sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Neurose e psicose - A formação da teoria freudiana das psicoses

Simanke, R. T. (2009). A formação da teoria freudiana das psicoses. São Paulo: Loyola.

Freud enfatiza a idéia de que é o fracasso da defesa, isto é, o malogro em obter o esquecimento desejado, que instaura o conflito patológico. (...) [No caso da conversão histérica], trata-se de debilitar a representação conflitiva (p.86)

A quantidade de excitação livre, oriunda do desinvestimento da representação conflitiva, pode encontrar, em princípio, qualquer destino em termos de inervação somática. Assim, uma inervação motora pode dar origem a paralisias ou neuralgias musculares; uma inervação da musculatura involuntária ou visceral pode causar os conhecidos sintomas de náuseas ou vômitos histéricos; a inervação do aparato sensorial, enfim, originaria as alucinações visuais, táteis, auditivas, cinestésicas etc., cujo conteúdo encontrar-se-ia relacionado com o conteúdo da representação excluída. É nestes termos que se coloca o problema das relações entre a alucinação e a conversão histérica. Contudo, às alucinações características da confusão alucinatória serão atribuídas uma natureza, uma função, uma origem, uma explicação, enfim, completamente diferentes daquelas atribuídas à alucinação resultante da conversão (p. 87)

Ora, existe uma modalidade defensiva muito mais enérgica e exitosa, que consiste em que o ego rejeite (verwirft) a representação insuportável, juntamente com seu afeto, e se comporte como se a representação nunca tivesse comparecido. Só que, no momento em que se conseguiu isto, a pessoa se encontra em uma psicose que não admite outra classificação que “confusão alucinatória” (Freud, 1984, p. 59 – Projeto)


Angústia – Assim como no Projeto... (...) não há neurônio sem Q, não há também afeto que não esteja ligado a um neurônio, exceto no caso da angústia, mas aí já fora da esfera representacional, pois se trata de excitação puramente somática manifestando-se diretamente como desprazer psíquico (p. 89) – Y?

Realidade – A realidade começa a ser tratada [nas primeiras formulações sobre a paranóia e a projeção], antes de tudo, como uma realidade representada para e pelo sujeito – o que coloca limites para uma interpretação excessivamente realista da posição freudiana (...) –, e as representações que a compõem têm, como todas as outras, seu acesso à consciência condicionado pelo interjogo das forças psíquicas. (...) [Freud] sugere que o grau da realidade percebida não é, afinal, superior ao das demais, e que a percepção é um fenômeno complexo, sujeito às leis do suceder psíquico, e não uma apreensão imediata do mundo (p. 90).
Apagamento da fronteira entre normal e patológico – Da mesma maneira que a ideia de realidade vai perdendo, para Freud, sua conotação “natural”, a questão dos limites ego/ mundo, interior/exterior assume, aos poucos, o aspecto de conquista da evolução psíquica do sujeito, que pode ser posta em risco a qualquer momento, em razão das vicissitudes deste mesmo psiquismo (p. 95)

Delírio – Nesse momento, o delírio já começa a assumir o caráter de um esforço empreendido pelo ego para manter ou recuperar sua unidade interna diante do retorno do reprimido (ou seja, de uma tentativa espontânea de cura, p. 99). Delírio de assimilação: o sujeito ama seu delírio como a si mesmo, só reconhece como próprio o que emerge no delírio.

A dúvida e a incerteza presentes na neurose se relacionam ao processo simbólico presente na formação do sintoma: o símbolo histérico, o objeto no qual o afeto da representação reprimida é investido, vem como uma nova representação que encobre e representa o reprimido. “Tal ambigüidade não existe no delírio: ele é uma tradução em representações de palavra do reprimido que retornou maciçamente na forma de signos perceptivos (p. 100)”

Lógica do inconsciente: não há não. Uma concepção da psicose como o tipo de afecção que se caracteriza por ser uma perturbação apenas do pensamento...
Sabendo que qualquer órgão é, potencialmente, uma zona erógena, o retraimento da libido para o ego pode erogeneizar qualquer órgão, na constituição de um delírio hipocondríaco.
[Em uma neurose narcísica], a libido liberada por frustração não fica aderida aos objetos na fantasia, mas sim se retira sobre o ego.


Caso Schreber: ou o sujeito é capaz de aceitar as moções pulsionais homossexuais e eclode a homossexualidade manifesta, ou se defende vigorosamente contra elas e, caso seja incapaz de restabelecer a repressão e/ou refazer as sublimações anteriores agora desfeitas, acaba por mergulhar no delírio paranoico (p. 156).

A projeção, ao menos no caso da paranoia, forma a contrapartida do desinvestimento dos objetos que
caracteriza as neuroses narcísicas: uma vez transposta para o exterior a fonte dos sentimentos condenáveis, a libido do sujeito fica livre para ser investida no ego.

