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sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Psicose e cuidados maternos

Winnicott, D. W. (1952). Psicose e cuidados maternos. In: Winnicott, D. W. (1988). Textos selecionados: da pediatria à psicanálise. Rio de Janeiro: F. Alves, pp. 375-387.

Mais do que pensar a saúde do adulto na criança (em termos de prevenção), "a saúde do adulto é estabelecida em todos os estádios da infância" (p. 376).

"A saúde mental, portanto, é um produto do cuidado contínuo que torna possível uma continuidade do crescimento emocional pessoal" (p. 376-373).

Estádios primitivos do desenvolvimento emocional
Unidade: organização meio-indivíduo



área transicional: zona de compromisso que não é contestada (você criou ou já existia? Pergunta absurda)

Loucura: permitida ao bebê, lentamente afogada pelo teste de realidade.

Ao adulto, descanso só nas ares, religião, trabalho criativo, sonho.
O resto (exigência demasiada) é psicose.


Tanto mais falho é o ambiente, mais o segredo é incomunicável.


O falso self é construído na submissão às intrusões ambientais - é satisfatório pois contém as características do ambiente, mas só serve para proteger o verdadeiro self.

Pseudomaturidade em ambiente psicótico (p. 382). Palazzoli novamente.

Os processos mentais lidam com os fracassos do meio, ligam a lacuna existente entre a adaptação completa e a incompleta: predição, compreensão, tolerância.

Não-integração --> Humpty Dumpty --> integração ------paranoico?---------> desintegração

Pediatria e psiquiatria

Winnicott, D. W. (1948). Pediatria e psiquiatria. In: Winnicott, D. W. (1988). Textos selecionados: da pediatria à psicanálise. Rio de Janeiro: F. Alves, pp. 237-311).

A relação com a realidade externa
Voracidade: amor por interesse
Relação objetal: o objeto está dentro ou fora?

A mãe permite a ilusão de que o bebê criou o seio - satisfação pulsional, união emocional e "início da crença na realidade como algo acerca da qual se pode ter ilusões" (p. 296).

Depois, a desilusão gradual (desmame)

Para Winnicott, a objeção de que não há, de fato, contato direto com a realidade não faz sentido em psicopatologia, já que "a maior parte das pessoas usa tão bem aquilo que é objetivamente observado e esperado, que pode passar sem alucinações, a não ser no cansaço ou fraqueza provocados por exaustão física" (p. 296).

Ajustamento bom devido à submissão (atitude submissa)




A mente e sua relação com o psique-soma

Winnicott, D. W. (1949). A mente e sua relação com o psique-soma. In: Winnicott, D. W. (1988). Textos selecionados: da pediatria à psicanálise. Rio de Janeiro: F. Alves, pp. 409-425.

Psique: "elaboração imaginativa de partes, sentimentos e funções somáticas"

A inter-relação entre a psique e o soma constitui uma fase inicial do desenvolvimento. Posteriormente, "o corpo vivo, com seus limites, e com um interior e um exterior, é sentido pelo indivíduo como formando o cerne do self imaginativo"

A mente tem a raiz na necessidade que o bebê tem de um ambiente perfeito. Na medida em que este fracassa, a atividade mental o compreende, compensa e transforma em sucesso adaptativo.
"Se ela [a mãe] é suficientemente boa, o bebê se torna capaz de compensar suas [dela] deficiências através da atividade mental. (...) A atividade mental do bebê transforma o relativo fracasso de adaptação em sucesso adaptativo. O que livra a mãe da necessidade de ser quase perfeita é a compreensão do bebê" (pp. 412-413).

Algo ocorre neste processo que torna o bebê (a criança) incapaz de inscrever, em sua atividade mental, um tipo específico de fracasso ambiental. A demanda real da ameaça de castração, ou seja, de que há limites sociais para a realização do desejo, é rejeitada por um tipo específico de bebê. Podemos nos arriscar a dizer que, para este tipo de bebê, houve um jogo oculto entre os pais, em que o bebê esteve envolvido por meio de uma promessa feita também às ocultas: de que o bebê era aliado, parte de um dos pais (contra o outro). Desta forma, houve comprometimento no estabelecimento de uma relação triádica entre pessoas totais, o que é base do conflito edípico e da constituição do complexo de castração e do complexo edípico. Ao contrário, pode ser difícil estabelecer limites entre o que é subjetivo e objetivo, dado que o bebê precisou responder a uma demanda feita pelo meio, intrusiva, e não um movimento natural de sua continuidade de ser.

Mente-psique patológica, em oposição ao psique-soma original: "Como resultado mais comum de um grau pequeno de cuidado materno torturante nos estádios iniciais da vida infantil, o funcionamento mental torna-se uma coisa em si, praticamente substituindo a mãe boa e tornando-a desnecessária. Clinicamente, isso pode acompanhar uma dependência da mãe real e um crescimento pessoal falso com base na submissão. Esse é um estado de coisas extremamente desconfortável, especialmente porque a psique do indivíduo de deixa 'atrair' por essa mente, afastando-se do relacionamento íntimo que originalmente mantinha com o soma. O resultado é uma mente-psique, que é patológica." (p. 414).

Crescimento excessivo da função mental como relação a uma maternagem inconstante. O pensamento do indivíduo começa a controlar e organizar os cuidados a serem dispensados ao psique-soma, ao passo que na saúde, isto é uma função do ambiente.

A falsidade do conceito de mente como fenômeno localizado
"O curioso atualmente é que, de novo, no pensamento médico científico, o cérebro foi igualado à mente, que um certo tipo de doente sente como uma inimiga, e uma coisa dentro do crânio" (p. 423).

Por que a cabeça?
"Sinto que a necessidade do indivíduo de localizar a mente por ser ela um inimigo, isto é, para controlá-la, é um ponto importante. Um paciente esquizoide me diz que a cabeça é o lugar onde se deve por a mente porque como não se pode ver a cabeça, ela não existe de maneira óbvia, como parte de nós mesmos" (p. 415).

"Podemos ver que um dos objetivos da doença psicossomática é atrair a psique para longe da mente, de volta à associação íntima original com o soma".

Fracasso excessivo da adaptação ativa do meio às necessidades do indivíduo: além da capacidade de compreensão ou de predição. Em vez de odiar, o indivíduo deixa-se desorganizar pelos fracassos do meio, porque estes existiram antes da experimentação dos impulsos libidinais amorosos fundidos aos agressivos; isto é, a desorganização se dá porque o indivíduo é, ainda, incapaz de amar ou odiar.

A aceitação do não-saber produziu um enorme alívio. 'Saber' transformou-se em 'o analista sabe', isto é, 'comporta-se fidedignamente, adaptando-se às necessidades do paciente'. Toda a vida da paciente havia sido construída em torno do funcionamento da mente, que controla e regula suas necessidades, mais do que um psique-soma que experimenta e cria.

Alucinação e desalucinação

Winnicott, D. W. (1957). Alucinação e desalucinação. In: Winnicott, C; Shepherd, R. & Davis, M. (Orgs.) (1994). Explorações psicanalíticas: D. W. Winnicott. Porto Alegre: ArtMed, pp. 33-35.

"Amiúde me impressiona, como sendo uma dificuldade que não enfrentamos, que às vezes dizemos que um paciente está alucinando e tomamos isso como prova de psicose" (p. 33)

Pergunta: "existe alguma diferença entre as alucinações que denotam enfermidade e aquelas que não possuem tal significação?"

Alucinar normal X patológico

No alucinar patológico, "algo foi desalucinado e, de maneira secundária, o paciente alucina em denegação da desalucinação.
É complexo porque, primeiramente, houve algo que foi visto, depois algo desalucinado e, então, uma longa série de alucinações que, por assim dizer, preenchem a lacuna produzida pela escotomização" (p. 34).

Um tipo especial de alucinar que é compulsivo e assustador, apesar do fato de que o que é alucinado não constituir, em si mesmo, uma ameaça.


Ansiedades psicóticas e prevenção

Little, M. I. (1992). Ansiedades psicóticas e prevenção: registro pessoal de uma análise com Winnicott. Rio de Janeiro: Imago.

Psicose: doença por carência ambiental, exige volta ao tempo em que a deficiência ou adequação do ambiente era muito importante, pois o verdadeiro self ainda pode esperar uma reversão do fracasso original, encontrando no analista uma adaptação suficiente para suas necessidades.

Na caracterização do que é psicose, mais do que sintomas (alucinações ou delírios), a vivência de agonias impensáveis.

A mãe também pode sentir algum grau de ansiedade de aniquilação relativa à ideia de separar-se do seu filho ou de que aquele bebê é uma pessoa separada dela.

Possíveis defesas contra um ambiente intrusivo:
-retraimento
-identificação com o ambiente, partilha da ilusão primária de estar integrado a ele (cisão e falso self).

Na regressão à dependência, não há formação de símbolos; as coisas são. O analista é a mãe, suas mãos são o cordão umbilical, o divã é a placenta.

Regressão e organização defensiva

Winnicott, D. W. (1967). O conceito de regressão clínica comparado com o de organização defensiva. In: Winnicott, C.; Shepherd, R. & Davis, M. (1994). Explorações Psicanalíticas: D. W. Winnicott. Porto Alegre: ArtMed, pp. 151-156.

"Podemos adotar este curso, acredito, sem nos separar da fonte de nosso trabalho, que deve ser sempre os seres humanos que vêm até nós ou que nos são trazidos por causa das dificuldades da vida" (p. 151).

Esquizofrenia -- regressão
                     -- organização de defesas

Seja lá o que for que já é conhecido ou será descoberto a respeito da bioquímica, da neuropatologia ou da farmacologia relativa à esquizofrenia, existirão ainda lá os pacientes, pessoas como nós, com uma história em casa caso do desencadeamento do transtorno e com uma carga de esforço e sofrimento pessoais, com um meio ambiente que é simplesmente mau ou bom ou, então, que confunda a um grau que pode ser desnorteante até mesmo relatar" (p. 152).

No contexto da psicose, o enunciado do desenvolvimento em termos de progressão de zonas erógenas não é tão útil quanto o é a ideia da progressão da dependência absoluta rumo à independência ----> provisão ambiental.

No desenvolvimento da criança psicótica, o meio ambiente pode continuar a ser um fator adverso, por causa do fracasso do indivíduo em obter suficiente autonomia: Envolvimento do paciente identificado no jogo do casal: Palazzoli)

Na psiconeurose, ao contrário, a pista para o conflito subjacente reside dentro do indivíduo.

Em contraste, a psicose envolve as pessoas na elucidação de uma cisão na pessoa do paciente, o extremo de uma dissociação: "A cisão toma o lugar do inconsciente reprimido do psiconeurótico" (p. 152).

