividade potencial não tanto pela originalidade de sua produção, mas pela sensação individual de realidade da experiência e do objeto.

Filosofia do real
"Alguns bebês têm a sorte de contar com uma mãe cuja adaptação ativa inicial à necessidade foi suficientemente boa. Isto os capacita a terem a ilusão de realmente encontrar aquilo que eles criaram (alucinaram). Eventualmente, depois que a capacidade para o relacionamento foi estabelecida, estes bebês podem dar o próximo passo rumo ao reconhecimento da solidão essencial do ser humano. Mais cedo ou mais tarde, um desses beb~es crescerá e dirá: "eu sei que não há nenhum contato direto entre a realidade externa e eu mesmo, há apenas uma ilusão de contato, um fenômeno intermediário que funciona muito bem para mim quando não estou muito cansado. A mim não importa nem um pouco se aí existe ou não um problema filosófico" (p. 135).
De fato, àqueles que se preocupam com esse tipo de questão seguramente foi precedida uma experiência de dúvida ou frustração no estabelecimento desse pensamento: "bebês que tiveram experiências um pouco menos afortunadas veem-se realmente aflitos pela ideia de que não há um contato direto com a realidade externa. Pesa sobre eles o tempo todo uma ameaça de perda da capacidade de se relacionar. Para eles o problema filosófico se torna e permanece sendo vital, uma questão de vida ou morte, de comer ou passar fome, de alcançar o amor ou perpetuar o isolamento" (P. 135)

A possibilidade de transformação da dor em arte ou filosofia:
“What is a poet? An unhappy man who hides deep anguish in his heart, but whose lips are so formed that when the sigh and cry pass through them, it sounds like lovely music.... And people flock around the poet and say: 'Sing again soon' - that is, 'May new sufferings torment your soul but your lips be fashioned as before, for the cry would only frighten us, but the music, that is blissful.” (Soren Kiekergaard)

Integração
Momentos de convergência aglutinadora do self como um todo promovem gradualmente a integração. "O bebê se desmancha em pedaços a não ser que alguém o mantenha inteiro" (p. 137).
-incorporar e manter lembranças.
-a integração é um estado precário (Humpty-Dumpty), é o que provoca o sentimento de sanidade e a perda, para sempre, do estado de não-integração. Gera novas ansiedades (estar vivo e ser um, ansiedade da morte e da fragmentação, da perda e da separação) e a defesa da desintegração é, em parte, responsiva a estas, como uma esperança de voltar à não-integração (a não estar vivo).


Os estados iniciais

O nascimento "normal" é aquele que é provocado pelo bebê. O estar-vivo já ocorre antes do nascimento e este pode ser produzido pelos impulsos do próprio bebê em direção ao movimento e à mudança que se originam diretamente do estar-vivo. Não há capacidade de espera ou de antecipação, pois o tempo ainda não foi posto em marcha. Qualquer demora ou antecipação é infinita.
O ambiente põe os dias em marcha, dá os primeiros sinais do que é o ritmo (respiração, frequência cardíaca da mãe). O impulso e a necessidade são construções criativas e vem de dentro. É preciso um período de recuperação após cada falha do ambiente, para reequilibrar a constituição ainda frágil de dentro e fora.

Desenvolvimento segundo as relações objetais
 - solidão
 - dependência absoluta (dupla dependência)
 - impulso instintivo (ruthless)
 - preocupação e culpa (dependência relativa, objeto parcial)
 - reparação
 - relação triangular
 - rumo à independência

Indivíduo e meio: como será feito o contato?
O movimento do próprio indivíduo descobre o ambiente
O ambiente "invade", por meio de uma intrusão (impingement), que é imprevisível e demanda reação. Neste modo de relacionamento, a excitação torna-se intrusiva (é um "intruso"). O mundo o invade - e a única possibilidade de interação é submissa.
O narcisismo primário, ou o estado anterior à aceitação de que existe um meio ambiente, é o único estado a partir do qual o ambiente pode ser criado. Um meio intrusivo não pode ser criado.

