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terça-feira, 11 de dezembro de 2012

A psicose na metapsicologia freudiana

Simanke, R. T. (2009). A formação da teoria freudiana das psicoses. São Paulo: Loyola, pp 225-247.

1º problema: As duas realidades

A castração é o protótipo de todo rompimento posterior com o mundo. A partir da formulação do complexo de Édipo, o questionamento: existiria, na psicose, um mecanismo equivalente à repressão?
Alucinação, narcisismo e mecanismo específico da psicose: influências na noção de "ruptura com a realidade".

Noção de realidade: a realidade psíquica não é a totalidade do que é subjetivo. Há um problema epistemológico na descrição da realidade psíquica, que é a comparação desta com a realidade material. Freud oferece ordem de realidade ao que é próprio do inconsciente: pensamentos intermitentes e de transição (o que é subjetivo, pensamentos voluntários, devaneios) não teriam realidade, embora sejam subjetivos. Ao contrário, desejos inconscientes em sua expressão última e verdadeira são uma forma particular de existência e mereceriam o estatuto de realidade psíquica, porquanto causam (ou seja, determinam) os eventos psíquicos.

Velho embate:
Interno x externo
Subjetivo x objetivo
Real x não real
Em que medida essas dimensões se interpolam e se interdeterminam?

Para Freud, a realidade psíquica é mais do que a subjetividade, mas não compreende, em absoluto, o objetivo e o externo. Ao discorrer sobre a aquisição psíquica, Freud descreve que o prazer se localiza no ego e o desprazer é projetado para fora. No artigo "A negativa" (1925), ele descreve a função do juízo, ou seja, a prova de realidade (questão central da psicose), como tarefa do ego-realidade final, o qual é derivado do ego-prazer inicial: algo é julgado como real se a representação puder ser encontrada na percepção. Podemos ver a confusão entre representação e percepção na alucinação e paranoia. O externo é julgado como algo fora do ego, mas não necessariamente ele estará fora do psíquico, o que deriva que a realidade psíquica não é somente interna.

Mais ainda, a realidade psíquica:
- não é somente individual (ou subjetiva),
- não é livre, como a imaginação,
- possui determinação externa, mas não se confunde com os elementos externos.

Pulsão sexual e a teoria da sedução
Laplanche e Pontalis: teoria da sedução generalizada. A pulsão sexual é inclulcada no bebê pela sedução do adulto (cuidado corporal erogeneizante);
Melanie Klein sugere que a pulsão sexual é totalmente endógena, os objetos sexuais são constituídos a partir da fantasia, extremamente precoce;
Freud devente posição intermediária: as pulsões têm sua fonte nas zonas erógenas, mas encontram seus objetos na realidade externa (que pode, inclusive, ser o corpo próprio).

Breuer: "os histéricos sofrem de reminiscências" - não quaisquer, mas um tipo especial de memória constitui o núcleo do trauma, o qual se manifestará a partir de associações e formações simbólicas. O núcleo, em si, não é elaborado, resiste a análise e é o ponto de inserção do mundo concreto no psiquismo, onde se situa a realidade psíquica. A memória é uma fantasia infantil e a cena primária é o momento do enengramento do psíquico pela ação da realidade externa. A fantasia é primária: elabora, assimila e está relacionada, ainda que apenas isomorficamente ou por meio de associações simbólicas, a um evento real. A fantasia, portanto, é a expressão da pulsão. O objeto da repressão primária (que retorna na repressão propriamente dita) é o primeiro representante psíquico da pulsão, este constitui o ponto de inserção da realidade externa no psiquismo.

Daí decorre que:
Os registros mnêmicos não verbais, inacessíveis à consciência, pertencem ao inconsciente, são o núcleo irredutível, resistem à interpretação e são reais.
Na alucinação, estratégia primária de realização de desejo, o sujeito vive em realidade psíquica. A perda da realidade na psicose é a perda da relação mediata com o inconsciente, onde há somente representações de coisa. Na psicose, decorrente da impossibilidade de diferenciar representações e percepções, a representação se torna coisa. A realidade psíquica parece um "nó heterogêneo", relativamente exógeno, pois o percebido, após virar traço mnêmico, está sujeito ao processo primário: está condenado à "inefabilidade qualitativa", já que o sujeito só recebe a quota energética daquilo que tem que processar. O externo só tem, na metapsicologia freudiana, o estatuto econômico/energético.

Com o abandono da teoria da sedução, Freud não desiste da determinação real e histórica das fantasias: busca, então, a determinação nos diversos âmbitos da produção cultural e subjetiva humana:
-mitologia,
-antropologia,
-filo e ontogenia.

Teoria do complexo de castração
Efeito traumático da ameaça de castração: ameaça à integridade narcísica. A psicose seria a recusa da castração e o retorno (fixação) no narcisismo. A ablação do falo é uma fantasia, assinala o lugar do sujeto em um mundo sexuado, com a diferença entre os sexos (e entre as gerações, na entrada no complexo de Édipo, muito tempo depois).
No narcisismo, a relação de objeto é de identificação, o objeto parental é idêntico ao ego (com as frustrações, o ego apela ao id: "me ame, eu sou tão parecido com ele...).

Diferença entre representação e percepção:
Só com a superação do narcisismo primário as noções de dentro e fora, eu e outro começam a fazer sentido. Na menina, a decepção fálica introduz ao Édipo e à captura do pai por desejo de um filho-falo. No menino, a mãe fálica era idêntica a ele e a descoberta da castração (dela) insere a criança no complexo - a ausência/inveja do pênis divide o mundo em dois conjuntos de seres irreconciliáveis. E o fato de esta diferença estar estritamente relacionada ao sexo e à reprodução faz desta questão, para a criança sexuada, essencialmente central e traumática. A castração se torna realidade da própria vida, universal.

Narcisismo
O narcisismo primário é a inserção do objeto na identificação primária, quando ego=objeto. A onipotência imaginária não dá limites para a satisfação do desejo. A alucinação é característica da psicose enquanto quadro de regressão ao narcisismo. A castração é todo limite imposto ao desejo pela realidade, significa ruptura da situação narcísica: é a resistência da realidade à satisfação do desejo. A passagem pelo Édipo permite evitar, em parte:
-a confrontação com a realidade da castração;
-a confrontação com a realidade da ferida narcísica que ela implica.

O incesto (interdito, proibição) resulta do sepultamento do Édipo e oferece objetos possíveis ao sujeito, ao mesmo tempo em que o distancia da castração. O tabu do incesto permite dizer que, se os sujeitos, femininos e masculinos, só se satisfazem parcialmente e com objetos algo inadequados, é por causa da interdição do incesto e não à diferença sexual real, que acaba com a fantasia narcísica. Isso porque a transgressão a uma proibição é, em tese, possível. A proteção contra a ameaça de castração é a repressão contra desejos incestuosos e a identificação (secundária) de parte do ego com as figuras parentais (Édipo direto+invertido=completo), um algo de conservação do narcisismo: SUPEREGO.

Narcisismo secundário da perversão ≠ psicose (modo da recusa).

No neurótico, o superego é porta-voz da ameaça de castração.
O conflito ego x superego na neurose substitui o arcaico conflito ego x realidade, próprio da psicose.

Em Eva, por exemplo, o registro narcísico mantido após o complexo de Édipo retorna com a "realidade material" de um outro (do filho), que é rejeitado. Na psicose, há a perturbação do vínculo do ego com a realidade pela recusa em dar inscrição psíquica à realidade da diferença sexual. Em muito se parece com a defesa perversa...

Verleugnung: fragilidade original da construção da realidade da diferença sexual devido à recusa de dar inscrição psíquica a um dos seus elementos mais fundamentais.

Desinvestimento do inconsciente: as representações de coisa são "percebidas" (perceber=recordar). O modo particular de defesa da psicose extingue (desinveste) sucessivamente as representações de coisa que assinalam o ponto de inserção da realidade insuportável (complexo de castração?). "É uma espécie de sangramento do investimento próprio desse sistema através da brecha deixada pela ausência de inscrição psíquica de uma realidade concreta tão decisiva como a castração" (p. 239).

A confrontação com essa realidade só produz desagregação (ameaça de castração --> ameaça de aniquilamento).

"Esboço de psicanálise": dificuldade demarcatória entre psicose, neurose e perversão (verleugnung?)

Lacan: Verwerfung - forclusion ~ forma mais drástica de rejeição da representação intolerável (alucinaçaõ, Neuropsicoses de defesa); recusa da castração em Homem dos Lobos. O que é foracluído no simbólico (cuja inscrição psíquica é recusada) retorna no real.

Laplanche e Pontalis (vocabulário): termos que denotam uma recusa em tomar conhecimento de algum conteúdo que não é repressão.

Schreber: conteúdo psíquico cancelado (aufgehoben) dentro e que ressurge desde fora, por projeção.