A teoria delirante de Schreber constitui um magnífico exemplo do processo assimilativo: esforço para integrar no ego o reprimido que retorna maciçamente nas alucinações. Reprimido?? O cancelado dentro retorna desde fora: o delírio como tentativa espontânea de cura, de reorientação da libido aos investimentos objetais.

Esquizofrenia e paranoia
Diferentes polos inicial e terminal do processo defensivo, mantendo em comum o termo médio, que é a repressão propriamente dita, a qual, tanto num caso como no outro, se apoia na retração da libido objetal e no investimento regressivo do ego. (p, 162)

Na esquizofrenia, a tentativa de recuperação que se segue ao processo patogênico não se dá por projeção, como na paranoia, mas por um mecanismo alucinatório (histérico).

Ponto de fixação da esquizofrenia: retorno até o autoerotismo. Essa regressão de maior alcance, até um momento menos estruturado da atividade pulsional, responderá pela maior desagregação observada nos estados esquizofrênicos, ao contrário da impenetrável coerência dos sistemas delirantes na paranoia.

De alguma maneira a natureza oculta do inconsciente se faz evidente na esquizofrenia.

Vínculo com a histeria: a linguagem toma frequentemente uma referência a órgãos e inervações corporais – linguagem de órgão, o traço hipocondríaco do enunciado esquizofrênico. Causa e efeito estão atualizados no discurso, e a relação de simbolização se esvai. O modo privilegiado de registro que vigora no pré-consciente é também atingido pelo processo primário: as palavras passam a sofrer o mesmo processo dos sonhos, a deformação onírica. Tudo se passa como se o próprio inconsciente viesse à tona, submetendo a seu regime as representações de palavra do pré-consciente: falta a referência a um registro lógica, tópica e temporalmente anterior e diz-se que, na esquizofrenia, não há regressão tópica.

Retraimento da libido investida na representação de objeto, que é formada pela representação de coisa + representação de palavra – apenas o investimento da representação de coisa foi retirado para o ego: a representação de palavra do objeto permanece investida e é submetida ao processo primário, funcionando como representação de coisa.

O sistema Icc contém os investimentos de coisa dos objetos, que são os investimentos de objeto primeiros e genuínos; o sistema Prcc nasce quando esta representação de coisa é sobreinvestida pelo enlace com as representações de palavra que lhe correspondem (Freud, 1915).

Mas o inconsciente é mais do que representações de coisa reprimidas, ou impossibilitadas de investir em representações de palavra pré-conscientes. A esquizofrenia exige um processo além da repressão para poder ser entendida como “inconsciente a céu aberto”.

Na alucinação, o investimento inconsciente (da representação de coisa, característica do processo primário) se transpassa ao sistema percepção-consciência, sendo capaz de animar sua própria percepção sem a presença de um objeto externo. É a culminação do processo patológico da neurose narcísica, o maior estágio de retração dos investimentos objetais, resulta na fantasia de fim de mundo e o deliro, tentativa de explicação das alucinações, é o reinvestimento das representações de palavra pré-conscientes.


A tomada de consciência depende da reanimação alucinatória das representações de palavra. Desinvestido o próprio inconsciente, os registros mnêmicos e as imagens acústicas das palavras seriam metabolizados pelo processo primário na constituição de uma linguagem peculiar, particular. Sobre a terra arrasada pelo conflito defensivo, o sujeito reconstroi o mundo a partir dessas imagens e, nesse movimento, reconstroi sua esfera subjetiva.

A falta da referência às representações de coisa faz com que estas imagens verbais sejam tratadas como objetos, “como os investimentos de objetos primeiros e genuínos”, e disto resulta o caráter típico da linguagem esquizofrênica, que faz que a semelhança na expressão linguística substitua a semelhança da coisa designada na construção das formações delirantes (um buraco é um buraco).
Sem nada a não ser palavras para reconstruir o mundo, a equivalência verbal não poderá senão redundar em identidade de fato.

Perda da referência à motivação intrínseca do processo: na melancolia, não se sabe bem o que se perdeu (fixação na etapa narcísica).

Identificação: etapa prévia ao investimento objetal; é incorporando em si as características de um objeto privilegiado que o ego se constitui como unidade autônoma e diferenciada do não ego.

Identificação primária: o ego se identifica com tudo o que é prazeroso, mediante uma identificação narcísica.
Ego e objeto se constroem simultaneamente.

Hollós e Ferenczi: Zur Psychonalyse der paralytischen Geistesstörung (prevenção das psicoses).

Ego, um servidor de três amos: o mundo exterior, a libido do id e a severidade do superego.

Perda da realidade: cancelamento da percepção, perda da eficácia psíquica da percepção. "O ego cria para si um novo mundo exterior e interior, e há dois fatos indubitáveis: que este novo mundo se edifica no sentido das moções de desejo do id e que o motivo desta ruptura com o mundo externo foi uma grave frustração de um desejo por parte da realidade (Freud, 1924a)".