No princípio, há uma solidão essencial, inorgânica: solidão absoluta na dependência absoluta.
Desconhecimento do ambiente, a continuidade do ser depende da adaptação.
"O estado anterior ao da solidão é um estado de não-estar-vivo, sendo que o desejo de estar morto é em geral um disfarce para o desejo de ainda-não-estar-vivo. A experiência do primeiro despertar dá ao indivíduo a ideia de que existe um estado de não-estar-vivo cheio de paz, que poderia ser pacificamente alcançado através de uma regressão extrema. Muito do que geralmente é dito e sentido a respeito da morte, na verdade se refere a este estado anterior ao estar-vivo, no qual o estar sozinho é um fato e a dependência ainda se encontra muito longe de ser descoberta" (p. 154)

Caos
Intrusões
Desintegração: alternativa para a ordem, defesa contra ansiedades advindas da integração
Depressão: controle mágico do caos interno (tentativa de exteriorizar o caos interno)

Na cisão:
O verdadeiro self, dotado de esponaneidade, é incomunicável;
O falso self, baseado das intrusões do meio, é o que se relaciona com o meio externo.

Na dissociação: excessiva falta de comunicação entre os diversos elementos da personalidade.

Na repressão: perda de vários sentimentos, pensamentos, devido à dor intolerável que eles causam quando são trazidos à consciência

"Se o desenvolvimento transcorre favoravelmente, o indivíduo torna-se capaz de enganar, mentir, negociar, aceitar o conflito como um fato, e abandonar ideias extremas da perfeição e do seu oposto, que tornam a existência intolerável".
O ser humano é cruel, mas não está de todo estragado.

A função intelectual
Explica, admite e antecipa (memória) a desadaptação (criatividade).
Controle e racionalização: espécie de babá da criança.

Retraimento e dependência
Regressões no processo psicoterapêutico: o narcisismo permite ao sujeito o não reconhecimento da dependência, a onipotência e a verdade, já que não há intrusão. No narcisismo primário, o bebê não é forçado a reconhecer o ambiente e reagir a ele.

---No início, o ambiente se adapta às necessidades do bebê, permite que ele (crie a ilusão) ilusione a criação do mundo a partir de suas necessidades (excitações de origem interna que se transformarão em desejo). Na medida em que o bebê retém as ifnromações sobre a adaptação do meio, ele reconhece sua dependência e desenvolve a capacidade de:
-estar só na presença do outro;
-cuidar de si;
-se preocupar com o outro.
O ambiente começa a se desadaptar e desilusiona o bebê, que tolera a imperfeição do ambiente e a sua própria, na tolerância da ambivalência.

A espera infinita do nascimento "fornece uma base muito poderosa para coisas tais como a questão da forma na música, onde, sem a rigidez da moldura, a ideia do fim é mantida diante do ouvinte desde o início. A música sem forma aborrece. E a inexistência de formas é infinitamente enfadonha para aqueles que se sentem particularmente aflitos por este tipo de ansiedade, por conta de adiamentos impossíveis de compreender ocorridos em sua primeira infância" (p. 167)

No Rorschach, a atribuição repetitiva e enfática das formas (Lambda alto) pode aparecer como organização defensiva contra o infinito.

O ambiente
Pode ser mais fácil enfrentar a guerra e a morte do que algo como o imbroglio.
Mãe: ilusão de contato com o mundo externo (construção da área transicional).
Preocupação materna primária: capacidade de se identificar com o bebê (a partir do bebê que a mãe foi).

Handling (ancora a psique no corpo, cuidado técnico do corpo)
Holding (sustenta e permite o envolvimento, cuidado emocional, expressão de amor)





sábado, 15 de dezembro de 2012

O desenvolvimento da capacidade de envolvimento

Winnicott, D. W. (1963). O desenvolvimento da capacidade de envolvimento. Em Winnicott, D. W. (2005). Privação e delinquência. São Paulo: Martins Fontes, pp. 111-126.

Envolvimento (concern, positivo) - culpa (negativo)
Um sentimento de culpa é angústia vinculada ao conceito de ambivalência, e implica um grau de integração do ego individual que permite a retenção da imago do objeto bom, ao lado da sua ideia de destruição.

Envolvimento e senso de responsabilidade: se refere ao fato do indivíduo se preocupar, se importar, sentir e aceitar responsabilidade. É a base da família, do brincar criativo e do trabalho construtivo.

Fusão: pulsões eróticas e agressivas em relação a um mesmo objeto, ao mesmo tempo.
Eróticas: busca de satisfação e de objeto;
Agressivas: complexo de raiva, empregando erotismo muscular, e ódio, envolvendo a retenção de uma imago do objeto bom para comparação.
Impulso agressivo-destrutivo: tipo primitivo de relação com o objeto em que o amor envolve destruição. Combinar a experiência erótica com a agressiva em relação a um único objeto (ambivalência).