A cisão pode aparecer em várias formas de dissociação:
-Falso e verdadeiro self;
-Vida intelectual ex-cindida do viver psicossomático (mente-psique)

Uma pessoa pode padecer de expectativas patológicas oriundas do meio ambiente.

Mara Selvini Palazzoli também sabe disso, Winnicott!

A dependência inicial continua a ter significado, especialmente na adolescência e, talvez, de maneira disfarçada, através de toda a vida.

As crianças que não foram significantemente decepcionadas na etapa de dependência absoluta puderam construir uma estrutura de autoconfiança sobre a acumulação da confiabilidade introjetada. Elas acreditam na realidade e confiabilidade de si mesmas e do mundo. É difícil entender uma outra criança que carrega consigo, por toda a vida, agonias impensáveis decorrentes de deficiências na confiabilidade do meio. Um ambiente instável fracassa por ser imprevisível e intrusivo: ele interrompe a continuidade do ser e exige que o bebê reaja (falsamente, não por impulso próprio).

Regressão: retroação em direção oposta ao desenvolvimento, seja por bloqueio ao crescimento, seja por uma provisão ambiental que permita a dependência.

A regressão à dependência, mais ou menos relativa, mais do que uma ou outra zona erógena especifica.

As agonias impensáveis  estão relacionadas à fração de segundo antes da organização de novas defesas frente ao trauma (que é o impacto provindo do meio ambiente antes que o indivíduo possa prevê-lo, compreendê-lo e tolerá-lo).
Elas podem ser classificadas em termos da quantidade de integração que sobrevive ao ataque.
O resultado do trauma é certo grau de distorção no desenvolvimento: "a raiva implicaria a sobrevivência do ego e uma retenção da ideia de uma experiência alternativa em que o 'desapontamento' não ocorreu"

Pânico: horror organizado para proteger o indivíduo contra o impredizível (num momento tal de dependência que o indivíduo não poderia suportar tamanho fracasso).

Abandonar a invulnerabilidade (autismo) criada pelos medos e tornar-se sofredor.

"Escolher" a deficiência mental ao horror do sofrimento vinculado ao viver genuíno.

"À medida que progredimos e o paciente alcança confiança em nós em grande escala, então nossos equívocos e fracassos se tornam novos traumas. Aprendemos a esperar uma sensibilidade crescente por parte do paciente e começamos a imaginar se é a bondade ou a crueldade que nos motiva" (p. 155).

A Psicologia da Loucura e o conceito de trauma

Winnicott, D. W. (1965). A psicologia da Loucura: Uma Contribuição da Psicanálise. In: Winnicott, C.; Shepherd, R. & Davis, M. (1994). Explorações Psicanalíticas: D. W. Winnicott. Porto Alegre: ArtMed, pp. 94-101.

"Por 'psicose' se quer dizer uma enfermidade que tem seu ponto de origem nos estágios do desenvolvimento individual anteriores ao estabelecimento de um padrão individual de personalidade (p. 95)".

Posso incluir na necessidade da intervenção precoce multidisciplinar intensa uma possível explicação da relutância dos psiquiatras não-psicodinâmicos em aceitar a esquizofrenia como um fenômeno psicológico:
"Todo psiquiatra possui uma carga imensa de casos graves. Está sempre sendo ameaçado pela possibilidade de suicídio entre os pacientes que se acham a seu cuidado imediato e existem pesados ônus associados com a tomada de responsabilidade pela certificação e decertificação, bem como com a prevenção de ciosas como o assassinato e o mau trato de crianças. Além disso, o psiquiatra tem de lidar com a pressão social, uma vez que todos aqueles que precisam de proteção quanto a si próprios ou precisam ser isolados da sociedade inevitavelmente vêm acabar sob os cuidados dele e, ao final, não pode recusá-los (pp. 95-96)".

"Deve-se deixar aberta a porta para a formulação de uma teoria em que uma certa experiência de loucura, seja o que for que isso possa significar, é universal"

Medo da loucura: elementos que se acham fora do funcionamento da lógica

A loucura original pertence a um estágio muito anterior à organização no ego dos processos mentais que abstraem as experiências catalogadas e apresentam-nas ara uso em termos de lembrança consciente.
"A loucura que tem que ser lembrada só pode ser lembrada em seu reviver (p. 98)".

"O paciente acha-se então sob uma compulsão - surgida de alguma premência básica que os pacientes têm no sentido de tornarem-se normais - de chegar à loucura e a necessidade de ser louco. (...) Pode-se ver, que se, em tal caso, o colapso é atendido por uma premência psiquiátrica à cura, todo o sentido do colapso é então perdido, pois, ao entrar em colapso, o paciente tinha um objetivo definido e o colapso não é tanto uma enfermidade quanto um primeiro passo no sentido da saúde (p. 99)".

As defesas se organizam em torno da ansiedade:
"no caso mais simples possível, houve portanto uma fração de segundo em que a ameaça da loucura foi experienciada, mas a ansiedade [ou agonia] neste nível é impensável. Sua intensidade acha-se mais além da descrição e novas defesas organizaram-se imediatamente, de maneira que a loucura, de fato, não foi experienciada. Por outro lado, contudo, ela foi potencialmente um fato (p. 100, grifo meu)".

--
O conceito de trauma em relação ao desenvolvimento do indivíduo dentro da família (1965, pp. 102-105)

A natureza do trauma envolve fatores externos, ou seja, é do domínio da dependência. O trauma rompe a idealização do objeto pelo ódio advindo do indivíduo. O ódio é reativo ao fracasso desse objeto em desempenhar sua função: uma adaptação perfeita. Em certa medida, todos somos "traumatizados" por fracassos do ambiente, mas apenas quando a falha ocorre em um tempo ou dimensão que são incompreensíveis para o bebê, ou que ele seja incapaz de tolerar, aí sim decorre um trauma no sentido estrito do termo.

Medo do colapso

Winnicott, D. W. (1963). O medo do colapso. In: Winnicott, C.; Shepherd, R. & Davis, M. (1994). Explorações Psicanalíticas: D. W. Winnicott. Porto Alegre: ArtMed, pp. 70-76.

Experiências passadas do indivíduo e caprichos ambientais.
Colapso (breakdown): fracasso da organização defensiva.

"Notar-se-á que embora haja valor em pensar que, na área das psiconeuroses, é a ansiedade de castração que faz por trás das defesas, nos fenômenos mais psicóticos que estamos examinando é um colapso do estabelecimento do self unitário.
O ego organiza defesas contra o colapso da organização do ego e é esta organização a ameaçada. Mas o ego não pode se organizar contra o fracasso ambiental, na medida em que a dependência É um fato da vida" (p. 71)

-Inversão do processo de amadurecimento

Holding --> Handling --> object presenting

Desenvolvimento integrador
Indwelling (personalização): conluio psicossomático ----> relacionamento objetal

Agonias primitivas
-Retorno à não-integração --- defesa: desintegração)
-Cair para sempre (gravidade) --- defesa: self holding
-Perda do conluio psicossomático --- defesa: despersonalização
-Perda do senso de real --- defesa: exploração do narcisismo primário
-Perda da capacidade de relacionamento de objeto --- defesa: estado autista

A enfermidade psicótica como defesa
A agonia subjacente à defesa é impensável. A enfermidade psicótica é "uma organização defensiva relacionada a uma agonia primitiva, e é geralmente bem-sucedida (exceto quando o meio ambiente facilitador não foi deficiente, mas sim atormentador, que é talvez a pior coisa que pode acontecer a um bebê humano)" (p. 72).



O medo do colapso é o medo de um colapso que já foi experienciado.
"É um medo da agonia original que provocou a organização de defesa que o paciente apresenta como síndrome de doença.
A experiência original da agonia primitiva não pode cair no passado a menos que o ego possa primeiro reuni-la dentro de sua própria e atual experiência temporal e do controle onipotente agora (p. 73)".

A agonia original é um fato que o indivíduo carrega consigo, escondido no inconsciente que é tudo aquilo que foi vivido, mas que a integração do ego não foi capaz de abranger na área de onipotência. A regressão à dependência, na análise, permite ao indivíduo reviver a agonia na transferência e, se o analista foi suficientemente bom, tornar o inconsciente (não reprimido, mas não integrado) capaz de emergir à consciência. Caso contrário, o indivíduo busca o detalhe passado no futuro: a agonia primitiva passada se transforma, definitivamente, em ansiedade (e, consequentemente, em medo).

A transferência permite que o indivíduo gradualmente reúna o fracasso original do meio ambiente, atualizado nas falhas do analista, dentro da área de sua onipotência.

O diacrônico impossível e esquisito se torna sincrônico e possível. Libertador.

O medo da morte é similar ao medo do colapso e, no mais das vezes, faz uso da religião para ser negado e postergado para o futuro mais distante.
Morte fenomenal: envio do corpo a uma morte que já aconteceu na psique (suicídio).

"Tudo o que lhe peço é que me ajude a cometer suicídio pela razão certa e não pela razão errada".
A alternativa delirante: eu estou morto - querem me matar.

A morte, para o ego primitivo, é o aniquilamento: a continuidade do ser é interrompida para sempre; isto é, não há como entender que a intrusão terá fim (uma espera de meia hora para um recém-nascido?)

Medo do vazio: nada de proveitoso aconteceu quando poderia ter acontecido.

O vazio primário é o antes de começar a se encher. "Na prática, a dificuldade é que o paciente teme o horror do vazio e, como defesa, organizará um vazio controlado, não comendo ou não aprendendo, ou então, impiedosamente o encherá por uma voracidade que é compulsiva e parece louca. Quando o paciente pode chegar ao próprio vazio e tolerar esse estado por causa da dependência no ego auxiliar do analista, então receber em si pode começar a ser uma função prazerosa" (pp. 75-76).

Na análise de psicóticos, experienciar equivale ao lembrar da análise dos neuróticos. Em ambos os casos, apenas na transferência a regressão, e consequente afrouxamento das feresas, é possível.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Os jogos psicóticos na família

Palazolli, Mara Selvini, Cirillo, S., Selvini, M. & Sorrentino, A. M. (1998). Os jogos psicóticos na família. São Paulo: Summus.

Uma escolha que se abre à família (não realmente livre, mas assim esclarecida pode ser também re-possuída de seus determinantes afetivos e sociais):
"vale a pena tentar, à espera de oferecer ao filho uma vida digna de ser vivida mas aceitando, concomitantemente, o risco de que o rapaz escolha, ao invés disso, morrer? Ou é preferível mantê-lo naquela vida miserável, dentro e fora de hospitais, mas, enfim, vivo?" (p. 81)


A que custo? No início, às prescrições invariáveis:
"Pode-se compreender como o desmoronamento de uma construção afetiva dolorosamente colocada de pé, dia após dia, como único refúgio às frustrações de uma vida conjugal desafortunada possa causar medo. E mais: renunciar por que motivo? Para sair por quatro horas com um cônjuje com quem já não se suporta mais nem mesmo a presença, sem saber o que falar com ele, expostos, sem poder fugir, a seus sarcasmos, seus silêncios, seus amuos? Tendo-se em vista o quê? A cura do outro filho? E quem garante essa cura, afinal de contas? O terapeuta? Mas a gente pode confiar nesse tal terapeuta?" (p .79).