Fator etiológico comum para a neurose e psicose: frustração de um desejo. O efeito patogênico depende do modo como o ego age.
Ponto de vista econômico preponderante.
Qual será o mecanismo, análogo a uma repressão, por cuj0o intermédio o ego se desliga do mundo exterior? (idem)

Na psicose, a perda da realidade é primária, um mecanismo análogo à repressão neurótica (rejeição?) arranca o ego da realidade dentro de um processo silencioso (não pontuado por sintomas). A ruidosa proliferação sintomática da psicose decorre das tentativas empreendidas pelo ego de refazer seu contato com a realidade (esforços para retomar os vínculos perdidos com o objeto). Na medida em que a realidade interna se perde concomitantemente com a realidade externa, o processo patogênico da psicose coincidiria com a aniquilação completa da interioridade.

A pulsão de morte ensina à libido o caminho para os objetos.


A renegação assume valor de elemento diferenciador entre a neurose e a psicose, torna-se pré-condição da reconstrução do mundo efetuada pelo delírio. Nesse contexto, insere-se a alucinação, cuja função é fornecer percepções tais que correspondam à realidade a ser reconstruída. Diferentemente do neurótico, que se refugia na fantasia para uma satisfação simbólica, o psicótico quer impor seu reservatório de representações para satisfazer as formações de desejo. De acordo com Klein, a psicose é uma deficiência na capacidade de expressão simbólica. Também o mundo de fantasias é desinvestido na psicose, a fantasia psicótica tem que ser fabricada “do nada” com as imagens acústicas alucinatoriamente revividas, privadas de seu significado original. Mas não é possível criar um substituto plenamente satisfatório para a pulsão reprimida no id e nem a realidade é infinitamente plástica.

No início, havia o bom (prazeroso) e o mau (desprazeroso), o juízo de atribuição antecede o de existência. Decidir sobre a existência de alguma coisa é um interesse do ego-realidade, que se desenvolve como um modificação do ego-prazer (a existência de um objeto na realidade só pode ser alvo de uma crença e não de uma demonstração).

Exame de realidade: pressupõe a distinção entre dentro e fora, já que se trata de decidir se uma coisa existe somente como representação (internamente) ou se, além dessa presença interna, existe também exteriormente.

Negação: na psicose, a negação exige a anulação da afirmação inicial, que é o desinvestimento das representações de coisa. É o que Freud dá a entender ao falar do “gosto de negá-lo todo, o negativismo de muitos psicóticos” (Freud, 1925c).


[Em O ego e o id], Freud ratifica a concomitância da constituição do ego e do objeto total. No começo de tudo, ou seja, no momento mais originário possível, que corresponde à primitiva fase oral do desenvolvimento da libido, “é por completo impossível distinguir entre investimento de objeto e identificação” (Freud, 1923a, p. 31).

No narcisismo, há a integração dos objetos/ identificações parciais, na medida em que o ego se separa do id, a partir do acúmulo de experiências com as catexias parciais (pulsões parciais) nos objetos parciais. Assim,
“Quando o ego adquire os traços do objeto, por assim dizer, se impõe ele mesmo ao id como objeto de amor, busca reparar-lhe sua perda, dizendo-lhe: ‘Veja, podes amar a mim também, sou tão parecido com o objeto...’” (p. 32).

O corpo próprio, ou antes, sua superfície, é dotada dos elementos dos objetos parciais e pode ser tomado como objeto de amor. Similaridades com o “estágio do espelho”, de Lacan.

Complexo de Édipo composto: direto e invertido, bissexualidade constitucional. Herdeiro do complexo de Édipo, o superego (ideal de ego) é “expressão das mais potentes moções dos mais importantes destinos libidinais do id” (p. 37). Assim, “conflitos entre o ego e o ideal espelharão, refletirão, em última análise, a oposição entre o real e o psíquico, o mundo exterior e o mundo interior" (p. 38).

Fase fálica e castração: desde o início, o indivíduo experiencia frustrações as mais intensas, como o nascimento, o desmame e o depósito cotidiano das próprias fezes. Na medida, contudo, que seu corpo é dotado de integridade imaginária, no narcisismo, ele pode ser submetido a uma localização corporal da frustração, que, a partir de agora, pode ser entendida como restrição dos desejos. A fase fálica inaugura o complexo de castração.

A restrição do desejo dentro do complexo de castração atinge a dimensão da realidade corporal, sobre a fantasia narcísica. Na neurose, é em vista da preservação do narcisismo ameaçado pela castração que o sujeito aceita a renúncia pulsional edípica. Os investimentos de objeto são abandonados e substituídos por identificações - a autoridade do pai (severidade, proibição do incesto) é introjetada no ego e aí se forma o núcleo do superego, que reassegura o ego contra o retorno do investimento libidinoso de objeto e permite a sublimação (fase de latência).

Por que o psicótico falha em dar cabo desse processo?


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