Fantasia: elaboração da função corporal.
Bebê: a integração passa por estágio primitivo Humpty Dumpty.


O muro é o colo da mãe (ausente).

A integração do ego no desenvolvimento da criança

Winnicott, 1962.

Nos estágios mais precoces no desenvolvimento da criança, os fenômenos vivenciados são as manifestações do que se poderia denominar id, mas não há id sem ego.
O ego é o próprio início -- processo de integração e diferenciação eu/não eu
O bebê é um ser imaturo que está continuamente a pique de sofrer uma ansiedade inimaginável - depende da capacidade da mãe de se por no lugar do bebê, que não existe sem ela.

Elemento esquizoide oculto em uma personalidade não-psicótica nos demais aspectos: ansiedades inimagináveis (falhas precoces ainda não percebidas como ambientais):
-Desintegração (falha na função da pele-envelope)
-Cair pra sempre (gravidade)
-Não ter conexão alguma com o corpo (localização da psique no corpo)
-Carecer de orientação (tempo e espaço)

Desenvolvimento do ego:
Integração (no tempo e no espaço): cuidado, holding
Personalização (ego corporal): handling, erotização
Relações objetais: apresentação de objetos

Integração vinda de onde? Elaboração imaginária do funcionamento do corpo desse novo ser humano que começou a existir e ter experiências que serão denominadas de pessoais.

Integração com o que? Constituição de personalidade no padrão da continuidade existencial. A criança cujo padrão é o de fragmentação na continuidade do ser tem uma tarefa do desenvolvimento que fica, desde o início (talvez das primeiras horas), sobrecarregada no sentido da psicopatologia.

A integração está rrelacionada à função ambiental de segurança, se baseia na unidade (I am alone).
I- pele limite (psicossomática, diferenciação não-eu);
am - existo (interação com o não-eu);
alone - há outras pessoas que percebem minha existência, na "rotação do espelho".
A desintegração é uma defesa sofisticada contra a não-integração na ausência de auxílio ao ego por parte da mãe, resultante da falta de segurança no estágio de dependência absoluta. O caos decorrente da desintegração parece ruim, mas ao menos é legítimo, pois se origina no bebê, ao contrário das ansiedades inimagináveis, que se originam da falha do ambiente.

O bebê desenvolve a expectativa vaga que se origina em uma necessidade não-formulada. A mãe, em se adaptando, apresenta um objeto ou uma manipulação que satisfaz as necessidades do bebê, que começa a se sentir confiante em ser capaz de criar objetos e criar o mundo real. Ela proporciona ao bebê um breve período em que a onipotência é um fato da experiência.

Teoria do relacionamento paterno-infantil

Na psicanálise, reconhecemos que não existe trauma que fique fora da onipotência do indivíduo, tudo fica sob o controle do ego e as interpretações que podem mudar coisas são aquelas que podem ser feitas em termos de projeção.
Na infância, contudo, acontecem coisas boas e más que estão bem fora do âmbito da criança. O paradoxo é que o bom e mau no ambiente da criança não são projeções, mas é preciso, para a criança, que tudo pareça sê-lo. Daí a onipotência e o princípio do prazer em operação; o reconhecimento de um não-eu verdadeiro é uma questão de intelecto, se sobrevirá em termos de sofisticação e amadurecimento.
No princípio, era a pulsão - enfiaram em minha boca em pranto um seio e todos os meus desejos começaram.
---Freud: Objetar-se-á com razão que uma organização que era escrava do princípio do prazer e negligenciava a realidade do mundo externo não se poderia manter viva pelo mais curto espaço no tempo, de modo que não poderia chega a resistir de modo algum. O emprego de uma ficção como essa é contudo justificado quando se considera que o lactente - uma vez que se inclua nele o cuidado que recebe da mãe - quase que concretiza um sistema psíquico deste tipo. Ele provavelmente alucina a satisfação de suas necessidades internas; revela seu desprazer quando há uma aumento do estímulo e uma ausência de satisfação pela descarga motora de berrar e espernear com seus braços e pernas e então experimenta a satisfação que tinha alucinado. Mais tarde, como criança mais velha, aprende a empregar estas manifestações de descarga intencionalmente como método de expressão dos sentimentos. Desde que o cuidado posterior das crianças está modelado no cuidado dos lactentes, a dominância do princípio de prazer pode realmente vir a ter fim somente quando a criança atingiu a separação psíquica completa de seus pais".