O motivo porque guardar um segredo é inaceitável pode revelar o jogo familiar subsequente. Com a prescrição, é possível iniciar a interromper um jogo antes mesmo que ele se apresente por completo na sessão terapêutica.

Imbroglio: "processo interativo complexo que parece estruturar-se e evoluir em torno de uma tática comportamental especítica posta em rpática por um dos pais, caracterizada por ostentar como privilegiada uma relação diádica intergeracional (pai-filho) que, na realidade, não existe. O privilégio não é afetivamente autêntico, pois trata-se do instrumento de uma estratégia voltada contra alguém, em geral o outro genitor" (p. 92, grifos do autor).

O privilégio do filho por parte do(s) pai(s) em relação ao qual a traição desencadeia reações sintomáticas de amante traído. De fato, o privilégio somente existe enquanto ferramenta contra alguém. Uma recompensa é alusiva ao filho privilegiado, mas sabemos que esta não haverá, porque o amor especial do pai só existe enquanto raiva da mãe (ou vice-versa). Tratam-se de "crenças" aprendidas a partir do convívio, são questões tácitas e não regras explicitadas.

"Convicção da ilicitude e consciência da conivência, somadas à desconfiança quanto à lealdade do ex-aliado, condenariam também ao silêncio, por si só, quem se sentisse traído, levando-o a fazer uma reivindicação encoberta" (p. 95, grifos meus) - formação do sintoma.

O Imbroglio na Esquizofrenia

Jogos sujos
"Esbarramos freqüentemente em jogos ou manobras habilmente dissimulados que, no jargão de nossa equipe, habituamo-nos a chamar de jogos sujos. (...) Esses meios nos pareciam totalmente sujos porque o seu objetivo, tanto quanto conseguíamos entender, era mascarado e negado, para poder ser atingido mais facilmente. (...) A nossa hipótese era a de que o comportamento psicótico do paciente propriamente dito esteve em conexão direta com o jogo sujo. Repetidamente, estivemos perto de poder confirmar esta hipótese. Por exemplo, a explosão do comportamento psicótico havia ocorrido quando o paciente em questão se sentira traído ou, pelo menos, enrolado exatamente por aquele, dentre os dois pais, como o qual parecia sentir mais afinidade" (p. 103, grifos do autor).



O imbroglio acontece quando um dos pais entrega um 7 de copas ao filho e diz, sem palavras: "pede truco". Este sabe que o outro pai tem um 4 de paus. Mas sobre isso ele não diz nada. O outro pai também nunca diz se cai, corre ou dobra. A situação familiar fica insustentável, numa expectativa enlouquecedora. A coisa fica ainda pior se houver um outro filho que parece dizer: "esse negócio de truco não existe: é coisa da sua cabeça. Além disso, eu tenho mais o que fazer da vida".

"Os modos relacionais dessas famílias de jogadores, afeitas às contorções tático-manipulativas, parecem dominadas por uma advertência principal, que é mais ou menos o seguinte: quando se trata de afeto, o oportuno é nunca mostrar as coisas como elas são; é melhor mostrar exatamente o contrário" (p. 108).

"Do ponto de vista da adaptação é, portanto, importante que esse discurso seja desenvolvido mediante técnicas relativamente inconscientes e só parcialmente sujeitas a um controle voluntário.
Mas isso escancara a porta, para nós, a um problema de complexidade inimaginável. Como pode ser bem-sucedida e aonde pode levar a falsificação voluntária de uma relação em um jogo interativo cujas manobras táticas consistem numa mudança rápida de comportamentos amplamente subtraídos ao nível verbal?" (p. 110).

Aonde leva o jogo sujo premeditado e aparentemente deliberado? A que preço?

O pai relutante em fazer terapia de família:
-O senhor precisa comparecer à terapia de família.
-Mas o médico disse que esquizofrenia não tem cura e eu não piso aí nem fudendo.
-A nossa perspectiva profissional tem uma opinião diferente sobre a cura da esquizofrenia e, para tratá-lo, precisamos que o senhor venha à clínica uma vez por semana, para terapia de família.
-A minha mulher vai, e minha filha também.
-Sem o senhor, é impossível.
-E se eu estivesse morto?
-Se fosse assim, nós elaboraríamos outra estratégia. Infelizmente, não é o caso.
-O psiquiatra disse que não tem cura e vocês são uns charlatões.

O curioso é que, se o menino estivesse com câncer, e um médico dissesse que não tem tratamento, e outro dissesse que sim, em qual dos médicos eles acreditariam?

"Por que diante do drama de um filho estragado e insuportável, freqüentemente recusam-se a realizar atos tão pequenos, coisa tão pouca? Mas eles sentem a prescrição [ou, em alguns casos, a própria terapia] exatamente como um tornado que corre o risco de desorganizar, de maneira imprevisível, o complicado equilíbrio dos relacionamentos deles" (p. 292)

Viuvez dos pais - luto - melancolia
                         - guerra de sucessão - psicose, anorexia, neurose grave

A instigação

Provocação dissimulada <---> raiva dissimulada

Nível triádico (triangulação edípica): alguém instiga outra pessoa contra uma terceira.
"A distinção entre instigações e instigado não existe mais. O instigado também é instigador, o instigador também é instigado, enquanto a terceira pessoa, que identificamos no papel do primeiro instigador, é obrigado a pagar penalidades muito pesadas" (p. 124).

provocação <---> raiva
             ^ instigação ^

Todo enredo da instigação e do imbroglio passa-se no não dito, como estratégias tácitas em relação às quais todos têm um papel mais ou menos definido, mas também superposto, interpolado.

Coalizão
A filha foi instigada pelo pai em direção ao sintoma contra a mãe (delinquênica, depressão)
"O primeiro deles é o caráter perverso da coalizão pai-filha, quase oculto, mas ativo a ponto de gerar na mãe um estado de angústia, como se ela fosse o alvo de alfinetadas que não sabia de onde vinham"(p. 132)

"Um outro comportamento típico das provocações ditas 'triunfalistas' é elas apresentarem, com freqüência, fases de desencorajamento. Nesses momentos, o cônjuge invejoso, para não deixar que percebam sua inveja, sente-se obrigado a ajudar o provocador a 'recarregar suas baterias'!"

"Pelo fato de ocorrer exclusivamente nos binários no analógico, esse jogo pareceria, em grande parte, nada ter a ver com a intencionalidade ou com o controle 'racional' dos jogadores" (p. 133)

O filho se vê em um contrato que não assinou:
-Não poderíamos todos jogar pique-pega?
Se houvesse uma promessa percebida de sucessão à mãe, que fosse quebrada, o filho poderia descompensar, na criação de um delírio onde isso é possível.

O fato de termos salientado a importância do "fenômeno que chamamos instigação e insistir no fato de que termos configurado esse fenômeno, termos suspeitado corretamente da sua presença oculta, e possuirmos uma estratégia capaz de identificá-lo precocemente e eliminá-lo pode constituir um grande instrumento de prevenção" (p. 135).

Instigação nas psicoses
Entender que as reticências não nascem da vontade de criar obstáculos para os terapeutas de família, e sim do próprio espírito do jogo do casal: ou seja, da convicção, alimentada pelos pais, de que é necessário impedir que o adversário veja suas cartas.
-- procurar no jogo do casal as raízes da raiva do filho: mero portador de mensagens de terceiros, de coisas que os outros não têm coragem de falar e sobre cuja natureza o próprio filho não consegue explicar sozinho, e diante das quais ele se estupefata, enlouquece.

"Por que seu marido tinha tanta dificuldade assim para conversar diretamente ou para dizer-lhes coisas do tipo 'se você não chegar às sete lhe dou um murro na boca'? Sabe que uma pessoa que não consegue falar tem dentro dela um vulcão?... E é por isso que existem outras pessoas que captam esse vulcão e decidem que elas é que vão transmitir a mensagem!" (p. 141)

Quanto ao jogo do casal, "o que se percebe, cada vez com mais destaque, como fenômeno recorrente, é a história de 'nunca dar-se por vencido'" (p. 142)

Jogo do casal genitoral
A ameaça costuma ter o sexo como espantalho: as ameaças podem comportar a nomeação de um rival erótico interno, habitualmente um filho ou filha, que vem anteposto ao parceiro.

Enredamento do filho, o paciente identificado, no jogo do casal.

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Em lugar do pensar sistêmico (cibernético), surge a metáfora do jogo enquanto fenômeno humano. "A família é uma microorganização baseada na cooperação para fins comuns. A negociação das modalidades dessa cooperação, por causa do fisiológico egocentrismo de cada sujeito, comporta necessariamente o nascimento de conflitos" (p. 187)

O jogo familiar não é brincadeira. Não jogar é impossível.


Um jogo é o produto das intervenções alternadas de cada jogador que, motivado a ganhar, dentro de regras explícitas consensualmente aceitas, executa a toda hora a sua jogada, após a jogada adversária.

Assim também pensa o GIPSI - ficará fácil, assim, para psicanalistas também se utilizarem na metáfora do jogo (mito familiar?)

O jogo "transforma em caducas as tradicionais fronteiras entre as disciplinas sociais e leva, inevitavelmente, cada pesquisador a se aventurar em campos que, 'oficialmente', não são seus" (p. 189): família, instituição e sociedade.

A confusão a respeito das regras
Negociação ou comportamento aprendido por falta de negocioação?

Regra: o cavalo se move em L ---- repetições
           experts empatam

O casal empatado na família psicótica: estratégias se equilibram , não se trata de uma regra. Até o sintoma: cada elemento do sistema serve à manutenção dele.

Não há intencionalidade linear como em um jogo político.






1) Impasse do casal: o jogo tem causalidade ancestral. Não há crises francas, apenas um contínuo provocativo que não sai do lugar. O impasse faz parte do jogo e evita a ruptura do casal e da família.
"Em alguns casos, sim, tem-se a impressão de estar diante de dois inimigos, prisioneiros de um jogo que eles mesmos criaram sem saber, e já não são mais capazes nem de interromper nem de abandonar" (p. 201).

No jogo de truco, o pai tem um zap, a mãe tem um sete de copas, mas ninguém pede truco.

... Em jogo de marido e mulher, é o filho psicótico quem mete a colher.

2) Enredamento do filho no jogo do casal: o filho pode se incomodar com uma justiça, por perceber que já uma vítima - mas e se ele soubesse que a vítima também assinou o contrato? Promessas ambíguas e ambiguamente negadas: por mais que você seja legal, não troco seu pai por você, mas vou dizer que você é meu companheiro e dorme comigo na cama, só pra provocar seu pai. Não se trata da oferta, de fato, de uma relação incestuosa compensatória e sim um laço que visa exclusivamente o provocador ativo.