Fetichismo: duas séries psíquicas paralelas (cisão do ego), numa das quais a falta do pênis feminino estaria reconhecida (ambiguidade). Na psicose, a série com a falta do pênis está ausente. A ausência de um esquema de regulação edípico deixa o sujeito psicótico perplexo diante do surgimento de obstáculo à realização do desejo (alucinação). Na falta das representações de coisa, desinvestidas pela defesa psicótica, à realização de desejo, sempre regressiva, não resta alternativa senão a via alucinatória.
(A interpretação dos sonhos: o desejo inconsciente é o impulso psíquico para reinvestir as representações de coisa na falta do objeto).

Presença de alucinações em quadros clínicos que não a psicose. Na histeria, a invervação conversiva do aparato sensorial (daí também nossa postura de não chamar essas pessoas de psicóticas, que dirá esquizofrênicas, não importa quanto tempo durem as alucinações). Na psicose, contudo, o desinvestimento no inconsciente ocorre em cadeia e esvazia o sistema de sua excitação própria, até a constituição do delírio. Na histérica, a formação do sintoma é simbólico, a representação está reprimida (O inconsciente).

Alucinação verbal: despersonalização.
"O sujeito não tem mais a impressão de coincidir com sua palavra própria. Eis aí o germe da ilusão da palavra estrangeira" (Merleau-Ponty, 1949, p. 58).

Winnicott: o que importa é proteger o verdadeiro self.

O delírio passa a ser um esforço pra recuperar os vínculos perdidos com a realidade (tentativa de cura, remendos psíquicos).

As representações de palavra (veículo para o delírio) perderam o vínculo associativo (afetivo) com as representações de coisa, os instrumentos de mediação e prova de realidade realizados pelo ego, aniquiladas pelo desinvestimento psicótico e, por isto mesmo, a palavra é tomada como coisa (e investida pela quota de afeto livre?)

A possibilidade de uso da linguagem compartilhada (consciente) depende da reanimação dos traços mnêmicos. O delírio é pensar com palavras investidas de libido narcísica (daí decorre que o paranoico ama seu delírio como a si mesmo, onipotência do sintoma)

Decisão na relação eu-outro
-As instâncias psíquicas são sedimentos dos investimentos objetais primários abandonados
objeto da pulsão (parcial) --> falta --> objeto do desejo
A nova ação psíquica que leva do autoerotismo ao narcisismo é o início da diferenciação entre ego e id. No narcisismo, ego=objeto.
Narcisismo secundário: retorno a um modo arcaico de relação objetal.
Privado das referências que assinalam o limite da subjetividade, o psicótico só pode perceber sua palavra como proveniente da realidade externa (alucinação auditiva: regressão tópica, formal e temporal)

O psicótico freudiano parece virado ao avesso (inconsciente a céu aberto).

"A história do conceito de psicose em Freud é toda - ou quase toda - uma pré-história (p. 248)".

Discussões sobre a diferença entre a noção de psicose na
psicanálise x psiquiatria
Não estamos falando da mesma coisa... Postura epistemológica na construção da classificação psiquiátrica, um manual diagnóstico "ateórico" é impossível.




sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Neurose e psicose - A formação da teoria freudiana das psicoses

Simanke, R. T. (2009). A formação da teoria freudiana das psicoses. São Paulo: Loyola.

Freud enfatiza a idéia de que é o fracasso da defesa, isto é, o malogro em obter o esquecimento desejado, que instaura o conflito patológico. (...) [No caso da conversão histérica], trata-se de debilitar a representação conflitiva (p.86)

A quantidade de excitação livre, oriunda do desinvestimento da representação conflitiva, pode encontrar, em princípio, qualquer destino em termos de inervação somática. Assim, uma inervação motora pode dar origem a paralisias ou neuralgias musculares; uma inervação da musculatura involuntária ou visceral pode causar os conhecidos sintomas de náuseas ou vômitos histéricos; a inervação do aparato sensorial, enfim, originaria as alucinações visuais, táteis, auditivas, cinestésicas etc., cujo conteúdo encontrar-se-ia relacionado com o conteúdo da representação excluída. É nestes termos que se coloca o problema das relações entre a alucinação e a conversão histérica. Contudo, às alucinações características da confusão alucinatória serão atribuídas uma natureza, uma função, uma origem, uma explicação, enfim, completamente diferentes daquelas atribuídas à alucinação resultante da conversão (p. 87)

Ora, existe uma modalidade defensiva muito mais enérgica e exitosa, que consiste em que o ego rejeite (verwirft) a representação insuportável, juntamente com seu afeto, e se comporte como se a representação nunca tivesse comparecido. Só que, no momento em que se conseguiu isto, a pessoa se encontra em uma psicose que não admite outra classificação que “confusão alucinatória” (Freud, 1984, p. 59 – Projeto)


Angústia – Assim como no Projeto... (...) não há neurônio sem Q, não há também afeto que não esteja ligado a um neurônio, exceto no caso da angústia, mas aí já fora da esfera representacional, pois se trata de excitação puramente somática manifestando-se diretamente como desprazer psíquico (p. 89) – Y?

Realidade – A realidade começa a ser tratada [nas primeiras formulações sobre a paranóia e a projeção], antes de tudo, como uma realidade representada para e pelo sujeito – o que coloca limites para uma interpretação excessivamente realista da posição freudiana (...) –, e as representações que a compõem têm, como todas as outras, seu acesso à consciência condicionado pelo interjogo das forças psíquicas. (...) [Freud] sugere que o grau da realidade percebida não é, afinal, superior ao das demais, e que a percepção é um fenômeno complexo, sujeito às leis do suceder psíquico, e não uma apreensão imediata do mundo (p. 90).
Apagamento da fronteira entre normal e patológico – Da mesma maneira que a ideia de realidade vai perdendo, para Freud, sua conotação “natural”, a questão dos limites ego/ mundo, interior/exterior assume, aos poucos, o aspecto de conquista da evolução psíquica do sujeito, que pode ser posta em risco a qualquer momento, em razão das vicissitudes deste mesmo psiquismo (p. 95)

Delírio – Nesse momento, o delírio já começa a assumir o caráter de um esforço empreendido pelo ego para manter ou recuperar sua unidade interna diante do retorno do reprimido (ou seja, de uma tentativa espontânea de cura, p. 99). Delírio de assimilação: o sujeito ama seu delírio como a si mesmo, só reconhece como próprio o que emerge no delírio.

A dúvida e a incerteza presentes na neurose se relacionam ao processo simbólico presente na formação do sintoma: o símbolo histérico, o objeto no qual o afeto da representação reprimida é investido, vem como uma nova representação que encobre e representa o reprimido. “Tal ambigüidade não existe no delírio: ele é uma tradução em representações de palavra do reprimido que retornou maciçamente na forma de signos perceptivos (p. 100)”

Lógica do inconsciente: não há não. Uma concepção da psicose como o tipo de afecção que se caracteriza por ser uma perturbação apenas do pensamento...
Sabendo que qualquer órgão é, potencialmente, uma zona erógena, o retraimento da libido para o ego pode erogeneizar qualquer órgão, na constituição de um delírio hipocondríaco.
[Em uma neurose narcísica], a libido liberada por frustração não fica aderida aos objetos na fantasia, mas sim se retira sobre o ego.


Caso Schreber: ou o sujeito é capaz de aceitar as moções pulsionais homossexuais e eclode a homossexualidade manifesta, ou se defende vigorosamente contra elas e, caso seja incapaz de restabelecer a repressão e/ou refazer as sublimações anteriores agora desfeitas, acaba por mergulhar no delírio paranoico (p. 156).

A projeção, ao menos no caso da paranoia, forma a contrapartida do desinvestimento dos objetos que
caracteriza as neuroses narcísicas: uma vez transposta para o exterior a fonte dos sentimentos condenáveis, a libido do sujeito fica livre para ser investida no ego.

A teoria delirante de Schreber constitui um magnífico exemplo do processo assimilativo: esforço para integrar no ego o reprimido que retorna maciçamente nas alucinações. Reprimido?? O cancelado dentro retorna desde fora: o delírio como tentativa espontânea de cura, de reorientação da libido aos investimentos objetais.

Esquizofrenia e paranoia
Diferentes polos inicial e terminal do processo defensivo, mantendo em comum o termo médio, que é a repressão propriamente dita, a qual, tanto num caso como no outro, se apoia na retração da libido objetal e no investimento regressivo do ego. (p, 162)

Na esquizofrenia, a tentativa de recuperação que se segue ao processo patogênico não se dá por projeção, como na paranoia, mas por um mecanismo alucinatório (histérico).

Ponto de fixação da esquizofrenia: retorno até o autoerotismo. Essa regressão de maior alcance, até um momento menos estruturado da atividade pulsional, responderá pela maior desagregação observada nos estados esquizofrênicos, ao contrário da impenetrável coerência dos sistemas delirantes na paranoia.

De alguma maneira a natureza oculta do inconsciente se faz evidente na esquizofrenia.

Vínculo com a histeria: a linguagem toma frequentemente uma referência a órgãos e inervações corporais – linguagem de órgão, o traço hipocondríaco do enunciado esquizofrênico. Causa e efeito estão atualizados no discurso, e a relação de simbolização se esvai. O modo privilegiado de registro que vigora no pré-consciente é também atingido pelo processo primário: as palavras passam a sofrer o mesmo processo dos sonhos, a deformação onírica. Tudo se passa como se o próprio inconsciente viesse à tona, submetendo a seu regime as representações de palavra do pré-consciente: falta a referência a um registro lógica, tópica e temporalmente anterior e diz-se que, na esquizofrenia, não há regressão tópica.