O ego se constitui mediante a empatia da mãe-ego-auxiliar. O ego materno é a principal razão para o desenvolvimento da capacidade de controle e integração do id no ego (tornando-o forte e estável).
As forças do id clamam por atenção. De início elas são externas ao lactente. Normalmente o id se torna aliado a serviço do ego, e o ego controla o id, de modo que as fatisfações do id fortalecem o ego. Na psicose infantil (ou esquizofrenia) o id permanece total ou parcialmente "externo" ao ego, as satisfações do id permanecem físicas e têm o efeito de ameaçar a estrutura do ego.

prazer--------------------tríade realidade

unidade -----> diade ego -----> defesas do ego

dependência absoluta (dupla) ----> dependência relativa ---> rumo à independência

autoerotismo (ego=id) ---> narcisismo (ego=objeto) ---> relações objetais

O lactente
Os lactentes vêm a ser - desde que sempre seja aceito que o potencial herdado de um lactente não pode se tornar um lactente a menos que ligado ao cuidado materno (o potencial se materializa na experiência, possibilitada pelo ambiente).

-O potencial herdado e seu destino
cuidado paterno (holding, mãe-bebê, pai+mãe+criança): viver com (relações objetais)

Isolamento do indivíduo
O núcleo central do ego é afetado e esta é a natureza real da ansiedade psicótica. Normalmente o indivíduo logo se torna vulnerável a este respeito, e se fatores externos o irritam há meramente um novo grau e qualidade no ocultamento do self central. A esse respeito a melhor defesa é a organização de um falso self. A satisfação instintiva e as relações objetais constituem uma ameaça ao vir-a-ser pessoal do indivíduo.
As relações objetais normais podem se desenvolver na base de uma conciliação, uma que envolve o indivíduo no que mais tarfe poderia se denominar engodo e desonestidade, enquanto que uma legação direta só é possível na base de uma regressão ao estado de fusão com a mãe.

Aniquilamento
O potencial herdado, possibilitado pela experiência e pelo meio, permitem a continuidade do ser. A alternativa a ser é reagir, e reagir interrompe o ser e o aniquila.
Sob ocndições favoráveis o lactente estabelece uma continuidade da existência e assim começa a desenvolver a sofisticação que torna possível estas irritações serem absorvidas na área da onipotência.
A morte exige consideração pela pessoa humana completa (Hpuro), que pode ser mutilada. Ao contrário, a aniquilação é reação e interrupção no SER (que não É AINDA humano ou indivíduo, mas completamente depentende).

O papel do cuidado materno
Holding: proteção contra agressão fisiológica, promove a sensibilidade do bebê, põe o tempo em marcha (rotina completa) e introduz ao amor.
Tudo isso leva a, inclui e coexiste com o estabelecimento das primeiras relações objetais do lactente e suas primeiras experiências de gratificação instintiva. O holding não exige que a mãe exista, e o bebê pode seguir com a ilusão da onipotência, cria a mãe que está lá para ser criada.
-A esquizofrenia ou psicose infantil ou uma predisposição à psicose em uma data posterior se relacionam com uma falha da provisão ambiental. Por mais que possam ser descritas em termos do indivíduo (distorção do ego, defesas contra ansiedades primitivas).

Ao redor do fim da fusão, quando a criança se tornou separada do ambiente, ela tem que transmitir sinais. Quando a mãe não aguarda estes sinais, e satisfaz as necessidades do bebê antes mesmo que ele possa senti-las, o gesto criativo, o choro e o protesto ficam faltando, o que o deixa com duas alternativas: ou fica fundido com a mãe, em estado permanente de regressão, ou repudia completamente a mãe, ainda que uma mãe aparentemente boa. Porque, no fim das contas, o que importa é não se trair.
Isso é dificilmente compreendido pelas mães, por causa do fato das crianças vacilarem entre um ponto e outro: em um minuto estão fundidos e querem empatia, no outro estão separados e, se a mãe souber suas necessidades por antecipação, a criança pode sentir-se invadida, a mãe é uma bruxa perigosa.
O resultado de cada falha no cuidado materno é que a continuidade do ser é interrompida por reações às consequências desta falha, do que resulta o enfraquecimento do ego.