Duplo vínculo: "em certo momento foi falsificado o pressuposto básico sobre o qual ele construiu o seu próprio universo cognitivo e afetivo. Ele descobre o caráter instrumental da ligação que tinha com o seu suposto aliado" (p. 204)

A mãe sugere, muito angustiada, que somente o filho poderia pedir truco, é claro que ele ganharia, se tentasse, afinal, ele é "como se fosse" um sete de copas...

3) Comportamento inusitado do filho: semelhante a pródromos, o filho se comporta como o estranhamento gerado pelo envolvimento num jogo que "não faz sentido" e que não comunica senão ambiguidades, afetos invertidos e provocações implícitas.

O filho grita no ouvido do pai: truco!! E o pai responde: do que você tá falando, maluco?

4) Reviravolta do suposto aliado: o provocador ativo continua parecendo que ganhou, mas o passivo não se alia ao filho para destroná-lo; ao contrário, tudo se mantém do mesmo jeito, e o comportamento do filho não é suficiente para demover o impasse.

A mãe fica puta, porque não foi suficiente para o pai sair do jogo - e nem ela queria isso de verdade. O filho entende a trapaça e se sente traído.

5) Explosão da psicose: o filho envolvido é abandonado. "A confusão psicótica é comparável à obscura sensação de que as cartas na mesa foram manipuladas, que os fundamentos lógicos do mundo e de seus significados foram revirados pelo avesso, visto que as previsões que se considerava certas demonstraram estar erradas" (p. 209). Aliar-se ao pai "fraco" era a própria base da percepção do mundo: confusão que desorganiza (psicose).

Despossuído de qualquer carta, ele sabe que o jogo é sujo e não pode fazer nada além de criar, narcisicamente, uma realidade em que as coisas façam sentido.

6) Estratégias baseadas no sintoma: o sintoma do filho foi criado dentro do jogo e tem por objetivo mantê-lo. Ele tem um poder patológico e "cada membro da família organiza sua própria estratégia em torno do sintoma do filho, que tem o efeito pragmático de mantê-lo" (p. 210).

Não é a negligência paterna per se que influencia ou determina a psicose infantil, já que a criança é um sujeito ativo no jogo dos pais.
"O filho, prova do fracasso existencial da esposa-mãe, não está investido do real afeto do pai, que não consegue ver nele qualquer outra coisa que não o aborto educativo da mulher. O filho fica sendo o 'pobrezinho' de quem nada se pode exigir" (p. 227) e não é "de ninguém".


Instrumental terapêutico

Tentativas conscientes de explicitação e revelação do jogo familiar (instrumental e clínico).
-Estilo intensamente emocional das sessões: deixar as banalidades burocráticas e enfocar nas estratégias, regras, coalizões, instigações e provocações.

Busca das pistas (diferenças ou peculiaridades) em um método circular entre os membros da família.

Investigar, na especificidade da família, qual o tipo de impasse/instigação/imbroglio que desembocou no delírio/alucinação/paranoia?

O terapeuta é o especialista, pode emitir um julgamento tecnicamente fundado.
No entanto, deve evitar ser ele também enredado no jogo da família (evitar quedas-de-braço), afinal é a família quem mais sabe sobre si própria.

A família pode se tornar reticente (resistente?):-
-falta de motivação,
-encobrimento do jogo familiar,
-autodefesas individuais.

O terapeuta pode:
-estimular um relacionamento aberto e empático,
-ser o primeiro a "por as cartas na mesa",
-favorecer adaptações realistas ao nível do que é possível para a família naquele momento.

Competição?

Dados sobre o impasse do casal
Dados sobre o enredamento do filho
----revelação do jogo (momentos descontínuos de iluminação)

O objetivo da terapia é, de modo geral,
"Esclarecer, de maneira detalhada e específica, de que modo e até que ponto o paciente se envolveu nos problemas de relacionamento do casal genitoral. Como ele construiu uma leitura desses problemas. Como, em decorrência dessa leitura, tomou partido do pai que considerava perdedor, identificando-se com ele. Como, em seguida, entrou ativamente no jogo, ou para resgatar o perdedor ou para induzi-lo a associar-se com ele no desafio ao pai que (em sua opinião) estava prevaricando. E como, no final, esse envolvimento ativo revelou-se um fracasso total: inútil para o relacionamento do casal e catastrófico para ele" (p. 265).

Modelo sincrônico de lidar com o impasse: enfoque na transferência. O empasse não é infinito - é preciso desconstruir a suposta oposição simétrica dos pais.

O casal é promovido a co-terapeutas do filho e, ao fazê-lo, movem-no a curar a si próprio.

Conotação positiva: há algo positivo no comportamento de todos os membros da família.
Pacientização dos pais: trazer à tona seus conflitos e a necessidade que eles têm de ajuda.
Prescrição invariável: equilíbrio entre culpabilização (responsabilização) e valorização dos pais.
-os pais foram manipulados pelos seus próprios pais, e isso "deformou" suas personalidades.
-a instigação é transgeracional
-o paciente identificado tem um papel ativo estúpido entre eles e deve ser demovido dele.
Autoterapia do casal: a terapia sugere a construção de um metajogo (um outro jogo, só que menos sujo) com regras mais explícitas e desconstrução das ambiguidades e traições percebidas.

A confiança no terapeuta pode abrir a porta trancada do impasse do casal (desde que ele bata à porta educada, mas confiantemente).

"O terapeuta assume que qualquer comportamento é 'compreensível' sob o perfil interativo, na base de um conhecimento suficiente do contexto no qual o sintoma foi produzido. Diante de comportamentos que parecem incompreensíveis [, como os comportamentos psicóticos,] há um único movimento coerente com tal assunto: aprofundar a investigação sobre o contexto interativo" (p. 288).




segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Natureza humana

Criança indesejada? O mundo é que não foi desejado - o self é a possibilidade de se tornar capaz de existir (continuidade do ser, awareness) "a despeito" do mundo.

Dependência: holding ---concern---> triangulação (ódio, culpa e concern)

Saúde física: hereditariedade (nature) e criação (nurture). Os dispositivos inatos só se tornam reais mediante a experiência.

Doenças:
"É importante também que saibamos de que tipo é a ansiedade que produz a ameaça; por exemplo, as defesas podem ser contra o medo de perder o pênis, ou de perder alguma função importante associada a um instinto. Podem ser também defesas contra a depressão, ou seja, contra uma desesperança pertencente a sentimentos de culpa, inconscientes eles mesmos, ou relativos a algum elemento inconsciente. Também é possível que as defesas sejam contra o medo de perder o contato com a realidade externa, ou contra o medo de uma desintegração caótica"

Efeitos da psique sobre o corpo e seu funcionamento
A saúde física dá significado à saúde psíquica e vice-versa - o corpo terá de ser sacrificado em muitos pontos, já que a liberdade dos instintos é restringida no processo de socialização. O compromisso entre as exigências do instinto e as da realidade social pode, contudo, ser construído com um mínimo de prejuízo.
Conflitos na consciência: manejo constante.
Conflitos no inconsciente: formação mais cega de sintomas.

A psicanálise da criança permite conhecer um processo ainda em meio a sua formação e derivar acesso a formações rudimentares presentes no adulto. Não temos uma idade: temos todas as nossas idades juntas ao mesmo tempo: as idades passadas na história, a idade presente e as expectativas das idades futuras.

A psique "torna-se algo que é capaz de criar e de perceber a realidade externa, torna-se um ser qualitativamente enriquecido, em condições de ir além daquilo que se pode explicar pelas influencias ambientais, e capaz não apenas de se adaptar, mas também de se recusar a se adaptar, e de se transformar numa criatura com algo que parece ser capaz de fazer escolhas" (p. 47)

Pré-genital             ingestão -------------------- ruthless (implacável)
   Alimentar            excreção ------------------- anal
                                    (experiências)                 uretral
                                                                                             "coisa" excretada "boa"
                                                                                                                         "má"

Fálica                   Menino, e o menino dentro das meninas


                                         genital masculino ----------- penetrar
                                                                   ----------- engravidar (ativo)
Genital
                                                                | ser penetrada
                                        genital feminino | ser engravidada (passivo)
                                                                | reter e livrar-se



Importância da pré-genitalidade
Diferença entre fantasia da experiência fálica e da experiência genital

Experiência fálica:
Ereção (coisa importantíssima, cuja perda seria terrível),
Exibição (desejo exibicionista);

depois, um objetivo declarado (penetrar e engravidar)

O funcionamento genital feminino verdadeiro tende a permanecer oculto ou até mesmo secreto. A menina que não sabe guardar segredo não pode ficar grávida, do mesmo jeito que o menino que não sabe lutar ou enfiar um trenzinho no túnel não pode deliberadamente engravidar uma mulher.

Tudo isso se dá na saúde. "Feliz e saudável é o menino que chega precisamente a este ponto de seu desenvolvimento físico e emocional [, o do complexo edípico,] quando a família está intacta, e que pode ser acompanhado em meio a esta constrangedora situação em primeira mão pelos próprios pais, que ele conhece muito bem, pais que toleram ideias, e cujo relacionamento é firme o bastante a ponto de não temerem a tensão sobre as lealdades, criada pelos ódios e amores de criança" (p. 68, grifo meu).
Assim, a criança "tornar-se-á capaz de tolerar os sentimentos humanos mais intensos sem construir defesas excessivas contra a ansiedade. As defesas, porém, sempre existirão e levarão à criação de sintomas. Os sintomas neuróticos são organizações de defesa contra a ansiedade, na verdade contra a ansiedade de castração, ansiedade que surge dos desejos de morte inerentes ao Complexo de Édipo. O anormal aponta para o normal".


"Para as crianças há ainda mais certeza quanto à frustração da vida instintiva do que na idade adulta, e é em parte por isso que observamos na infância uma valorização maior do brincar e da imaginação criativa" (p. 72)

Relações triangulares
"A criança odeia a terceira pessoa. Por ter sido um bebê, a criança já conhece o amor e a agressão, e também a ambivalência e o medo de que aquilo que é amado seja destruído. Agora, finalmente, na relação triangular, o ódio pode aparecer livremente, pois o que é odiado é uma pessoa que pode se defender, e que na verdade já é amada"
O ódio somente pode aparecer de forma saudável contra uma pessoa total, com capacidade de se defender e de retaliação, a qual já fora/é amada (outrora) e por isso também é capaz de perdoar.

"A criança deve empregar os tipos de experiência pré-genital e genital imatura que estão a seu alcance, e deve valer-se ao máximo do fato de que a passagem do tempo, algumas horas ou por vezes alguns minutos, traz alívio para praticamente tudo, por intolerável que pareça, desde que alguém familiar e compreensivo esteja presente, mantendo a calma quando o ódio, a raiva, a ira, o desespero ou a mágoa parecem ocupar o universo inteiro" (pp. 75-76).