Retraimento da libido investida na representação de objeto, que é formada pela representação de coisa + representação de palavra – apenas o investimento da representação de coisa foi retirado para o ego: a representação de palavra do objeto permanece investida e é submetida ao processo primário, funcionando como representação de coisa.

O sistema Icc contém os investimentos de coisa dos objetos, que são os investimentos de objeto primeiros e genuínos; o sistema Prcc nasce quando esta representação de coisa é sobreinvestida pelo enlace com as representações de palavra que lhe correspondem (Freud, 1915).

Mas o inconsciente é mais do que representações de coisa reprimidas, ou impossibilitadas de investir em representações de palavra pré-conscientes. A esquizofrenia exige um processo além da repressão para poder ser entendida como “inconsciente a céu aberto”.

Na alucinação, o investimento inconsciente (da representação de coisa, característica do processo primário) se transpassa ao sistema percepção-consciência, sendo capaz de animar sua própria percepção sem a presença de um objeto externo. É a culminação do processo patológico da neurose narcísica, o maior estágio de retração dos investimentos objetais, resulta na fantasia de fim de mundo e o deliro, tentativa de explicação das alucinações, é o reinvestimento das representações de palavra pré-conscientes.


A tomada de consciência depende da reanimação alucinatória das representações de palavra. Desinvestido o próprio inconsciente, os registros mnêmicos e as imagens acústicas das palavras seriam metabolizados pelo processo primário na constituição de uma linguagem peculiar, particular. Sobre a terra arrasada pelo conflito defensivo, o sujeito reconstroi o mundo a partir dessas imagens e, nesse movimento, reconstroi sua esfera subjetiva.

A falta da referência às representações de coisa faz com que estas imagens verbais sejam tratadas como objetos, “como os investimentos de objetos primeiros e genuínos”, e disto resulta o caráter típico da linguagem esquizofrênica, que faz que a semelhança na expressão linguística substitua a semelhança da coisa designada na construção das formações delirantes (um buraco é um buraco).
Sem nada a não ser palavras para reconstruir o mundo, a equivalência verbal não poderá senão redundar em identidade de fato.

Perda da referência à motivação intrínseca do processo: na melancolia, não se sabe bem o que se perdeu (fixação na etapa narcísica).

Identificação: etapa prévia ao investimento objetal; é incorporando em si as características de um objeto privilegiado que o ego se constitui como unidade autônoma e diferenciada do não ego.

Identificação primária: o ego se identifica com tudo o que é prazeroso, mediante uma identificação narcísica.
Ego e objeto se constroem simultaneamente.

Hollós e Ferenczi: Zur Psychonalyse der paralytischen Geistesstörung (prevenção das psicoses).

Ego, um servidor de três amos: o mundo exterior, a libido do id e a severidade do superego.

Perda da realidade: cancelamento da percepção, perda da eficácia psíquica da percepção. "O ego cria para si um novo mundo exterior e interior, e há dois fatos indubitáveis: que este novo mundo se edifica no sentido das moções de desejo do id e que o motivo desta ruptura com o mundo externo foi uma grave frustração de um desejo por parte da realidade (Freud, 1924a)".

Fator etiológico comum para a neurose e psicose: frustração de um desejo. O efeito patogênico depende do modo como o ego age.
Ponto de vista econômico preponderante.
Qual será o mecanismo, análogo a uma repressão, por cuj0o intermédio o ego se desliga do mundo exterior? (idem)

Na psicose, a perda da realidade é primária, um mecanismo análogo à repressão neurótica (rejeição?) arranca o ego da realidade dentro de um processo silencioso (não pontuado por sintomas). A ruidosa proliferação sintomática da psicose decorre das tentativas empreendidas pelo ego de refazer seu contato com a realidade (esforços para retomar os vínculos perdidos com o objeto). Na medida em que a realidade interna se perde concomitantemente com a realidade externa, o processo patogênico da psicose coincidiria com a aniquilação completa da interioridade.

A pulsão de morte ensina à libido o caminho para os objetos.


A renegação assume valor de elemento diferenciador entre a neurose e a psicose, torna-se pré-condição da reconstrução do mundo efetuada pelo delírio. Nesse contexto, insere-se a alucinação, cuja função é fornecer percepções tais que correspondam à realidade a ser reconstruída. Diferentemente do neurótico, que se refugia na fantasia para uma satisfação simbólica, o psicótico quer impor seu reservatório de representações para satisfazer as formações de desejo. De acordo com Klein, a psicose é uma deficiência na capacidade de expressão simbólica. Também o mundo de fantasias é desinvestido na psicose, a fantasia psicótica tem que ser fabricada “do nada” com as imagens acústicas alucinatoriamente revividas, privadas de seu significado original. Mas não é possível criar um substituto plenamente satisfatório para a pulsão reprimida no id e nem a realidade é infinitamente plástica.

No início, havia o bom (prazeroso) e o mau (desprazeroso), o juízo de atribuição antecede o de existência. Decidir sobre a existência de alguma coisa é um interesse do ego-realidade, que se desenvolve como um modificação do ego-prazer (a existência de um objeto na realidade só pode ser alvo de uma crença e não de uma demonstração).

Exame de realidade: pressupõe a distinção entre dentro e fora, já que se trata de decidir se uma coisa existe somente como representação (internamente) ou se, além dessa presença interna, existe também exteriormente.

Negação: na psicose, a negação exige a anulação da afirmação inicial, que é o desinvestimento das representações de coisa. É o que Freud dá a entender ao falar do “gosto de negá-lo todo, o negativismo de muitos psicóticos” (Freud, 1925c).


[Em O ego e o id], Freud ratifica a concomitância da constituição do ego e do objeto total. No começo de tudo, ou seja, no momento mais originário possível, que corresponde à primitiva fase oral do desenvolvimento da libido, “é por completo impossível distinguir entre investimento de objeto e identificação” (Freud, 1923a, p. 31).

No narcisismo, há a integração dos objetos/ identificações parciais, na medida em que o ego se separa do id, a partir do acúmulo de experiências com as catexias parciais (pulsões parciais) nos objetos parciais. Assim,
“Quando o ego adquire os traços do objeto, por assim dizer, se impõe ele mesmo ao id como objeto de amor, busca reparar-lhe sua perda, dizendo-lhe: ‘Veja, podes amar a mim também, sou tão parecido com o objeto...’” (p. 32).

O corpo próprio, ou antes, sua superfície, é dotada dos elementos dos objetos parciais e pode ser tomado como objeto de amor. Similaridades com o “estágio do espelho”, de Lacan.

Complexo de Édipo composto: direto e invertido, bissexualidade constitucional. Herdeiro do complexo de Édipo, o superego (ideal de ego) é “expressão das mais potentes moções dos mais importantes destinos libidinais do id” (p. 37). Assim, “conflitos entre o ego e o ideal espelharão, refletirão, em última análise, a oposição entre o real e o psíquico, o mundo exterior e o mundo interior" (p. 38).

Fase fálica e castração: desde o início, o indivíduo experiencia frustrações as mais intensas, como o nascimento, o desmame e o depósito cotidiano das próprias fezes. Na medida, contudo, que seu corpo é dotado de integridade imaginária, no narcisismo, ele pode ser submetido a uma localização corporal da frustração, que, a partir de agora, pode ser entendida como restrição dos desejos. A fase fálica inaugura o complexo de castração.

A restrição do desejo dentro do complexo de castração atinge a dimensão da realidade corporal, sobre a fantasia narcísica. Na neurose, é em vista da preservação do narcisismo ameaçado pela castração que o sujeito aceita a renúncia pulsional edípica. Os investimentos de objeto são abandonados e substituídos por identificações - a autoridade do pai (severidade, proibição do incesto) é introjetada no ego e aí se forma o núcleo do superego, que reassegura o ego contra o retorno do investimento libidinoso de objeto e permite a sublimação (fase de latência).

Por que o psicótico falha em dar cabo desse processo?


quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Ensaio Rorschach, psicodiagnóstico e psicopatologia


Para o corpo de Berenice
Ou o coração Wall Street
Para o último tempo
Ou a primeira dose de tóxico
Para dentro de si
Ou para todos
Para dentro de si
Ou para todos
Pra sempre todos emigram.
(Alberto da Cunha Melo, 2001)


É frequente que, em face de uma dor ou grande angústia, nossa primeira tentativa de enfrentá-la aconteça numa visita ao médico. Acostumados como estamos com esta rotina, procuramos o doutor e tentamos relatar-lhe com o maior detalhamento possível tudo aquilo que consideramos sintomático, indicial, causal, enfim, importante. O doutor nos olhará por cima de suas grossas lentes, auscultará nosso coração e nos recomendará uma série de exames. Caso a dor esteja relacionada a um problema banal, podemos ter a sorte de sair do consultório com um diagnóstico e um receituário, em poucos minutos. Aliviados, buscamos então o farmacêutico e voltamos para casa com a sensação de que a angústia irá embora. Em grande parte dos casos, ela realmente se aplaca (ao menos em relação a este problema específico) e podemos continuar a tocar a vida. A gripe ou o pé quebrado nos incomodará ainda por um tempo, mas logo isto será superado. Talvez carregaremos uma cicatriz que servirá de lembrança para usarmos precauções e aprendemos com nossos erros. Somos mais fortes agora.