As mudanças na mãe
Em geral, as mães se identificam com o bebê dentro delas, e, por identificação projetiva, podem atingir uma percepção muito sensível do que o bebê necessita.



A capacidade para estar só

Winnicott, D. W (1958). A capacidade para estar só. Em: Winnicott, D. W. (1983). Ambiente e processos de maturação. Porto Alegre: ArtMed.

A verdadeira culpa se situa na intenção inconsciente - ansiedade com uma qualidade especial, ansiedade sentida por causa do conflito entre amor e ódio na tolerância da ambivalência.
SUPEREGO: gênese da culpa é uma questão de realidade interna, a culpa reside na intenção.

Psicopatologia do sentimento de culpa: uma falha na oportunidade adequada para o trabalho construtivo pode levar a um sentimento de culpa intolerável e inexplicável. A diminuição da carga do sentimento de culpa se segue à diminuição da repressão.
Na neurose obsessiva muitas vezes verificamos um ritual que é como uma caricatura da religião, como se o Deus da religião estivesse morto ou temporariamente inatingível. A confusão é mantida para ocultar algo muito simples: em uma situação específica, o ódio foi mais poderoso do que o amor.

Fusão agressão+erótico=sádico. Agressão associada às frustrações e fruto dos primórdios do princípio de realidade.

"Nenhuma experiência mais fascinante espera pelo analista do que a observação do crescimento gradativo da capacidade do indivíduo de tolerar os elementos agressivos no seu impulso amoroso primitivo" (p. 26). Crescimento gradativo da capacidade de tolerar os elementos agressivos do instinto amoroso: dúvida com relação ao resultado da lura entre forças do bem e do mau.

sentimento de culpa --> valoração bom/mau

"É interessante reparar que o artista criativo é capaz de chegar a um tipo de socialização que obvia a necessidade do sentimento de culpa e a atividade reparativa e restitutiva associada que forma a base do trabalho construtivo habitual; O artista ou pensador criativo pode, na verdade, falhar em compreender, ou pode mesmo desprezar, o sentimento de preocupação que motiva uma pessoa menos criativa; e dos artistas se pode dizer que alguns não têm capacidade de sentir culpa e ainda assim atingira numa socialização através de seu talento  excepcional. As pessoas habitualmente governadas pelo sentimento de culpa acham isso surpreendente; ainda assim tenho um respeito sub-reptício pela falta de piedade que leva de fato, em tais circunstâncias, a conseguir mais do que o trabalho orientado pela culpa" (pp. 28-29).


Relacionamento a duas (posição depressiva) e a três (complexo edípico) pessoas
--ficar realmente só: fenômeno sofisticado.
Paradoxo: capacidade de estar só na presença de outra pessoa. Depois do coito, derivação dos sentimentos gerados pela cena primária: raiva e masturbação, responsabilidade pela fantasia, fusão da agressividade e do erotismo
Objeto interno bom: construir uma crença num ambiente benigno. Deve haver uma falta relativa de ansiedade persecutória, os objetos bons estão no mundo interno pessoal do indivíduo, disponíveis para projeção.

"I am alone"
I - afirmação topográfica da personalidade como um ser.
I am - estágio no crescimento individual, tem forma e vida. Pode ser vulnerável e persecutório, demanda um meio protetor.
I am alone - apreciação por parte da criança da existência contínua do meio (a mãe).

A capacidade de ficar só se baseia na experiência de estar só na presença de alguém.

Relacionamento com o ego
-relacionamento da criança com a mãe (matriz da txf).

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Dissertação

Ela tá ficando linda. Tem 109 páginas e estou terminando a primeira revisão. Falta o resumo, o abstract, a introdução, a discussão e a conclusão. Se bem que o capítulo de resultados tem tanta discussão que eu acho que incluirei pouca coisa a mais. Só uns detalhes teóricos, a parte do falso self do Winnicott e algumas considerações do Freud sobre a angústia. Era pra ter iniciado o grupo de estudos com o Bruno e a Cristina hoje, mas I called in sick e fiquei em casa o dia todo. Como tenho feito nos últimos meses (e a ociosidade é o que me afastou bastante do blog também).
Estou tomando antidepressivo. Succinato de desvenlafaxina monoidratado, 50mg. Acho que faz umas três semanas. Há duas semanas eu estou na casa de mamis, depois de um semi-quase-aumento-exagerado-da-ideação-suicida-que-sempre-me-acompanha. O sadomasopig andou se especializando e isso me assustou muito. Mas a dissertação tá ficando linda.
Dissertação Hayanna - versão com resultados completos, revisão pela metade
E acho que, por enquanto, é isso o que importa.