Valor e perigo da cena primária
Sonho de ocupar o lugar de um dos pais na cena primária, construção da fantasia e risco de que ela se torne real. Os pais podem falhar na criação dos filhos por não serem capazes de distinguir claramente entre os sonhos da criança e os fatos (e assim também todas as pessoas da sociedade, particularmente ao ouvir de fantasias de destruição). A criança saudável não consegue tolerar compleramente os conflitos e ansiedades presentes no auge da experiência instintiva. A fantasia é, portanto, matéria prima que permite a civilização, pois "sem a fantasia, as expressões de apetite, sexualidade e ódio em sua forma bruta seriam a regra" (p. 78). Eu sou humano na medida de meus símbolos.

Autoconhecimento
"Os pacientes psicóticos (e as pessoas normais de tipo psicótico) pouco se interessam por ganhar maior autoconsciência, preferindo viver os sentimentos e experiências místicas, e suspeitando do autoconhecimento intelectual ou mesmo desprezando-o. Estes pacientes não esperam que a análise os torne mais conscientes, mas aos poucos eles podem vir a ter esperanças de que lhes seja possível sentir-se reais" (p. 79).

(...) a análise da psicose do tipo esquizoide (...) exige que o analista seja capaz de suportar a regressão real à dependência.

Holding = interpretação correta e oportuna no setting continente pelo analista suficientemente bom.


Desenvolvimento emocional característico da primeira infância
Oral (dentro e fora)
Reconhecimento bidimensional da membrana do self
EU e não-EU
Senso de responsabilidade pela experiência instintiva e pelos conteúdos do eu
Sentimento de independência do que está fora - há algo equivalente ao eu no fora: o seio como parte de uma pessoa (de um outro)

eu + objetos = relacionamento

Posição depressiva
Discriminação entre estado excitado e tranquilo - o "ataque" impiedoso cede lugar ao concern (a mãe é uma pessoa que cuida do EU ao oferecer uma parte de si mesma para ser comida). O bebê começa a se preocupar com os relacionamentos.

ruthlessness --- concern (possibilidade de fazer reparações)
repetição do machucar-e-curar

Separar o que é bom e o que é mau no interior do self.

Amor (oral), culpa (sádico) e reparação (anal)

A mãe, que sustenta e põe o tempo em marcha, oferece parte de si para ser comida. Por satisfazer o instinto e gerar prazer, o seu seio é bom e o bebê pode sentir que seu leite é bom: há algo de bom nele. Por, ao mesmo tempo, também se ausentar e deixar, em parte, o instinto não satisfeito, ela também proporciona desprazer na frustração. O bebê se enche de ódio dela e deseja destruí-la. A próxima mamada deixará introjetar também parte de um seio mau, e o bebê sentirá que há algo de mau nele (raiva). Aos poucos, por sustentar ser atacada e permanecer, ainda assim, o bebê sentirá que seus ataques podem destruir a mãe, que é boa e ao mesmo tempo má. Ele deverá fundir a agressão e o amor e tolerar a ambivalência. Se a mãe sobrevive, lhe será mais fácil tolerar a ambivalência e assumir responsabilidade pelos seus possível ataques. O bebê sentirá culpa e se preocupará com a mãe. Dotado de elementos bons ele mesmo, o bebê precisará de oportunidades de oferecer à mãe algo que a cure, que repare o mau causado. Esta será uma produção sua (as fezes), que será recebida pela mãe e o bebê poderá ficar tranquilo e suportar mais um dia.

1) Experiências instintivas
a. satisfatórias (boas)
b. insatisfatórias, complicadas por raiva devida à frustração (más)

2) Objetos incorporados (experiências instintivas)
a. no amor (bons)
b. no ódio (maus)

3) Objetos ou experiências interiorizadas magicamente
a. para controlar (mau potencial, persecutório)
b. para usar como enriquecimento ou controle (bom potencial)

O potencial dependerá da experiência para vir a se tornar fato, ou pode permear também as fantasias.
A separação é a capacidade de esperar o futuro e reconhecer a constância do objeto.

O que a posição depressiva permite descobrir:
O self é uma unidade; o objeto externo é uma coisa inteira. O tempo e o espaço existem, a psique está integrada ao corpo. O bebê pode se preocupar quanto ao objeto e quanto às consequências no self da experiência excitada.

"A partir do momento em que a integração é alcançada (mas não antes), a criança controla os impulsos instintivos por causa das ameaças ao seu movimento implacável, que provoca uma culpa intolerável - ou seja, o reconhecimento do elemento destrutivo na ideia excitada primitiva e bruta" (p. 99).
"A culpa pelos impulsos amorosos primitivos representa uma conquista do desenvolvimento", ou seja, não é inata.

"Os psicóticos são portadores de distúrbios derivados de um estágio ainda mais precoce e básico. Suas dificuldades e problemas são especialmente aflitivos. Por não serem inerentes, não fazem parte da vida, e sim da luta para alcançar a vida - o tratamento bem-sucedido de um psicótico permite que o paciente comece a viver e comece a experimentar as dificuldades inerentes à vida" (p. 100)

Quando a ansiedade é grande demais, processos mágicos acontecem, enquanto substitutos dos processos externos anteriores (alimentação e alucinação). O fenômeno interno mau que não pode ser controlado, contornado ou excluído é sentido pela criança como uma ameaça que vem de dentro, frequentemente se transforma em dor. Experiências más internas têm menor limiar de tolerância (como fugir?). Elementos persecutórios podem ser projetados, percebidos ou encontrados no mundo exterior. "Quando existe a expectativa de perseguição, uma perseguição real traz alívio, um alívio devido ao fato de que o indivíduo não precisa se sentir louco ou delirante" (p. 101).
A função anal depreende da possibilidade de expulsar objetos maus internos, intoleráveis, (potencialmente) ingeridos (introjetados) e persecutórios - não farão mal ao corpo, pois podem ser (e são) naturalmente jogados fora, todos os dias. Alguns conjuntos de perseguidores, contudo, são grandes demais e precisam ser projetados magicamente. "Os indivíduos lentamente aprendem como levar o mundo a persegui-los, de modo a poderem obter alívio da perseguição interna sem estarem expostos à loucura do delírio" (p. 105).
A capacidade de se deprimir, de apresentar uma depressão reativa, de sofrer um luto por uma perda não é inata, nem constitui uma doença (...) O importante é a capacidade do bebê ou do indivíduo de aceitar a responsabilidade pela intenção destrutiva no impulso amoroso total, incluindo a raiva pela frustração" (p. 106) e direcionar-se para a reparação.

Ansiedade hipocondríaca
Dúvida=doença

Desenvolvimento emocional primitivo
O primeiro contato influencia o padrão de relacionamento com a realidade externa.
A mãe torna possível a ilusão de que o seio foi criado pelo impulso originado na necessidade. A total dependência demanda uma adaptação perfeita: mas as falhas permitem o desilusionamento.

necessidade --- desejo
ilusão ----> desilusão

E neste momento o bebê está pronto para ser criativo, já que o potencial de excitação, em algum momento, de fato, resultará na produção de leite na mãe. Assim, o bebê cria uma realidade que, de fato, está lá para ser criada. Caso a "mamada teórica" seja forçada, a realidade é outorgada sobre o bebê e ele não tem espaço para criar.
Ao chupar o dedo ou agarrar um pano, o bebê declara seu controle mágico sobre o mundo e prolonga a onipotência originalmente satisfeita pela adaptação realizada pela mãe. A loucura seria a persistência da exigência de tolerância à criatividade onipotente do bebê na área transicional.
Quando a mãe é incapaz de satisfazer as vontades do bebê de forma sensível, o contato com a realidade fracassa. Ele não necessariamente morre, mas sua existência está fadada a um destino débil. São desenvolvidos tipos diferentes de relação objetal, que podem existir desconectados um do outro.
- De um lado estará a vida do bebê, na qual os relacionamentos têm por base a sua capacidade de criar, mais do que a memória dos contatos anteriores,
- e do outro lado estará um falso self, que se desenvolve sobre uma base de submissão e se relaciona com as exigências da realidade externa de forma passiva (p, 127-128).

No Rorschach, isso pode aparecer em termos de:
FQu                                         L alto
H baixo                                    D alto
A alto                                       p>a+1

"Nos graus menos extremos dessa doença não é tanto o estado primário de cisão que iremos encontrar e sim uma organização secundária cindida que indica uma regressão diante de dificuldades encontradas num estágio posterior do desenvolvimento emocional" (pp. 128-129). A desintegração, portanto, pode ser um processo de defesa ativa, porquanto se origina do ser, e não é reativa a falhas do ambiente.

"Há um tipo de artista que inicia seu trabalho com a representação bruta dos fenômenos secretos do self ou da vivacidade pessoal, que para ele é repleta de significados, mas que num primeiro momento não têm sentido para os outros. A tarefa dele é tornar inteligíveis suas representações e, para fazê-lo, ele deve até certo ponto trair a si próprio. Quanto à sua criação, na verdade, se ela for apreciada em excesso, o artista poderá retrair-se inteiramente, pela sensação de ter sido falso para si próprio. Esse artista é apreciado por pessoas retraídas, aliviadas por encontrar algum (não demasiado) compartilhamento daquilo que é basicamente pessoa e essencialmente secreto".
--devemos reconhecer a criatividade potencial não tanto pela originalidade de sua produção, mas pela sensação individual de realidade da experiência e do objeto.

Filosofia do real
"Alguns bebês têm a sorte de contar com uma mãe cuja adaptação ativa inicial à necessidade foi suficientemente boa. Isto os capacita a terem a ilusão de realmente encontrar aquilo que eles criaram (alucinaram). Eventualmente, depois que a capacidade para o relacionamento foi estabelecida, estes bebês podem dar o próximo passo rumo ao reconhecimento da solidão essencial do ser humano. Mais cedo ou mais tarde, um desses beb~es crescerá e dirá: "eu sei que não há nenhum contato direto entre a realidade externa e eu mesmo, há apenas uma ilusão de contato, um fenômeno intermediário que funciona muito bem para mim quando não estou muito cansado. A mim não importa nem um pouco se aí existe ou não um problema filosófico" (p. 135).
De fato, àqueles que se preocupam com esse tipo de questão seguramente foi precedida uma experiência de dúvida ou frustração no estabelecimento desse pensamento: "bebês que tiveram experiências um pouco menos afortunadas veem-se realmente aflitos pela ideia de que não há um contato direto com a realidade externa. Pesa sobre eles o tempo todo uma ameaça de perda da capacidade de se relacionar. Para eles o problema filosófico se torna e permanece sendo vital, uma questão de vida ou morte, de comer ou passar fome, de alcançar o amor ou perpetuar o isolamento" (P. 135)

A possibilidade de transformação da dor em arte ou filosofia:
“What is a poet? An unhappy man who hides deep anguish in his heart, but whose lips are so formed that when the sigh and cry pass through them, it sounds like lovely music.... And people flock around the poet and say: 'Sing again soon' - that is, 'May new sufferings torment your soul but your lips be fashioned as before, for the cry would only frighten us, but the music, that is blissful.” (Soren Kiekergaard)

Integração
Momentos de convergência aglutinadora do self como um todo promovem gradualmente a integração. "O bebê se desmancha em pedaços a não ser que alguém o mantenha inteiro" (p. 137).
-incorporar e manter lembranças.
-a integração é um estado precário (Humpty-Dumpty), é o que provoca o sentimento de sanidade e a perda, para sempre, do estado de não-integração. Gera novas ansiedades (estar vivo e ser um, ansiedade da morte e da fragmentação, da perda e da separação) e a defesa da desintegração é, em parte, responsiva a estas, como uma esperança de voltar à não-integração (a não estar vivo).