Em alguns momentos da vida, no entanto, a dor vivenciada é de outra sorte. Pode ser que a simples descrição de sintomas indiciais, desconfiança ou perda de apetite, não seja suficiente para que o doutor entenda e qualifique a angústia. O médico nos olha com espanto e, diante de nossa angústia, revisando os resultados de vários exames fisiológicos, nos diz: “você não tem nada”. A visita ao consultório muito pouco aplaca a angústia. Martins (2005) lembra que o paciente clínico, em sua formulação queixosa, reconhece explicitamente a importância de eventos encobertos, não somente encobertos pela pele ou pela camada de seus músculos, mas de algo ainda mais profundo. Ao dizer que o médico, os pais ou a sociedade não entendem o que ele sente, o indivíduo angustiado reclama a qualificação de fenômenos realmente invisíveis.
Nos manuais de psiquiatria, há o repetido enfoque no sintoma psíquico como perda de funcionamento, mal-estar, desadaptação. Ora, a adaptação é ligada à ideia de uma realidade empiricamente verificável. Se ao psiquiatra é possível dizer que, de fato, há uma realidade lá fora, a conclusão lógica é que o indivíduo deverá dispor de recursos cá dentro para adaptar-se a ela. Do ponto de vista das ciências naturais, no melhor viés positivista, a norma é obtida a partir de experimentações empíricas da natureza, é marca da regularidade dos fatos e fenômenos investigados. A ciência médica diz que dor no peito indica problemas cardiovasculares. Investigadas as causas e efeitos, por meio dos instrumentos adequados, se pode planejar a intervenção que trará alívio e saúde.

No entanto, quando a dor no peito é por conta de um coração partido, a metáfora corporificada não pode ser investigada pela instrumentação médica tradicional. É necessário ir além, pois a causa dessa dor é invisível.

A medicina tradicional, ciência natural por excelência, adota critérios de normalidade que, no mais das vezes, remetem dados normativos, estatísticos. A identificação de síndromes, por exemplo, é fundada na frequência estatisticamente relevante do aparecimento dos mesmos sintomas em condições semelhantes e em um número significativo de casos. Contudo, em medicina “mental”, a adoção de critérios estatísticos puros é enganosa. Isto porque a relevância estatística de um sintoma ou grupo de sintomas é um critério lógico para a descrição de normalidade ou adaptação. Estes critérios lógicos dirigem o pensamento do médico em na realização de um julgamento diagnóstico, terapêutico.

A norma para comportamentos e modos de vida, para emoções e formação de pensamento, todavia, não pode ser aplicada da mesma maneira que a norma para os compostos da estrutura óssea. Quando a queixa está relacionada a fenômenos internos, invisíveis, a aplicação puramente lógica da norma implica o caráter ideológico e narcísico de quem fará o julgamento. Martins (2005) salienta que este fazer “é também largamente conhecido como um critério autoritário e narcísico. Julgar o outro a partir de si mesmo não deixa de ser uma insistente projeção de si mesmo sobre os outros” (p. 104). A norma aproxima-se da lei e adquire uma conotação moral facilmente detectável.

A medicina tradicional ainda olha para o louco com estupefato. Seu sintoma, sua angústia, indica um oposicionismo que afronta a realidade tal como o cientista positivista a concebe: como uma realidade dada, comum e compartilhada. Aquele que se opõe a ela o faz por perceber uma realidade social injusta e a necessária alteração de seus ditames. Ele precisará, no entanto, da proteção do manto da história para se tornar um grande homem. Os santos maiores são comumente denominados os “loucos de Deus”, em uma radicalidade transformadora. Contudo, esses “loucos” não vivenciam, necessariamente, desintegração ou perda de funcionamento. São, sim, desadaptados e podem vivenciar muito mal-estar. No entanto, não estão doentes, por mais não-normais pareçam ser.

Algo semelhante ocorre com pessoas em crise. Ao procurar pela primeira vez o consultório do médico, foram mobilizadas por um forte estranhamento, a sensação avassaladora que, de fato, há algo errado. Estando algo errado, estranho demais, lhes advém a angústia como o impulso em face da urgente necessidade de mudança. De fato, a radicalidade e a extrema dor que comumente acompanham os estados de crise não são fáceis de entender. Ao ouvir o discurso estranho da pessoa em crise, “surtada”, a família, o médico e o seio social mais imediato realmente “não sabem” como ela se sente. O reducionismo costumeiro faz com que seu sofrimento seja identificado como uma doença. Há algo errado dentro do sujeito que sofre. O uso indiscriminado de medicação psiquiátrica pode estar associado à necessidade de embotar grande parte da vivência afetiva na crise. Este procedimento responde a uma dupla justificativa: a hipótese de organicidade da “doença mental” em vias de se instalar e a necessidade de controle de comportamentos potencialmente danosos para o sujeito e para seu meio.

O paciente que “não sabe (será?), mas sente” e o médico que “não sente, mas (em tese) sabe”.

A tentativa feita pela psiquiatria é de descrever e compreender o fenômeno psíquico a partir do mesmo olhar da medicina somática. A esperança é de que, quando os avanços tecnológicos o permitirem, a descrição sintomatológica das síndromes “mentais” encontrará sua etiologia fisiológica, numa determinante finalmente neuroanatômica. A “alma” estará localizada em sua morada final: o sistema nervoso.

Numa reflexão epistemológica, Gaston Bachelard questiona o conhecimento do real pelo cientista moderno (1978). Se o conhecimento do real, pelo psiquiatra moderno, toma a dupla rubrica do pitoresco e do compreensível no louco, o sentido epistemológico psiquiátrico vai do racional ao real e a aplicação de seu método científico é essencialmente realizante.  Falar de um quadro nosológico em um instante da experiência humana é entregar-se à escolha de um estado, entre uma infinidade de outras escolhas aparentemente arbitrárias. Se o paciente não responde, se ele se cala, o psiquiatra poderá conhecer que ele não fala e reconhecer que ele entrou em carreira psicótica. “Mas reconhecer não é conhecer. Facilmente se reconhece o que não se conhece” (Bachelard, 1978, p. 145).

As escolhas do psiquiatra são aparentemente arbitrárias. Aparentemente, porque o cientista psiquiátrico há de escolher as variáveis segundo critérios ancorados em sua prática. Interesses políticos, econômicos e sociais estão envolvidos na própria “escolha” do positivismo como referencial de ciência. As variáveis são hierarquizadas segundo sua possibilidade de controle, sua previsibilidade e em que medida os resultados podem ser replicados. Um cientista normal, fora de uma crise ou revolução epistemológica, não é crítico do paradigma em que trabalha (Chalmers, 1993).  Ele faz uso de categorias, classificações nosográficas, que não necessariamente existem. De fato, elas foram tornadas reais pela aplicação do raciocínio científico e pelo reconhecimento da psiquiatria.

Michel Foucault (1975, 1978) questiona o posicionamento da psiquiatria tradicional. Ele argumenta que os modernos perderam o contato puro com a loucura. Esta aparece como um monólogo da razão, por mais que as duas tenham origem ontológica diferente. A experiência da loucura, ao contrário, se relaciona a partir da determinação social. Em sua investigação sobre a transformação histórica do trato e da experiência da loucura, da excentricidade ao silenciamento, Foucault pontua que a loucura se torna o contraponto da razão, se torna desrazão. Com a psiquiatria, se a loucura é doença, a razão é saúde. O anormal preenche os critérios da psiquiatria, os quais são classificações construídas no seio social. Para os modernos, o discurso do louco é uma alteridade radical e inacessível, a qual somente tem como referência de acesso a classificação científica.

Para ele (1975), o manual diagnóstico dos transtornos mentais tenta, com grande esforço, aplicar os mesmos conhecimentos da medicina somática ao que se entendeu por doença mental. A psiquiatria estabelece um paralelismo abstrato entre as duas formas de adoecimento, mental e físico. Neste processo, se perde a noção que este paralelo, esta simetria entre o somático e o psíquico, entre o corpo e a mente, é uma metáfora. O psiquiatra tradicional toma a metáfora da “doença mental” na literalidade, a partir da perspectiva científica positivista, que fundou a medicina moderna. Comparará os sintomas de seu paciente à norma, poderá prescrever a seu paciente o receituário dos psicotrópicos, mas ainda não qualificará seus eventos internos. Mas este trabalho reducionista não abarcará a complexidade da loucura, uma vez que a psicologia da personalidade não ofereceu à psiquiatria a mesma contribuição que a fisiologia forneceu para a medicina somática.