Estou planejando terminar de escrever essas partes que faltam agora no mês de novembro. Se tudo der certo, terei dezembro e janeiro para revisar e revisar de novo, posso chamar a banca até final de fevereiro ou março. Tenho o plano de dar aula no IESB no semestre que vem, e por isso seria legal defender até final de janeiro. Dá tempo. Não sei se o Ileno ajudaria, mas não custa perguntar pra ele. Mas também, se não der certo, posso tentar dar aula alhures. Meu medo é ficar sem renda, defender e perder a bolsa. Sei lá, estou pensando. Vou distribuir currículos nas faculdades esse mês de novembro. Devo dar aula de Rorschach em uma clínica no próximo sábado (ou seja, depois de amanhã). Tomara que dê certo, porque a dona da clínica está me enrolando há meses!
M&D Psicologia e Cursos

A dissertação tá ficando linda. Minha baby querida. Há poucos dias a imprimi pela primeira vez, ainda bem incompleta. Mas foi legal ver a quantidade de papel que meus dedos já conseguiu preencher. Meus dedos malucos e minha mente desequilibrada. Seria essa a característica da criatividade, a loucura? Porque esse é um dos meus achados da dissertação. Que está ficando do jeito que eu achava que ficaria, do jeito que eu gostaria, eu acho. Estudei gramática, estou revisando o Freud e o Winnicott, tudo bem devagar e no meu ritmo. Não tenho mais estado muito suicida nos últimos três ou quatro dias. Não estou sentindo aquela alegria falsa de antidepressivo, mas continuo dormindo quase 12 horas por dia (e cometendo uns erros de digitação muito escrotos, não sei o que é isso...). Me matriculei na academia, fui durante umas duas ou três semanas, depois parei de ir. Preciso voltar, estava me fazendo bem. Mas ficar em casa esses últimos dias também me faz muito bem, estou me sentindo bem melhor. Ah, e também a análise. Divã e o caralho. Ai ai ai...

É isso. Estou escutando muito a http://www.jazzradio.com/
E também esse cara aqui (música tema do apocalipse zumbi que ocorrerá em breve):



terça-feira, 30 de agosto de 2011

Problemáticas e problemáticas

Lendo o artigo da Elsa de Oliveira, e considerando as últimas aulas. Falei em aula hoje sobre o blog e sua característica intimista, me senti mais encorajada para vomitar com força, em vez de ficar só procurando forma. Afinal de contas, minha interlocução comigo mesma não me faz só tomar no cu. Fico falando e falando, e um jeito importante de lembrar as ideias que fogem é simplesmente jot them down.
O artigo fala da importancia da teoria desenvolvida por Winnicott para a clínica, apesar de nao haver a sistematização de uma técnica, assim como Freud o fez. Na perspectiva winnicottiana, os distúrbios mentais são caracterizados por falhas ambientais em alguma fase do amadurecimento do indivíduo. Quanto mais precoce esta falha, mais grave o distúrbio mental. Isto traz considerações importantes não somente para o manejo clínco, mas também para o psicodiagnóstico. Para Winnicott, se soubéssemos bem diagnosticar, economizaríamos muito desespero e sofrimento para nossos pacientes.
Minha inquietação é se Winnicott, Rorschach e McGorry dialogam. Pq a perspectiva internacional de intervenção precoce também pontua a importancia de bem avaliar para poder intervir com ferramentas sensíveis e específicas, e aqui eu consegui justificar a metodologia de avaliação como o Rorschach, por ser rápida e eficiente, faz sentido na IP.
Já com Winnicott, dava para forçar a barra e dizer que os achados anteriores demonstravam como as crises do tipo psicótica, por mais que não dissessem sempre sobre estruturas psicóticas, estão muito mais relacionadas a dificuldades ambientais, interrupções no desenvolvimento. Isto também é verdade na clínica do gipsi, e é preciso atribuir a devida importância para o psicodiagnóstico adequado. Ai ai, nem assim ficou bom, ainda está muito forçado.
Psicodiagnóstico em Winnicott - O ambiente e os processos de maturação, as contribuições da psicanálise para a classificação psiquiátrica: neurose, depressão, tendência antissocial e psicose. Não sei se a (minha) compreensão das primeiras crises faz sentido com Winnicott. Sou do psicodiagnóstico estrutural e dinâmico, com a personalidade como contexto para a psicopatologia (nossa, sou bem mais Marcelo Tavares do que estou disposta a assumir). A interação da compreensão psiquiátrica das primeiras crises, com uma perspectiva mais psicanalítica (não necessariamente winnicottiana, porque é psicodinâmica). E o medo de pegar de winnicott só o que me faz sentido? Como fazer dialogar epistemologicamente Exner e Winnicott? E a questão da construção de política publica? E a constelação, isso ainda pode fazer sentido se eu partir do arcabouço teórico winnicottiano?