Os estados iniciais

O nascimento "normal" é aquele que é provocado pelo bebê. O estar-vivo já ocorre antes do nascimento e este pode ser produzido pelos impulsos do próprio bebê em direção ao movimento e à mudança que se originam diretamente do estar-vivo. Não há capacidade de espera ou de antecipação, pois o tempo ainda não foi posto em marcha. Qualquer demora ou antecipação é infinita.
O ambiente põe os dias em marcha, dá os primeiros sinais do que é o ritmo (respiração, frequência cardíaca da mãe). O impulso e a necessidade são construções criativas e vem de dentro. É preciso um período de recuperação após cada falha do ambiente, para reequilibrar a constituição ainda frágil de dentro e fora.

Desenvolvimento segundo as relações objetais
 - solidão
 - dependência absoluta (dupla dependência)
 - impulso instintivo (ruthless)
 - preocupação e culpa (dependência relativa, objeto parcial)
 - reparação
 - relação triangular
 - rumo à independência

Indivíduo e meio: como será feito o contato?
O movimento do próprio indivíduo descobre o ambiente
O ambiente "invade", por meio de uma intrusão (impingement), que é imprevisível e demanda reação. Neste modo de relacionamento, a excitação torna-se intrusiva (é um "intruso"). O mundo o invade - e a única possibilidade de interação é submissa.
O narcisismo primário, ou o estado anterior à aceitação de que existe um meio ambiente, é o único estado a partir do qual o ambiente pode ser criado. Um meio intrusivo não pode ser criado.

No princípio, há uma solidão essencial, inorgânica: solidão absoluta na dependência absoluta.
Desconhecimento do ambiente, a continuidade do ser depende da adaptação.
"O estado anterior ao da solidão é um estado de não-estar-vivo, sendo que o desejo de estar morto é em geral um disfarce para o desejo de ainda-não-estar-vivo. A experiência do primeiro despertar dá ao indivíduo a ideia de que existe um estado de não-estar-vivo cheio de paz, que poderia ser pacificamente alcançado através de uma regressão extrema. Muito do que geralmente é dito e sentido a respeito da morte, na verdade se refere a este estado anterior ao estar-vivo, no qual o estar sozinho é um fato e a dependência ainda se encontra muito longe de ser descoberta" (p. 154)

Caos
Intrusões
Desintegração: alternativa para a ordem, defesa contra ansiedades advindas da integração
Depressão: controle mágico do caos interno (tentativa de exteriorizar o caos interno)

Na cisão:
O verdadeiro self, dotado de esponaneidade, é incomunicável;
O falso self, baseado das intrusões do meio, é o que se relaciona com o meio externo.

Na dissociação: excessiva falta de comunicação entre os diversos elementos da personalidade.

Na repressão: perda de vários sentimentos, pensamentos, devido à dor intolerável que eles causam quando são trazidos à consciência

"Se o desenvolvimento transcorre favoravelmente, o indivíduo torna-se capaz de enganar, mentir, negociar, aceitar o conflito como um fato, e abandonar ideias extremas da perfeição e do seu oposto, que tornam a existência intolerável".
O ser humano é cruel, mas não está de todo estragado.

A função intelectual
Explica, admite e antecipa (memória) a desadaptação (criatividade).
Controle e racionalização: espécie de babá da criança.

Retraimento e dependência
Regressões no processo psicoterapêutico: o narcisismo permite ao sujeito o não reconhecimento da dependência, a onipotência e a verdade, já que não há intrusão. No narcisismo primário, o bebê não é forçado a reconhecer o ambiente e reagir a ele.

---No início, o ambiente se adapta às necessidades do bebê, permite que ele (crie a ilusão) ilusione a criação do mundo a partir de suas necessidades (excitações de origem interna que se transformarão em desejo). Na medida em que o bebê retém as ifnromações sobre a adaptação do meio, ele reconhece sua dependência e desenvolve a capacidade de:
-estar só na presença do outro;
-cuidar de si;
-se preocupar com o outro.
O ambiente começa a se desadaptar e desilusiona o bebê, que tolera a imperfeição do ambiente e a sua própria, na tolerância da ambivalência.

A espera infinita do nascimento "fornece uma base muito poderosa para coisas tais como a questão da forma na música, onde, sem a rigidez da moldura, a ideia do fim é mantida diante do ouvinte desde o início. A música sem forma aborrece. E a inexistência de formas é infinitamente enfadonha para aqueles que se sentem particularmente aflitos por este tipo de ansiedade, por conta de adiamentos impossíveis de compreender ocorridos em sua primeira infância" (p. 167)

No Rorschach, a atribuição repetitiva e enfática das formas (Lambda alto) pode aparecer como organização defensiva contra o infinito.

O ambiente
Pode ser mais fácil enfrentar a guerra e a morte do que algo como o imbroglio.
Mãe: ilusão de contato com o mundo externo (construção da área transicional).
Preocupação materna primária: capacidade de se identificar com o bebê (a partir do bebê que a mãe foi).

Handling (ancora a psique no corpo, cuidado técnico do corpo)
Holding (sustenta e permite o envolvimento, cuidado emocional, expressão de amor)





terça-feira, 11 de dezembro de 2012

A psicose na metapsicologia freudiana

Simanke, R. T. (2009). A formação da teoria freudiana das psicoses. São Paulo: Loyola, pp 225-247.

1º problema: As duas realidades

A castração é o protótipo de todo rompimento posterior com o mundo. A partir da formulação do complexo de Édipo, o questionamento: existiria, na psicose, um mecanismo equivalente à repressão?
Alucinação, narcisismo e mecanismo específico da psicose: influências na noção de "ruptura com a realidade".

Noção de realidade: a realidade psíquica não é a totalidade do que é subjetivo. Há um problema epistemológico na descrição da realidade psíquica, que é a comparação desta com a realidade material. Freud oferece ordem de realidade ao que é próprio do inconsciente: pensamentos intermitentes e de transição (o que é subjetivo, pensamentos voluntários, devaneios) não teriam realidade, embora sejam subjetivos. Ao contrário, desejos inconscientes em sua expressão última e verdadeira são uma forma particular de existência e mereceriam o estatuto de realidade psíquica, porquanto causam (ou seja, determinam) os eventos psíquicos.

Velho embate:
Interno x externo
Subjetivo x objetivo
Real x não real
Em que medida essas dimensões se interpolam e se interdeterminam?

Para Freud, a realidade psíquica é mais do que a subjetividade, mas não compreende, em absoluto, o objetivo e o externo. Ao discorrer sobre a aquisição psíquica, Freud descreve que o prazer se localiza no ego e o desprazer é projetado para fora. No artigo "A negativa" (1925), ele descreve a função do juízo, ou seja, a prova de realidade (questão central da psicose), como tarefa do ego-realidade final, o qual é derivado do ego-prazer inicial: algo é julgado como real se a representação puder ser encontrada na percepção. Podemos ver a confusão entre representação e percepção na alucinação e paranoia. O externo é julgado como algo fora do ego, mas não necessariamente ele estará fora do psíquico, o que deriva que a realidade psíquica não é somente interna.

Mais ainda, a realidade psíquica:
- não é somente individual (ou subjetiva),
- não é livre, como a imaginação,
- possui determinação externa, mas não se confunde com os elementos externos.

Pulsão sexual e a teoria da sedução
Laplanche e Pontalis: teoria da sedução generalizada. A pulsão sexual é inclulcada no bebê pela sedução do adulto (cuidado corporal erogeneizante);
Melanie Klein sugere que a pulsão sexual é totalmente endógena, os objetos sexuais são constituídos a partir da fantasia, extremamente precoce;
Freud devente posição intermediária: as pulsões têm sua fonte nas zonas erógenas, mas encontram seus objetos na realidade externa (que pode, inclusive, ser o corpo próprio).

Breuer: "os histéricos sofrem de reminiscências" - não quaisquer, mas um tipo especial de memória constitui o núcleo do trauma, o qual se manifestará a partir de associações e formações simbólicas. O núcleo, em si, não é elaborado, resiste a análise e é o ponto de inserção do mundo concreto no psiquismo, onde se situa a realidade psíquica. A memória é uma fantasia infantil e a cena primária é o momento do enengramento do psíquico pela ação da realidade externa. A fantasia é primária: elabora, assimila e está relacionada, ainda que apenas isomorficamente ou por meio de associações simbólicas, a um evento real. A fantasia, portanto, é a expressão da pulsão. O objeto da repressão primária (que retorna na repressão propriamente dita) é o primeiro representante psíquico da pulsão, este constitui o ponto de inserção da realidade externa no psiquismo.

Daí decorre que:
Os registros mnêmicos não verbais, inacessíveis à consciência, pertencem ao inconsciente, são o núcleo irredutível, resistem à interpretação e são reais.
Na alucinação, estratégia primária de realização de desejo, o sujeito vive em realidade psíquica. A perda da realidade na psicose é a perda da relação mediata com o inconsciente, onde há somente representações de coisa. Na psicose, decorrente da impossibilidade de diferenciar representações e percepções, a representação se torna coisa. A realidade psíquica parece um "nó heterogêneo", relativamente exógeno, pois o percebido, após virar traço mnêmico, está sujeito ao processo primário: está condenado à "inefabilidade qualitativa", já que o sujeito só recebe a quota energética daquilo que tem que processar. O externo só tem, na metapsicologia freudiana, o estatuto econômico/energético.

Com o abandono da teoria da sedução, Freud não desiste da determinação real e histórica das fantasias: busca, então, a determinação nos diversos âmbitos da produção cultural e subjetiva humana:
-mitologia,
-antropologia,
-filo e ontogenia.