Thomas Szasz (1960, 1979) critica a “verdade mentirosa” (lying truth) da psiquiatria. Para ele, a história da psiquiatria é perpassada por construtos falaciosos e o principal deles é o próprio termo doença mental. Ele aponta a confusão epistemológica presente no dualismo simétrico entre sintomas mental e físico na metaforização do cuidado médico ao sofrimento psíquico. A noção de sintoma mental é intrinsecamente relacionada ao contexto social em que ele é fabricado, dado que rotular a fala de uma pessoa como um sintoma mental envolve a atribuição do julgamento do médico, a comparação entre as ideias e crenças do referido “paciente” e as do observador, ambos inseridos em uma cultura e numa história.

O que o psiquiatra considera como doença mental são comunicações, expressão de ideias quiçá inaceitáveis, organizadas em uma fala não usual, incomum. A categorização psiquiátrica refere a eventos privados, sociopsicológicos, a respeito dos quais o observador (quem faz o diagnóstico) também forma compromisso. Neste sentido, Szasz aponta para a especificidade ética necessária na reflexão da psiquiatria sobre suas próprias práticas, particularmente quando é envolvida a dimensão coercitiva.

A partir das classificações sindrômicas dos comportamentos, a psiquiatria tradicional não faz senão aumentar o fosso social existente entre normais e anormais, quando a única diferença entre eles é a convencionalidade das metáforas utilizadas em sociedade. Este raciocínio tautológico (é doido porque age feito doido) torna difícil a distinção de etiologia e semiologia. Cada sutileza no comportamento do paciente ganha um novo título, uma taxonomia sígnica que aparentemente refere à realidade, julgada no saber médico da época e a partir de ordens políticas imperantes as mais diversas. A palavra passa pela assepsia da semiologia clínica, a desconfiança e a angústia viram sintomas possivelmente neuronais e a prática coercitiva da psiquiatria demove o ser humano diferente, não-normativo, de sua linguagem e humanidade.

Ileno Costa (2003) argumenta, com Szasz, que a perspectiva médica atrela a loucura a um absurdo lógico, pertencente tão somente ao indivíduo doente e que demanda uma resposta da sociedade. Ao isolar a doença mental, o psiquiatra não identificou apenas mais um tipo de doença, mas justificou a prática estabelecida de confinar loucos mediante a hospitalização compulsória. Uma vez reconhecida a doença, a institucionalização deve ser decidida. Por óbvio, esta decisão não cabe ao sujeito “doente mental”. O reconhecimento da doença, desde o início, foi um ato coercitivo.

Em Psicopathologia I – Prolegômenos (2005), Francisco Martins reabre o estudo da psicopatologia, em uma problematização que foi esquecida e empobrecida por soluções tranquilizadoras, comuns à modernidade, quando a avidez se direciona à posse de princípios que afastem a dúvida e o desespero. Sua obra busca tudo aquilo que tem facticidade como elemento essencial da psicopatologia. O autor qualifica o pathos, com Heidegger, como manifestação de uma realidade existencial, “um modo de ser momentâneo, duradouro ou permanente, carregado de subjetividade e capaz de comunicação intersubjetiva” (p. 37). De fato, ao traduzir pathos como disposição afetiva fundamental, a psicopathologia permite a consideração da loucura como um destino possível da experiência humana. O pathos carrega, ao mesmo tempo, a possibilidade de perda de harmonia e as formas mais sublimadas da existência.

Costa (2010a) salienta que o sofrimento psíquico, alvo da classificação psiquiátrica, é experiência de angústia, sempre presente na vivência humana. Este autor refere à ambiguidade e aos vários sentidos presentes nas manifestações do que é o sofrimento psíquico, que perpassam valores culturais, compreensões filosóficas e éticas do que é próprio do ser humano. Para ele, o discurso médico deve passar pela crítica de sua visão do que é signo sintomatológico. A palavra louca, diferente da febre, é portadora de sentido afetivo e comunica, associa interlocutores. Sempre presente nas construções e relações humanas, a desorganização de natureza páthica não é necessariamente negativa ou paralisante. Chico Science, poeta e compositor pernambucano, o refere de maneira contundente ao afirmar “que eu desorganizando, posso me organizar/ que eu me organizando, posso desorganizar” (1994).

Hermann Rorschach, em seu experimento de interpretação de formas fortuitas (1921/1967), elaborou os princípios de uma técnica de psicodiagnóstico que ia além da anamnese sintomática e o agrupamento sindrômico. Ao apresentar as manchas de tinta aos pacientes, ele pôde acessar um funcionamento interno que, de alguma maneira, estava relacionado aos sintomas apresentados. O obsessivo, com suas ideias fixas e seus rituais rígidos, apresentava muitas cinestesias e poucas cores, em um estilo de vivência introversivo, dominado pelo pensamento e desajeitado para as relações interpessoais. A prova das manchas de tinta não indica “o que ele experimenta, mas como ele experimenta. Internamente conhecemos grande parte das qualidades e das disposições, tanto de natureza associativa como afetiva ou ainda de natureza mista, com as quais o examinado se mantém na vida” (p. 90, grifos do autor). Mais ainda, Rorschach, a partir de seu experimento e, certamente também da influência da psicanálise, entende que “somente o impulso transforma os ‘momentos’ disposicionais em tendências ativas” (p. 91).

Ao longo de seu texto, todas as vezes que ambicionou descrever quais seriam as características normais ou ideais de um indivíduo, descobria a impossibilidade de uma recomendação geral. Questões culturais, étnicas, raciais, relacionadas à profissão e constituição social do indivíduo, demandariam ajustes. O que é problemático para uns muitas vezes possibilitava a qualidade específica de uma pessoa. Assim, uma pessoa normal idealizada seria alguém “coartado”, ou seja, desprovido dos recursos de enfrentamento facilmente evocados por obsessivos, histéricos ou psicóticos e, ainda assim, profundamente afetada pelo sofrimento.
Segundo John Exner (2003), o Rorschach dá maior ênfase à personalidade do indivíduo, em vez de sistematizar os comportamentos. Este tipo de informações vai além do enfoque sindrômico na sintomatologia e etiologia. É fornecido um recorte atual das condições psíquicas e relacionais do indivíduo e fundamenta o psicodiagnóstico profundo e complexo, consistente com a visão da psicopatologia crítica. Além disto, a própria natureza do método leva a pessoa a interpretar a mancha a partir de seu próprio arcabouço de recursos e demandas. Assim, ela é levada a uma situação de resolução de problemas ambíguos, dos mais simples aos mais complexos, sempre ligado à sua própria integridade pessoal, a sua história pessoal e a seu padrão de relacionamentos (Yazigi & Gazire, 2002).

O psicólogo dispõe de ferramentas várias, para além das utilizadas pela psiquiatria tradicional. Dentre elas, as técnicas projetivas, como o método de Rorschach, podem auxiliar na construção de um psicodiagnóstico que seja da especificidade do psicólogo. Tais instrumentos permitem que os eventos invisíveis sejam qualificados. Esta qualificação orienta o olhar do clínico para algo além dos comportamentos, para além da superfície. Mesmo sem oferecer grandes garantias, as contribuições da psicanálise permitem ao psicólogo considerar a causalidade psíquica como uma possibilidade da loucura. E que a loucura também é busca de saúde. O paranoico não deseja, em sua queixa, se livrar da desconfiança que ele tem do perseguidor. A desconfiança é o que o protege, garante minimamente sua vida. Ele quer é se ver livre do perseguidor. Para se tornar um “tu” verdadeiro, interlocutor do sintoma, da personalidade, do discurso, do ser louco, o psicólogo há de não mais se unir a “eles”. Ele deve virar algo parecido com o “eu” louco: um humano, afinal.



REFERÊNCIAS

Bachelard, G. (1978). A filosofia do não; O novo espírito científico; A poética do espaço. São Paulo: Abril Cultural.
Chalmers, A. F. (1993). O que é ciência afinal? São Paulo: Brasiliense.
Chico Science e Nação Zumbi (1994). Da Lama ao Caos. São Paulo: Chaos/ Sony Music.
Costa, I. I. (2003). Da Fala ao Sofrimento Psíquico Grave: Ensaios acerca da Linguagem Ordinária e a Clínica Familiar da Esquizofrenia. Brasília: ABRAFIPP.
_________. (2010a). Crises psíquicas “do tipo psicótico”: distanciando e diferenciando sofrimento psíquico grave de “psicose”. In: Costa, I. I. (Org.). Da Psicose aos Sofrimentos Psíquicos Graves: Caminhos para uma Abordagem Complexa (pp. 57-63). Brasília: Kako Editora.
Exner, J. E. (2003). The Rorschach: A Comprehensive System. Hoboken, HJ: John Wiley & Sons.
Foucault, M. (1975). Doença mental e psicologia. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro.
__________. (1978). História da loucura. São Paulo: Perspectiva.
Martins, F. (2005). Psicopathologia I – Prolegômenos. Belo Horizonte: PUC Minas.
Melo, A. C. (2001). Canto dos Emigrantes. In: Pinto, J. N. (Org.) (2001). Os Cem Maiores Poetas Brasileiros do Século. São Paulo: Editorial.
Rorschach, H. (1921/1967). Psicodiagnóstico. São Paulo: Mestre Jou.
Szasz, T. (1960). The myth of mental illness. The American Psychologist, 15, 113–118.
______. (1979). The lying truths of psychiatry. Journal of Libertarian Studies, 3(2), 121-139.
Yazigi, L. & Gazire, P. (2002). Avaliação cognitiva e Rorschach. Psico-USP, 7(1), 109-112.