Um primeiro esboço sobre o objetivo da pesquisa:
O objetivo desta pesquisa é descrever e sistematizar aspectos estruturais e dinâmicos da personalidade de indivíduos em primeiras crises do tipo psicótico ou em fase prodrômica atendidos no gipsi, na construção de uma contelação psicodiagnóstica de pródromos.
nem sei se vou continuar com esta história de pródromos. a gente vai precisar de uma oficina metodológica só pra falar de novo sobre este conceito.

O que era antes:
O objetivo desta pesquisa é investigar, sob a ótica psicanalítica winnicottiana, dados dos protocolos de Rorschach de clientes em primeiras crises do tipo psicótica ou em fase prodrômica, atendidos pelo gipsi. Tem como objetivo específico a sistematização dos dados dos protocolos na construção de uma constelação prodrômica. A constelação teria por objetivo uma descrição específica das primeiras crises e usa compreensão sob o olhar winnicottiano, investigar em que medida pode desconstruir a consideração tradicional da psicose. O apriorismo vem do trabalho desenvolvido na cl=inica das primeiras crises no gipsi, a desconstrucao do conceito de esquisaobrenia feito por Szasz-Costa e o uso do Método de Rorschach em trabalhos anterirores, o qual pode identificar que os sujeitos não apresentam sinais clássicos de psicose. Tese da Nerícia, não sei o que aconteceu, mas parece que este trabalho vai demorar horrores, preciso que meu orientador me diga coisas neste sentido...

Continuo com a ideia de pródromos ou vou para as primeiras crises de fato? daí seria uma constelação de primeiras crises? É um aspecto dinâmico e funcional da persnalidade, já que não se trata de psicose instaurada, mas sim de um processo que pode "se reverter" com intervenções adequadas?
O que é psicose?
Como avaliar psicose?
O que são primeiras crises?
Como avaliar nas crises?
Nas primeiras crises, o estranhamento já estava presente anteriormente? Ou ele se torna agravado na medida em que as crises se repetem?
Descrever as primeiras crises pode levar a características comuns? Porque eu sempre achei um exagero ter que "construir uma psicoterapia para cada cliente". Até porque se a gente estuda desenvolvimento, ou no caso de Winnicott, amadurecimento, os apriores já existem, há expectativas muito grandes a respeito do bebê e de seu meio de desenvolvimento.
Estou quase dormindo aqui. Quando estiver melhor da cuca, eu continuo.

domingo, 28 de agosto de 2011

Influências de grupo e a criança desajustada: o aspecto escolar


WINNICOTT, D. W. (1955). Influências de grupo e a criança desajustada: o aspecto escolar. In Winnicott, 1971. Privação e delinquência. São Paulo: Martins Fontes, pp. 215-226.
Esse eu já tinha lido, inseri novas considerações a partir da leitura anterior
O zeitgeist era que eu tava na corrida de Winnicott pra poder me livrar da influência do Zé Bigode. Mas freudiana até o talo.

Psicologia de grupos advém da psicologia individual~~
O desenvolvimento do nascimento até a morte - não se completa ou finaliza


Extensões graduais da palavra grupo dada às crianças:
família
pré-escola
lobinhos/fadinhas
escoteiros/guias
ideologias
religião
filosofia
cultura
civilização


Importância do ambiente no processo de amadurecimento em direção à integração
EU SOU
integração é criação de mundo interno, possibilitada pelo holding.
EU SOU significa perceber sua pele
e sentir-se nu.

A área intermediária, em que permanece parte da ilusão de criação onipotente, permite que um grupo seja uma realização EU SOU. O exterior(izado) não deve se tornar persecutório.