Teoria do complexo de castração
Efeito traumático da ameaça de castração: ameaça à integridade narcísica. A psicose seria a recusa da castração e o retorno (fixação) no narcisismo. A ablação do falo é uma fantasia, assinala o lugar do sujeto em um mundo sexuado, com a diferença entre os sexos (e entre as gerações, na entrada no complexo de Édipo, muito tempo depois).
No narcisismo, a relação de objeto é de identificação, o objeto parental é idêntico ao ego (com as frustrações, o ego apela ao id: "me ame, eu sou tão parecido com ele...).

Diferença entre representação e percepção:
Só com a superação do narcisismo primário as noções de dentro e fora, eu e outro começam a fazer sentido. Na menina, a decepção fálica introduz ao Édipo e à captura do pai por desejo de um filho-falo. No menino, a mãe fálica era idêntica a ele e a descoberta da castração (dela) insere a criança no complexo - a ausência/inveja do pênis divide o mundo em dois conjuntos de seres irreconciliáveis. E o fato de esta diferença estar estritamente relacionada ao sexo e à reprodução faz desta questão, para a criança sexuada, essencialmente central e traumática. A castração se torna realidade da própria vida, universal.

Narcisismo
O narcisismo primário é a inserção do objeto na identificação primária, quando ego=objeto. A onipotência imaginária não dá limites para a satisfação do desejo. A alucinação é característica da psicose enquanto quadro de regressão ao narcisismo. A castração é todo limite imposto ao desejo pela realidade, significa ruptura da situação narcísica: é a resistência da realidade à satisfação do desejo. A passagem pelo Édipo permite evitar, em parte:
-a confrontação com a realidade da castração;
-a confrontação com a realidade da ferida narcísica que ela implica.

O incesto (interdito, proibição) resulta do sepultamento do Édipo e oferece objetos possíveis ao sujeito, ao mesmo tempo em que o distancia da castração. O tabu do incesto permite dizer que, se os sujeitos, femininos e masculinos, só se satisfazem parcialmente e com objetos algo inadequados, é por causa da interdição do incesto e não à diferença sexual real, que acaba com a fantasia narcísica. Isso porque a transgressão a uma proibição é, em tese, possível. A proteção contra a ameaça de castração é a repressão contra desejos incestuosos e a identificação (secundária) de parte do ego com as figuras parentais (Édipo direto+invertido=completo), um algo de conservação do narcisismo: SUPEREGO.

Narcisismo secundário da perversão ≠ psicose (modo da recusa).

No neurótico, o superego é porta-voz da ameaça de castração.
O conflito ego x superego na neurose substitui o arcaico conflito ego x realidade, próprio da psicose.

Em Eva, por exemplo, o registro narcísico mantido após o complexo de Édipo retorna com a "realidade material" de um outro (do filho), que é rejeitado. Na psicose, há a perturbação do vínculo do ego com a realidade pela recusa em dar inscrição psíquica à realidade da diferença sexual. Em muito se parece com a defesa perversa...

Verleugnung: fragilidade original da construção da realidade da diferença sexual devido à recusa de dar inscrição psíquica a um dos seus elementos mais fundamentais.

Desinvestimento do inconsciente: as representações de coisa são "percebidas" (perceber=recordar). O modo particular de defesa da psicose extingue (desinveste) sucessivamente as representações de coisa que assinalam o ponto de inserção da realidade insuportável (complexo de castração?). "É uma espécie de sangramento do investimento próprio desse sistema através da brecha deixada pela ausência de inscrição psíquica de uma realidade concreta tão decisiva como a castração" (p. 239).

A confrontação com essa realidade só produz desagregação (ameaça de castração --> ameaça de aniquilamento).

"Esboço de psicanálise": dificuldade demarcatória entre psicose, neurose e perversão (verleugnung?)

Lacan: Verwerfung - forclusion ~ forma mais drástica de rejeição da representação intolerável (alucinaçaõ, Neuropsicoses de defesa); recusa da castração em Homem dos Lobos. O que é foracluído no simbólico (cuja inscrição psíquica é recusada) retorna no real.

Laplanche e Pontalis (vocabulário): termos que denotam uma recusa em tomar conhecimento de algum conteúdo que não é repressão.

Schreber: conteúdo psíquico cancelado (aufgehoben) dentro e que ressurge desde fora, por projeção.

Fetichismo: duas séries psíquicas paralelas (cisão do ego), numa das quais a falta do pênis feminino estaria reconhecida (ambiguidade). Na psicose, a série com a falta do pênis está ausente. A ausência de um esquema de regulação edípico deixa o sujeito psicótico perplexo diante do surgimento de obstáculo à realização do desejo (alucinação). Na falta das representações de coisa, desinvestidas pela defesa psicótica, à realização de desejo, sempre regressiva, não resta alternativa senão a via alucinatória.
(A interpretação dos sonhos: o desejo inconsciente é o impulso psíquico para reinvestir as representações de coisa na falta do objeto).

Presença de alucinações em quadros clínicos que não a psicose. Na histeria, a invervação conversiva do aparato sensorial (daí também nossa postura de não chamar essas pessoas de psicóticas, que dirá esquizofrênicas, não importa quanto tempo durem as alucinações). Na psicose, contudo, o desinvestimento no inconsciente ocorre em cadeia e esvazia o sistema de sua excitação própria, até a constituição do delírio. Na histérica, a formação do sintoma é simbólico, a representação está reprimida (O inconsciente).

Alucinação verbal: despersonalização.
"O sujeito não tem mais a impressão de coincidir com sua palavra própria. Eis aí o germe da ilusão da palavra estrangeira" (Merleau-Ponty, 1949, p. 58).

Winnicott: o que importa é proteger o verdadeiro self.

O delírio passa a ser um esforço pra recuperar os vínculos perdidos com a realidade (tentativa de cura, remendos psíquicos).

As representações de palavra (veículo para o delírio) perderam o vínculo associativo (afetivo) com as representações de coisa, os instrumentos de mediação e prova de realidade realizados pelo ego, aniquiladas pelo desinvestimento psicótico e, por isto mesmo, a palavra é tomada como coisa (e investida pela quota de afeto livre?)

A possibilidade de uso da linguagem compartilhada (consciente) depende da reanimação dos traços mnêmicos. O delírio é pensar com palavras investidas de libido narcísica (daí decorre que o paranoico ama seu delírio como a si mesmo, onipotência do sintoma)

Decisão na relação eu-outro
-As instâncias psíquicas são sedimentos dos investimentos objetais primários abandonados
objeto da pulsão (parcial) --> falta --> objeto do desejo
A nova ação psíquica que leva do autoerotismo ao narcisismo é o início da diferenciação entre ego e id. No narcisismo, ego=objeto.
Narcisismo secundário: retorno a um modo arcaico de relação objetal.
Privado das referências que assinalam o limite da subjetividade, o psicótico só pode perceber sua palavra como proveniente da realidade externa (alucinação auditiva: regressão tópica, formal e temporal)

O psicótico freudiano parece virado ao avesso (inconsciente a céu aberto).

"A história do conceito de psicose em Freud é toda - ou quase toda - uma pré-história (p. 248)".

Discussões sobre a diferença entre a noção de psicose na
psicanálise x psiquiatria
Não estamos falando da mesma coisa... Postura epistemológica na construção da classificação psiquiátrica, um manual diagnóstico "ateórico" é impossível.




sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Neurose e psicose - A formação da teoria freudiana das psicoses

Simanke, R. T. (2009). A formação da teoria freudiana das psicoses. São Paulo: Loyola.

Freud enfatiza a idéia de que é o fracasso da defesa, isto é, o malogro em obter o esquecimento desejado, que instaura o conflito patológico. (...) [No caso da conversão histérica], trata-se de debilitar a representação conflitiva (p.86)

A quantidade de excitação livre, oriunda do desinvestimento da representação conflitiva, pode encontrar, em princípio, qualquer destino em termos de inervação somática. Assim, uma inervação motora pode dar origem a paralisias ou neuralgias musculares; uma inervação da musculatura involuntária ou visceral pode causar os conhecidos sintomas de náuseas ou vômitos histéricos; a inervação do aparato sensorial, enfim, originaria as alucinações visuais, táteis, auditivas, cinestésicas etc., cujo conteúdo encontrar-se-ia relacionado com o conteúdo da representação excluída. É nestes termos que se coloca o problema das relações entre a alucinação e a conversão histérica. Contudo, às alucinações características da confusão alucinatória serão atribuídas uma natureza, uma função, uma origem, uma explicação, enfim, completamente diferentes daquelas atribuídas à alucinação resultante da conversão (p. 87)

Ora, existe uma modalidade defensiva muito mais enérgica e exitosa, que consiste em que o ego rejeite (verwirft) a representação insuportável, juntamente com seu afeto, e se comporte como se a representação nunca tivesse comparecido. Só que, no momento em que se conseguiu isto, a pessoa se encontra em uma psicose que não admite outra classificação que “confusão alucinatória” (Freud, 1984, p. 59 – Projeto)


Angústia – Assim como no Projeto... (...) não há neurônio sem Q, não há também afeto que não esteja ligado a um neurônio, exceto no caso da angústia, mas aí já fora da esfera representacional, pois se trata de excitação puramente somática manifestando-se diretamente como desprazer psíquico (p. 89) – Y?

Realidade – A realidade começa a ser tratada [nas primeiras formulações sobre a paranóia e a projeção], antes de tudo, como uma realidade representada para e pelo sujeito – o que coloca limites para uma interpretação excessivamente realista da posição freudiana (...) –, e as representações que a compõem têm, como todas as outras, seu acesso à consciência condicionado pelo interjogo das forças psíquicas. (...) [Freud] sugere que o grau da realidade percebida não é, afinal, superior ao das demais, e que a percepção é um fenômeno complexo, sujeito às leis do suceder psíquico, e não uma apreensão imediata do mundo (p. 90).
Apagamento da fronteira entre normal e patológico – Da mesma maneira que a ideia de realidade vai perdendo, para Freud, sua conotação “natural”, a questão dos limites ego/ mundo, interior/exterior assume, aos poucos, o aspecto de conquista da evolução psíquica do sujeito, que pode ser posta em risco a qualquer momento, em razão das vicissitudes deste mesmo psiquismo (p. 95)

Delírio – Nesse momento, o delírio já começa a assumir o caráter de um esforço empreendido pelo ego para manter ou recuperar sua unidade interna diante do retorno do reprimido (ou seja, de uma tentativa espontânea de cura, p. 99). Delírio de assimilação: o sujeito ama seu delírio como a si mesmo, só reconhece como próprio o que emerge no delírio.