Psicodiagnóstico e Psicopatia na Contemporaneidade


A reforma psiquiátrica ainda não chegou aos presídios. Ali a força parece ser outra. Ali os “loucos” são descritos como criminosos perigosos e irrecuperáveis e não simplesmente uns coitados doentes que se encaminham à demência, que nada sabem e nada podem. Ao contrário, o psicodiagnóstico inclui características notadamente lúcidas, deliberadas e longe da descrição de um incapaz ou alienado, como o esquizofrênico é frequentemente descrito. O psicopata, ao contrário, potencialmente tudo sabe e tudo pode.

Respostas mágicas, prontas, finais, inabaláveis e absolutas parecem mais reações ao medo do que construções científicas. O século XXI, ainda no início, já possui em si o vislumbre de que a modernidade não atingirá seu objetivo dourado: alcançar a verdade final sobre a natureza e sobre o ser humano. Ao contrário, um pensamento mais radical pode afirmar que jamais sequer fomos modernos (Latour, 1994) e que o pós, anti ou neomodernismo, a contemporaneidade, deverá sempre se confrontar com o seu limite mais assustador: não há garantias.

Grande é a transformação da filosofia da ciência, da psicologia e da psiquiatria em decorrência dos últimos desenvolvimentos filosóficos, políticos e sociais. A fenomenologia, a declaração dos direitos humanos, a epistemologia da subjetividade, a reforma psiquiátrica, tudo se encaminhou para a denúncia dos saberes como consolidadores de discursos e práticas excludentes, violentas. A antipsiquiatria apontou os problemas da metateoria biológica, reducionista e determinista que fundamentava a nosografia clássica. Teorias recentes denunciaram o paralelo absurdo desenvolvido entre sintoma mental e físico e também pôs em evidência a necessidade de considerar o ser humano como um inteiro, integrado, determinando e determinante de seu meio, seus micro e macrossistemas. É estranho ver como a mesma ciência, a psiquiatria, parece ter tido tão poucas transformações no contexto da criminologia, local onde produziu tantos saberes que subsidiam tantas práticas. Na interseção entre os saberes médico-psiquiátricos e jurídicos, a reforma psiquiátrica parece não ter chegado.

A psicologia, ciência moderna, defrontou-se com sua contradição básica: aplicar ao ser humano os critérios e postulados utilizados nas ciências naturais, ao mesmo tempo em que, moderna, declara o homem e a natureza coisas essencialmente distintas.
A ideia de uma precisão objetiva e quase matemática no domínio das ciências humanas não é mais conveniente se o próprio homem não é mais da ordem da natureza. Portanto, é a uma renovação total que a psicologia obrigou a si própria no curso de sua história; ao descobrir um novo status do homem, ela se impôs, como ciência, um novo estilo (Foucault apud Yamada, 2009).
O nascimento da criminologia como o estudo sobre o autor do crime trouxe a psicopatologia para a criminologia. O crime seria um "fenômeno como um dado ontológico preconstituído à reação social e ao direito penal" (ibid., p.37).

O interesse na metateoria positivista e na teoria biológica do comportamento constitui a psicopatologia como a ciênica que valida o discurso sobre o criminoso e as práticas adotadas sobre ele. Há, com o nascimento da escola degeneracionista da psiquiatria, a combinação entre norma e repressão: mais do que explicar o que é o criminoso, a psicopatologia legitima o que a justiça faz com ele.

Mais do que uma violação à lei, o crime passa a ser a manifestação da personalidade do criminoso. O criminoso é enlouquecido como uma forma de poder violenta sobre ele.

Um psicopata assim diagnosticado pode ser identificado como "um inimigo irremediável para as pessoas e a separação permanente da comunidade pela via da prisão parece ser a única alternativa prudente" (Morana et al apud Yamada, 2009). É escandalosa a comparação possível com a hospitalização prolongada do esquizofrênico, à exceção de que, com os psicopatas, não há sequer a promessa não cumprida de tratamento psi.

Demanda de mudanças no processo de psicodiagnóstico: retomada de critérios psicométricos seguros, viabilidade científica definitiva do conceito e identificação da psicopatia. A qual tipo de relações de poder o desenvolvimento deste saber está vinculado?
Para Latour não há divisão entre ciência de um lado e política do outro. Os ‘achados’ científicos e a qualidade da referência de uma ciência vêm da sua capacidade de atrair interlocutores, da habilidade de interessar e convencer os outros (ibid., p. 48).
Ao contrário dos hospícios, no entanto, as prisões respondem de maneira reacionária contra os ideais da reforma psiquiátrica. A ciência como ferramenta de verdade indubitável pode ser politicamente importante na área da saúde mental. Parece-me que se trata antes da manutenção ou renovação de ideais modernos que estavam aí desde o final do século XIX, apenas aguardando pela aparelhagem técnica adequada. A modernidade trouxe esperanças finais de controle, clareza e descrição de leis gerais, universais. Seja lá o que as ressonâncias magnéticas digam, quem lê é o mesmo cientista moderno cheio de jargões incompreensíveis, na construção de um saber que responde na relação de poder e nas demandas políticas da sociedade. É o mesmo cientista que, mais do que saber sua ciência, deve saber "vender" sua ciência. O sistema jurídico-criminal e penal parece estar mais interessado em comprar a ciência que forneça garantias a suas práticas. É a manutenção da hegemonia, o silenciamento dos excluídos e a política do medo, todas juntas, contra uma população numérica e empaticamente minoritária: os criminosos. A relação da justiça com o criminoso é de um poder violento e soberano, que implica à ciência um papel fundamental de onisciência e onipotência. Ao criminoso é dada a inversão da frase bíblica: se Deus é contra vós, quem será por vós?

A partir da metade do século XVIII emerge uma série de controles regulares que incidirão também no corpo, por meio de intervenções com base nos processos biológicos no nível da saúde e da duração da vida - uma biopolítica da população. (...) Algumas formas de controle e mecanismos de normalização operam através da figura do criminoso e do desviante e se inserem na noção de biopoder proposta por Foucault e seus dois braços: medicalização e judicialização (ibid., p. 48).

Os homicidas encarcerados são amostra da população de homicidas. Ao investigar e descrever os assassinos presidiários, ou seja, aqueles criminosos que tiveram julgamento e pena por seu crime, se descreve como funcionam as pessoas que foram "pegas", ou seja, que foram denunciadas, julgadas e punidas. Como estipular leis gerais de funcionamento sobre o "psicopata" com dados de uma amostra tão ínfima da população?

O conceito de psicopata é formulado à maneira das ciências naturais em conjunção com bases morais óbvias, o próprio conceito "testilha com a realidade do mundo fenomênico" (Thompson apud Yamada, 2009, p. 48). É impossível conceituar o crime como fenômeno natural. Este é um fenômeno irredutível a operações de descrição, medição, classificação e experimentação. Mas o criminoso, sim, o é, através da psicologia positivista.
No mais lato sentido, pode-se afirmar que todos os crimes são crimes políticos, uma vez que todas as proibições com sanções penais representam a defesa de um dado sistema de valores, ou de moral, no qual o poder social prevalente acredita (Schaver apud Yamada, 2009, p. 50).


Referências
Latour, B. (1994). Jamais Fomos Modernos: Ensaio de Antropologia Simétrica. Rio de Janeiro: 34 Literatura.
Rauter, C. (2003). Criminologia e Subjetividade no Brasil. Rio de Janeiro: Revan.
Yamada, L. T. (2009). O horror e o grotesco na psicologia - a avaliação da psicopatia através da escala Hare PCL-R (Psychopathy Checklist Revised). Dissertação (Mestrado) - Universidade Federal Fluminense, Instituto de Ciências Humanas e Filosofia, Departamento de Psicologia.

sábado, 8 de outubro de 2011

Psiquiatria e psicose - Francisco Martins (2003)