Para a criança desajustada dentro do grupo, aspectos de sua criatividade e seu sentimento de continuidade do ser foram atrapalhados por uma falta de adaptação do ambiente às suas necessidades precoces. A depender do grau de desajuste da criança, pode-se identificar a natureza da falha ambiental.

o Boby tá ca camisa sepi sujinha de sangue tiriquiti.



Classificação das crianças quanto a seu desajuste:
  1. Crianças que não se integraram em unidades e não podem contribuir para um grupo
  1. Crianças que desenvolveram um falso self (eu), o qual tem a função de estabelecer e manter contato com o ambiente e, ao mesmo tempo, proteger e ocultar o eu verdadeiro. Nesses casos, há uma integração ilusória que se desfaz assim que é admitida como ponto pacífico e convocada para uma contribuição
  1. Crianças retraídas. Neste caso, a integração foi realizada e a defesa se estabelece segundo linhas de uma redistribuição de forças benignas e malignas. Essas crianças vivem em seus próprios mundos interiores, os quais são artificialmente benignos embora alarmantes, por causa do funcionamento mágico. O mundo exterior dessas crianças é maligno ou persecutório
  1. Crianças que mantem uma integração pessoal através da ênfase exagerada na integração, e uma defesa contra a ameaça de desintegração que assume a forma de uma personalidade forte
  1. Crianças que conheceram um mundo intermediário com objetos que adquirem importância através da representação, ao mesmo tempo, de objetos internos e externos de valor. Essas crianças, não obstante, sofreram uma interrupção tal na continuidade de sua administração que o uso de objetos intermediários foi suspenso. Essas  são as crianças portadoras do comum "complexo de privação", cujo comportamento desenvolve qualidades antissociais sempre que começam de novo a ter esperanças. Roubam e anseiam por afeição e pretendem que acreditemos em suas mentiras. Na melhor das hipóteses, elas regridem de um modo geral, ou de um modo localizado, como no caso da enurese noturna, que representa uma regressão momentânea em relação a um sonho. Na pior das hipóteses, forçam a sociedade a tolerar seus sintomas de esperança, embora sejam incapazes de se beneficiar imediatamente de seus sintomas. Roubando, não encontram o que quere, mas podem finalmente (porque alguém tolera seus furtos) atingir um certo grau de nova crença em que o mundo lhes deve algo. Neste grupo há toda a gama de comportamentos antissociais.
  2. Crianças que tiveram um começo toleravelmente bom mas sofrem dos efeitos de figuras parentais com quem é inadequado para elas identificarem-se. Existem inúmeros subgrupos, como por exemplo
    1. Mae caótica
    1. Mae deprimida
    1. Pai ausente
    1. Mae ansiosa
    2. Pai de aparência austera, sem merecer o direito a ser austero
    3. Pais briguentos, a que se acrescentam condições precárias de moradia, o fato de a criança dormir no quarto dos pais etc.
  1. Crianças com tendências maníaco-depressivas, com ou sem um elemento hereditário ou genético
  1. Crianças que são normais, exceto em fases depressivas
  2. Crianças com expectativa de perseguição e tendência para se intimidarem ou para se tornarem fanfarronas e intimidarem outras. Nos meninos, isso pode constituir a base da prática homossexual
  3. Crianças que são hipomaníacas, com a depressão latente ou escondida em distúrbios psicossomáticos
  4. Todas aquelas crianças que estão suficientemente integradas e socializadas para sofrer (quando estão doentes) com as inibições, compulsões e organizações de defesa contra a ansiedade, as quais são geralmente classificadas em conjunto sob a designação de psiconeuroses
  1. Crianças normais - quando se defrontam com anormalidades ambientais ou situações de perigo podem empregar qualquer mecanismo de defesa mas não são impelidas para um tipo de mecanismo de defesa por distorções do desenvolvimento emocional pessoal



O curioso na classificação das crianças desajustadas de Winnicott é que, quanto mais "saudável" a criança, mais aspectos existem para ser descrito. Então o espectro vai da criança que não tem nada a contribuir para um grupo - e pensei no autismo - e passa por uma série de outras estruturações possíveis, as quais vão ficando crescentemente mais complexas.
No caso das crianças antissociais, por incomodarem mais, podem parecer "mais" doentes. No entanto, a riqueza de possibilidades de manifestação (esperança) é o que dá o aspecto de esperança que marca o comportamento antissocial.