A dúvida e a incerteza presentes na neurose se relacionam ao processo simbólico presente na formação do sintoma: o símbolo histérico, o objeto no qual o afeto da representação reprimida é investido, vem como uma nova representação que encobre e representa o reprimido. “Tal ambigüidade não existe no delírio: ele é uma tradução em representações de palavra do reprimido que retornou maciçamente na forma de signos perceptivos (p. 100)”

Lógica do inconsciente: não há não. Uma concepção da psicose como o tipo de afecção que se caracteriza por ser uma perturbação apenas do pensamento...
Sabendo que qualquer órgão é, potencialmente, uma zona erógena, o retraimento da libido para o ego pode erogeneizar qualquer órgão, na constituição de um delírio hipocondríaco.
[Em uma neurose narcísica], a libido liberada por frustração não fica aderida aos objetos na fantasia, mas sim se retira sobre o ego.


Caso Schreber: ou o sujeito é capaz de aceitar as moções pulsionais homossexuais e eclode a homossexualidade manifesta, ou se defende vigorosamente contra elas e, caso seja incapaz de restabelecer a repressão e/ou refazer as sublimações anteriores agora desfeitas, acaba por mergulhar no delírio paranoico (p. 156).

A projeção, ao menos no caso da paranoia, forma a contrapartida do desinvestimento dos objetos que
caracteriza as neuroses narcísicas: uma vez transposta para o exterior a fonte dos sentimentos condenáveis, a libido do sujeito fica livre para ser investida no ego.

A teoria delirante de Schreber constitui um magnífico exemplo do processo assimilativo: esforço para integrar no ego o reprimido que retorna maciçamente nas alucinações. Reprimido?? O cancelado dentro retorna desde fora: o delírio como tentativa espontânea de cura, de reorientação da libido aos investimentos objetais.

Esquizofrenia e paranoia
Diferentes polos inicial e terminal do processo defensivo, mantendo em comum o termo médio, que é a repressão propriamente dita, a qual, tanto num caso como no outro, se apoia na retração da libido objetal e no investimento regressivo do ego. (p, 162)

Na esquizofrenia, a tentativa de recuperação que se segue ao processo patogênico não se dá por projeção, como na paranoia, mas por um mecanismo alucinatório (histérico).

Ponto de fixação da esquizofrenia: retorno até o autoerotismo. Essa regressão de maior alcance, até um momento menos estruturado da atividade pulsional, responderá pela maior desagregação observada nos estados esquizofrênicos, ao contrário da impenetrável coerência dos sistemas delirantes na paranoia.

De alguma maneira a natureza oculta do inconsciente se faz evidente na esquizofrenia.

Vínculo com a histeria: a linguagem toma frequentemente uma referência a órgãos e inervações corporais – linguagem de órgão, o traço hipocondríaco do enunciado esquizofrênico. Causa e efeito estão atualizados no discurso, e a relação de simbolização se esvai. O modo privilegiado de registro que vigora no pré-consciente é também atingido pelo processo primário: as palavras passam a sofrer o mesmo processo dos sonhos, a deformação onírica. Tudo se passa como se o próprio inconsciente viesse à tona, submetendo a seu regime as representações de palavra do pré-consciente: falta a referência a um registro lógica, tópica e temporalmente anterior e diz-se que, na esquizofrenia, não há regressão tópica.

Retraimento da libido investida na representação de objeto, que é formada pela representação de coisa + representação de palavra – apenas o investimento da representação de coisa foi retirado para o ego: a representação de palavra do objeto permanece investida e é submetida ao processo primário, funcionando como representação de coisa.

O sistema Icc contém os investimentos de coisa dos objetos, que são os investimentos de objeto primeiros e genuínos; o sistema Prcc nasce quando esta representação de coisa é sobreinvestida pelo enlace com as representações de palavra que lhe correspondem (Freud, 1915).

Mas o inconsciente é mais do que representações de coisa reprimidas, ou impossibilitadas de investir em representações de palavra pré-conscientes. A esquizofrenia exige um processo além da repressão para poder ser entendida como “inconsciente a céu aberto”.

Na alucinação, o investimento inconsciente (da representação de coisa, característica do processo primário) se transpassa ao sistema percepção-consciência, sendo capaz de animar sua própria percepção sem a presença de um objeto externo. É a culminação do processo patológico da neurose narcísica, o maior estágio de retração dos investimentos objetais, resulta na fantasia de fim de mundo e o deliro, tentativa de explicação das alucinações, é o reinvestimento das representações de palavra pré-conscientes.


A tomada de consciência depende da reanimação alucinatória das representações de palavra. Desinvestido o próprio inconsciente, os registros mnêmicos e as imagens acústicas das palavras seriam metabolizados pelo processo primário na constituição de uma linguagem peculiar, particular. Sobre a terra arrasada pelo conflito defensivo, o sujeito reconstroi o mundo a partir dessas imagens e, nesse movimento, reconstroi sua esfera subjetiva.

A falta da referência às representações de coisa faz com que estas imagens verbais sejam tratadas como objetos, “como os investimentos de objetos primeiros e genuínos”, e disto resulta o caráter típico da linguagem esquizofrênica, que faz que a semelhança na expressão linguística substitua a semelhança da coisa designada na construção das formações delirantes (um buraco é um buraco).
Sem nada a não ser palavras para reconstruir o mundo, a equivalência verbal não poderá senão redundar em identidade de fato.

Perda da referência à motivação intrínseca do processo: na melancolia, não se sabe bem o que se perdeu (fixação na etapa narcísica).

Identificação: etapa prévia ao investimento objetal; é incorporando em si as características de um objeto privilegiado que o ego se constitui como unidade autônoma e diferenciada do não ego.

Identificação primária: o ego se identifica com tudo o que é prazeroso, mediante uma identificação narcísica.
Ego e objeto se constroem simultaneamente.

Hollós e Ferenczi: Zur Psychonalyse der paralytischen Geistesstörung (prevenção das psicoses).

Ego, um servidor de três amos: o mundo exterior, a libido do id e a severidade do superego.

Perda da realidade: cancelamento da percepção, perda da eficácia psíquica da percepção. "O ego cria para si um novo mundo exterior e interior, e há dois fatos indubitáveis: que este novo mundo se edifica no sentido das moções de desejo do id e que o motivo desta ruptura com o mundo externo foi uma grave frustração de um desejo por parte da realidade (Freud, 1924a)".

Fator etiológico comum para a neurose e psicose: frustração de um desejo. O efeito patogênico depende do modo como o ego age.
Ponto de vista econômico preponderante.
Qual será o mecanismo, análogo a uma repressão, por cuj0o intermédio o ego se desliga do mundo exterior? (idem)

Na psicose, a perda da realidade é primária, um mecanismo análogo à repressão neurótica (rejeição?) arranca o ego da realidade dentro de um processo silencioso (não pontuado por sintomas). A ruidosa proliferação sintomática da psicose decorre das tentativas empreendidas pelo ego de refazer seu contato com a realidade (esforços para retomar os vínculos perdidos com o objeto). Na medida em que a realidade interna se perde concomitantemente com a realidade externa, o processo patogênico da psicose coincidiria com a aniquilação completa da interioridade.

A pulsão de morte ensina à libido o caminho para os objetos.


A renegação assume valor de elemento diferenciador entre a neurose e a psicose, torna-se pré-condição da reconstrução do mundo efetuada pelo delírio. Nesse contexto, insere-se a alucinação, cuja função é fornecer percepções tais que correspondam à realidade a ser reconstruída. Diferentemente do neurótico, que se refugia na fantasia para uma satisfação simbólica, o psicótico quer impor seu reservatório de representações para satisfazer as formações de desejo. De acordo com Klein, a psicose é uma deficiência na capacidade de expressão simbólica. Também o mundo de fantasias é desinvestido na psicose, a fantasia psicótica tem que ser fabricada “do nada” com as imagens acústicas alucinatoriamente revividas, privadas de seu significado original. Mas não é possível criar um substituto plenamente satisfatório para a pulsão reprimida no id e nem a realidade é infinitamente plástica.

No início, havia o bom (prazeroso) e o mau (desprazeroso), o juízo de atribuição antecede o de existência. Decidir sobre a existência de alguma coisa é um interesse do ego-realidade, que se desenvolve como um modificação do ego-prazer (a existência de um objeto na realidade só pode ser alvo de uma crença e não de uma demonstração).

Exame de realidade: pressupõe a distinção entre dentro e fora, já que se trata de decidir se uma coisa existe somente como representação (internamente) ou se, além dessa presença interna, existe também exteriormente.

Negação: na psicose, a negação exige a anulação da afirmação inicial, que é o desinvestimento das representações de coisa. É o que Freud dá a entender ao falar do “gosto de negá-lo todo, o negativismo de muitos psicóticos” (Freud, 1925c).


[Em O ego e o id], Freud ratifica a concomitância da constituição do ego e do objeto total. No começo de tudo, ou seja, no momento mais originário possível, que corresponde à primitiva fase oral do desenvolvimento da libido, “é por completo impossível distinguir entre investimento de objeto e identificação” (Freud, 1923a, p. 31).

No narcisismo, há a integração dos objetos/ identificações parciais, na medida em que o ego se separa do id, a partir do acúmulo de experiências com as catexias parciais (pulsões parciais) nos objetos parciais. Assim,
“Quando o ego adquire os traços do objeto, por assim dizer, se impõe ele mesmo ao id como objeto de amor, busca reparar-lhe sua perda, dizendo-lhe: ‘Veja, podes amar a mim também, sou tão parecido com o objeto...’” (p. 32).

O corpo próprio, ou antes, sua superfície, é dotada dos elementos dos objetos parciais e pode ser tomado como objeto de amor. Similaridades com o “estágio do espelho”, de Lacan.

Complexo de Édipo composto: direto e invertido, bissexualidade constitucional. Herdeiro do complexo de Édipo, o superego (ideal de ego) é “expressão das mais potentes moções dos mais importantes destinos libidinais do id” (p. 37). Assim, “conflitos entre o ego e o ideal espelharão, refletirão, em última análise, a oposição entre o real e o psíquico, o mundo exterior e o mundo interior" (p. 38).

Fase fálica e castração: desde o início, o indivíduo experiencia frustrações as mais intensas, como o nascimento, o desmame e o depósito cotidiano das próprias fezes. Na medida, contudo, que seu corpo é dotado de integridade imaginária, no narcisismo, ele pode ser submetido a uma localização corporal da frustração, que, a partir de agora, pode ser entendida como restrição dos desejos. A fase fálica inaugura o complexo de castração.

A restrição do desejo dentro do complexo de castração atinge a dimensão da realidade corporal, sobre a fantasia narcísica. Na neurose, é em vista da preservação do narcisismo ameaçado pela castração que o sujeito aceita a renúncia pulsional edípica. Os investimentos de objeto são abandonados e substituídos por identificações - a autoridade do pai (severidade, proibição do incesto) é introjetada no ego e aí se forma o núcleo do superego, que reassegura o ego contra o retorno do investimento libidinoso de objeto e permite a sublimação (fase de latência).

Por que o psicótico falha em dar cabo desse processo?