Martins (2003) elabora uma investigação teórico clínica das síndromes psicopatológicas clássicas, a partir de uma crítica à psiquiatria tradicional e a visão médica reducionista. Em suas considerações sobre o que denominou de "as síndromes delirantes, alucinatórias e de desagregação do pensamento", perfaz breve histórico da forma como a psiquiatria, ou o saber médico, conceituou a psicose. O autor compara o reconhecimento do caráter simbólico atribuído às síndromes neuróticas com o trato diferenciado dado às psicoses. Diferentemente da histeria, da neurose obsessiva, dentre outras síndromes neuróticas, as psicoses foram tratadas, no âmbito médico, como síndromes demenciais. O termo demência precoce se referia às manifestações sintomatolígicas do que ficou conhecido como perda de contato com a realidade. A sintomatologia clássica das psicoses concerne à esfera do pensar, da linguagem, organizada a partir de dois fenômenos principais: a alucinação e o delírio, acompanhados de outros sintomas também ligados ao pensar e à linguagem.
Distinguem-se grandes síndromes em que a categorização se multiplica em inúmeros subtipos ao longo da história da psiquiatria. A grande diversidade em que se apresentam os sintomas e outras manifestações de distanciamento da realidade, estranhamento característico da psicose, reflete a complexidade envolvida no sofrimento psíquico. A tentativa feita pela psiquiatria é de descrever e compreender o fenômeno ps´quico a partir do mesmo olhar da medicina tradicional, anatomo-fisiológica. A esperança final é de que, quando os avanços tecnológicos o permitirem, a descrição sintomatológica das síndromes mentais encontre sua etiologia neuroanatômica determinante. Assim, procedimentos fisiológicos foram tomados para classificar e cuidar da loucura enquanto se espera as explicações neuroanatômicas redentoras.
A estranheza da linguagem psicótica seria, então expressão do acometimento mental (leia-se neuronal, cerebral) não determinado que acomete o paciente. A psiquiatria poderia teorizar a respeito de qual é a deterioração mental da psicose, por analogia aos processos demenciais. A cronificação e degeneração psíquica são marcas da consideração que a psiquiatria tem pela psicose e o processo classificatório "não fez senão aumentar o fosso existente entre os normais - os que utilizam as metáforas mais habituais, como diria Nietzsche - e os loucos que desviam através da excentricidade da norma" (p. 244). Este raciocínio tautológico torna siamesas a etiologia e a semiologia. O autor segue:
"Cada alteração ganha um novo nome, ou mais frequentemente um novo neologismo científico, que se torna signo da realidade aparente, julgada na ordem do saber médico da época, como fazendo parte de um quadro nosográfico específico. As palavras são, então, esvaziadas de sei poder imaginário, simbólico e pragmático" (p. 244).
A assepsia do discurso da loucura, realizada pela prática coercitiva da psiquiatria, demove o ser humano não-normativo de sua humanidade. A palavra louca, no entanto, é portadora de sentido e comunica, associa interlocutores. A medicina, no seu afã de sair do "infinito de signos interlocutivos e banais", na busca por signos patognomônicos nas doenças mentais", perde de vista que a saúde mental não se trata de órgãos silenciosos, nem promove a escuta do significado desenvolvido na enunciação do sintoma-palavra.

Martins, F. (2003). Psicopathologia II: Semiologia Clínica. Brasília: UnB/ABRAFIPP.

sábado, 1 de outubro de 2011

Considerações sobre o narcisismo e a psicose

O psicótico apresenta um padrão de escolha (relação) objetal narcísica. O outro é sustentáculo para o eu, pode ser seu ideal e portar as características com as quais o ego se identificará na medida em que puder investir libido no objeto identificatório idealizado. A perda do objeto na relação objetal narcísica significa a perda do sustentáculo do ego e pode trazer mais do que angústia de abandono ou de perda do objeto. Nestes casos, a perda do objeto significa angústia de aniquilamento do ego, o eu perde a si mesmo quando perde o objeto de identificação narcísica.

Metamorfose de narciso, Salvador Dali - ampliar 

Lembro do paciente que acolhi ontem, falando o tanto que a perda da mãe dele significava para ele a perda de si próprio. Esta perda é elaborada de diferentes formas, mas principalmente pela sensação de perda de controle, de ter feito um mal irreparável, de estar sob o controle perverso do outro, de ser diversas pessoas nos momentos em que ele não tem certeza de quem ele é. Está no meio de um ritual mágico, permeado por aspectos crueis e retaliadores, responsivos à ambivalência presente no investimento amoroso feito no objeto de identificação narcísica. O uso de drogas e a sensação de onipotência primitiva que perpassa os processos sublimatórios somente pode ocorrer mediante a sustentação do eu que  a relação objetal narcísica proporciona. Perder o sustentáculo oferecido pelo objeto narcísico impossibilita a expressão mais livre, já que o investimento libidinal não tem mais o objeto e o eu sobre o risco constante de aniquilamento. Toda a energia psíquica parece concentrada na busca por este objeto perdido, que é a busca do eu.

A estrutura da personalidade é contexto para o desenvolvimento psicopatológico. O uso de defesas psicóticas (narcísicas, na concepção freudiana) depende do tipo de relação objetal estabelecida e do tipo de angústia vivenciada no momento da perda do objeto. Esta escolha objetal pode ser predominante ou ocorrer somente no processo identificatório primitivo. Uma pessoa com sintomas psicóticos pode ser capaz de estabelecer relações objetais de apoio, de formular angústia de perda de objeto e de ter sintomas (defesas) neuróticos (de transferência). Uma psicose "instalada" é "a adaptação do ego à vivência psicótica em si (...), a expressão do funcionamento mental que passou por uma experiência de desorganização [do eu]" (Tenenbaum, 1999, p. 26).

A tela de Dali parece ilustrar as psiconeuroses narcísicas. Na melancolia, à esquerda, o investimento libidinal no outro é impossibilitado pela perda deste, e há reinvestimento da libido objetal no ego, pois "a sobra do objeto cai sobre o eu".
Na psicose, à direita, o outro é sustentáculo do eu, a elaboração do ego toma a metáfora na literalidade. A perda do outro, da relação objetal, cria uma angústia de aniquilamento, que impulsiona a geração de mecanismos de defesa primitivos, alucinações e delírios. Na realidade do psicótico, o objeto narcísico ainda existe com toda sua força e onipotência, retomado de forma distorcida possibilitada pelo Processo Primário de Pensar, a qual permite a força e onipotência do eu. Afinal, delirando eu sou "O GOSTOSO do universo" (Martins, 2004). "A potência do ato ilocucionário alcança sua performance máxima" (Martins, 2009, p. 86).


Referências


MARTINS, F. (2004). Os Psicopathos I - A Alucinação. Brasília: Laboratório de Psicopatologia e
Psicanálise, Universidade de Brasilia.
___________. (2009). Ensaio sobre os sintomas simbólicos – Da cabrita desvalida ao Senhor do Mundo. Brasília: Edunb-FINATEC.
TENENBAUM, D. (1999). Investigando psicanaliticamente as psicoses. Rio de Janeiro: Sette Letras.


sábado, 10 de setembro de 2011

O que é psicose?

Há pessoas em sofrimento psíquico grave, com risco de crises graves de estranhamento de si e do mundo, que as predispõem a cornificação de sintomas de difícil manejo – mas não consigo enquadrar estas pessoas numa visão psiquiátrica tradicional, que não dá conta de descrevê-las na sua perspectiva sindrômica (pois ainda acreditam no mito da doença mental).
Me proponho a descrevê-las de uma maneira diferente da sindrômica-sintomatológica, por entender que as categorias diagnósticas tradicionais são insuficientes e se falem de conceitos cientificamente inviáveis (como a esquizofrenia).
(Claro que a psicanálise é uma possibilidade, dado que compreende a psicopatologia dentro de uma teoria de personalidade – algo evolucionista, ainda, mas com perspectivas bem mais relacionais e afetivas na construção da personalidade, com multicausalidade tão complexa quanto as potencialidades humanas)
Psicanálise, avaliação psicodiagnóstica da personalidade, psicopatologia na psicose. Porque não esquizofrenia (e ainda não sofrimento psíquico grave). Porque não outros sofrimentos psíquicos graves que não envolvem estranhamento DO TIPO PSICÓTICO (como depressão, neurose obsessiva-compulsiva, transtornos alimentares ou perversos).
Há algo de específico em umas pessoas muito estranhas, muito pouco convencionais, com processos perceptuais, de processamento, cognitivos, afetivos e interativos muito diferentes e de difícil comunicação. Suas produções podem não encontrar nicho na cultura e represálias por conta do distanciamento de suas comunicações podem trazer sentimentos de inferioridade, incapacidade, estranhamento. Estas pessoas tendem ao isolamento, quiçá por não se sentirem capazes de integrar-se ao meio ou contribuir de maneira mais convencional, e ansiedades quanto ao meio e a si próprios podem ser potencialmente desorganizadoras e trazer confusão a suas percepções. São comuns dificuldades nas habilidades sociais, no processo perceptivo e demandas afetivas podem não encontrar objetos suficientes para sua expressão, modulação e controle. Podem estar presentes manifestações de embotamento afetivo, e distanciamento entre o âmbito afetivo e o relacional. O investimento e elaboração de sentimentos e emoções pode se processar de maneira muito diferente do comum, em área distante da realidade interpessoal. Pessoas ao redor podem não ser capazes de perceber os sinais mais usuais de envolvimento afetivo e julgar estas pessoas como embotadas, desinteressadas socialmente, retraídas e bizarras. Ao considerar o desenvolvimento destas pessoas, manifestações cada vez mais estranhas da angústia fundamental do ser humano são possíveis. Alucinações se referem a percepções sem estímulos externos, completamente motivadas por demandas internas que não encontraram outro meio de expressão ou elaboração. Delírios são formações de julgamento sobre as percepções fundamentadas em lógicas e premissas incorretas, também fundamentados em demandas internas elaboradas de maneira bizarra para a intersubjetividade. A psicanálise entende alucinações e delírios como resultados de mecanismos de defesa muito primitivos, característicos de pessoas que não tiveram oportunidades interativas suficientemente adequadas para desenvolver recursos de defesa contra conflito mais sofisticados. Em alguns indivíduos, a indisponibilidade de um ambiente suficientemente bom em etapas muito precoces do desenvolvimento pode levar a desconfiança na realidade do ambiente – e de si próprio. Assim, o indivíduo se fia mais prioritariamente em elaborações internas, conclusões feitas a partir de suas percepções sem grande teste na intersubjetividade. Estas podem iniciar de maneira não tão distorcida, mas na medida em que as demandas ansiosas internas aumentam, e buscam expressão no meio externo, pode ser estruturada uma realidade outra, em que é possível investir afetos, elaborar pensamentos e crenças confiáveis, protegidos das ameaças externas desestruturantes.
Estes são os psicóticos.

Kaplan e Sadock

KAPLAN, H. I. & SADOCK, B. J. (1984). Compêndio de Psiquiatria Dinâmica. 3ª edição. Porto Alegre: Artes Médicas. (Trabalho original publicado em 1981).

Considerações sobre cognição, testes projetivos e pensando sempre nos psicóticos.

Percepção
"Uma experiência que predispõe um individuo a certos tipos de percepção denomina-se um conjunto. Quanto mais ambíguo for o estímulo, tanto mais sua percepção estará determinada pelo conjunto de propensões do sujeito. E quanto mais intenso for o conjunto do indivíduo, mais irá determinar sua percepção. O significado atribuído a um estímulo particular, por um indivíduo, é uma função da ambiguidade do estimulo e da intensidade do seu conjunto".
"A maior aplicação destes princípios em psiquiatria foram os testes projetivos, nos quais estímulos ambíguos são apresentados a indivíduos e suas respostas analisadas em termos de importância e estruturação. Desta analise se extrai uma descrição da personalidade do individuo segundo suas tendencias perceptuais".
"As necessidades do indivíduo influenciam o conteúdo do que é percebido".
"Muitos experimentos indicam que as pessoas podem ser influenciadas em seus próprios juízos perceptuais, pelos juízos dos outros. O grau de influencia depende da consistência dos juízos alheios, do status das pessoas que os emitem e da habilidade a elas atribuída".
"Grande parte da percepção é comportamento aprendido".

"Se os estados motivacionais e de necessidade do organismo influenciam a percepção do seu ambiente, pode-se deduzir que um transtorno psicopatológico exercera um profundo efeito sobre o funcionamento perceptual. Um indivíduo que apresente medo ou necessidade patológica de evitar determinadas categorias de pessoas ou experiencias terá uma tendencia para bloquear a percepção de estímulos ameaçadores". (p. 45)

Processamento da informação
"O processamento da informação estuda a rota seguida por dado estímulo ao penetrar no sistema nervoso central, o caminho por ele percorrido através das diversas estacoes desde a mudança fisiológica produzida pelo input até os processos sensoriais e conceptuais: o modo como esses processos são propagados como a mensagem da energia do estimulo e a maneira como a mensagem chega finalmente aos canais apropriados e é absorvida ou dissipada".
-série progressiva de acontecimentos que ocorrem supervenientemente.
--Aptidão e atenção: nem sempre é possível processar e responder a todos os inputs. A atenção descreve o fenômeno pelo qual alguns estímulos, ao invés de outros, comandam o processamento e as respostas comportamentais. Tipos: -controle (voluntário ou involuntário), -atenção seletiva e filtração, -atenção focalizada e dividida, -excitação e atenção (p. 45)

Cognição
"Cognição é o processo de conhecer e tornar-se ciente de percepções e, então, ordená-las em conceitos e abstrações mais amplos.
A cognição se desenvolve em interação com as circunstancias da vida do indivíduo, das mais concretas as mais abstratas. Quando qualquer parte do sistema de linguagem simbólico do homem está alterada em termos psicopatológicos, seu processo de pensamento ou de solução de problemas estará desfavoravelmente afetado. (…) Num certo sentido, a cognição compreende o reconhecimento, a recordação e a simbolização (classificação). Estas habilidades implicam o desenvolvimento do indivíduo em interação com o meio". (p.46)


O desenvolvimento da cognição como um todo está intrinsecamente envolvido com o desenvolvimento social e afetivo, dado que as interações influenciam sobremaneira a forma como o pensamento se desenvolve. Nomear psicoses como transtornos de pensamento, transtornos cognitivos ou como perda de contato com a realidade desimplica o fator interativo e afetivo que necessariamente está vinculado aos sintomas de ESTRANHAMENTO/RETRAIMENTO.

Novamente estou lutando contra o conceito de psicose~~


Reconheço que há pessoas em sofrimento psíquico grave, com risco de crises graves de estranhamento de si e do mundo, que as predispõem a cornificação de sintomas de difícil manejo – mas não consigo enquadrar estas pessoas numa visão psiquiátrica tradicional, que não dá conta de descrevê-las na sua perspectiva sindrômica (pois ainda acreditam no mito da doença mental)
Me proponho a descrevê-las de uma maneira diferente da sindrômica-sintomatológica, por entender que as categorias diagnósticas tradicionais são insuficientes e se falem de conceitos cientificamente inviáveis (como a esquizofrenia).
(Claro que a psicanálise é uma possibilidade, dado que compreende a psicopatologia dentro de uma teoria de personalidade – algo evolucionista, ainda, mas com perspectivas bem mais relacionais e afetivas na construção da personalidade, com multicausalidade tão complexa quanto as potencialidades humanas)
Psicanálise, avaliação psicodiagnóstica da personalidade, psicopatologia na psicose. Porque não esquizofrenia (e ainda não sofrimento psíquico grave). Porque não outros sofrimentos psíquicos graves que não envolvem estranhamento  DO TIPO PSICÓTICO - leia-se loucura - como depressão, neurose obsessiva-compulsiva, transtornos alimentares ou perversos.

Há algo de específico em umas pessoas muito estranhas, muito pouco convencionais, com processos perceptuais, de processamento, cognitivos, afetivos e interativos muito diferentes e de difícil comunicação. Suas produções podem não encontrar nicho na cultura e represálias por conta do distanciamento de suas comunicações podem trazer sentimentos de inferioridade, incapacidade, estranhamento. Estas pessoas tendem ao isolamento, quiçá por não se sentirem capazes de integrar-se ao meio ou contribuir de maneira mais convencional, e ansiedades quanto ao meio e a si próprios podem ser potencialmente desorganizadoras e trazer confusão a suas percepções. São comuns dificuldades nas habilidades sociais, no processo perceptivo e demandas afetivas podem não encontrar objetos suficientes para sua expressão, modulação e controle. Podem estar presentes manifestações de embotamento afetivo, e distanciamento entre o âmbito afetivo e o relacional. O investimento e elaboração de sentimentos e emoções pode se processar de maneira muito diferente do comum, em área distante da realidade interpessoal. Pessoas ao redor podem não ser capazes de perceber, nelas, as manifestações mais usuais de envolvimento afetivo e julgar estas pessoas como embotadas, desinteressadas socialmente, retraídas e bizarras. Ao considerar o desenvolvimento destas pessoas, manifestações cada vez mais estranhas da angústia fundamental do ser humano são possíveis. Alucinações se referem a percepções sem estímulos externos, completamente motivadas por demandas internas que não encontraram outro meio de expressão ou elaboração. Delírios são formações de julgamento sobre as percepções fundamentadas em lógicas e premissas incorretas, também fundamentados em demandas internas elaboradas de maneira bizarra para a intersubjetividade. A psicanálise entende alucinações e delírios como resultados de mecanismos de defesa muito primitivos, característicos de pessoas que não tiveram oportunidades interativas suficientemente adequadas para desenvolver recursos de defesa contra conflito mais sofisticados. Em alguns indivíduos, a indisponibilidade de um ambiente suficientemente bom em etapas muito precoces do desenvolvimento pode levar a desconfiança na realidade do ambiente – e de si próprio. Assim, o indivíduo se fia mais prioritariamente em elaborações internas, conclusões feitas a partir de suas percepções sem grande teste na intersubjetividade. Estas podem iniciar de maneira não tão distorcida, mas na medida em que as demandas ansiosas internas aumentam, e buscam expressão no meio externo, pode ser estruturada uma realidade outra, em que é possível investir afetos, elaborar pensamentos e crenças confiáveis, protegidos das ameaças externas desestruturantes.
Estes são os psicóticos.
Loucura insipiente

domingo, 28 de agosto de 2011

Influências de grupo e a criança desajustada: o aspecto escolar


WINNICOTT, D. W. (1955). Influências de grupo e a criança desajustada: o aspecto escolar. In Winnicott, 1971. Privação e delinquência. São Paulo: Martins Fontes, pp. 215-226.
Esse eu já tinha lido, inseri novas considerações a partir da leitura anterior
O zeitgeist era que eu tava na corrida de Winnicott pra poder me livrar da influência do Zé Bigode. Mas freudiana até o talo.

Psicologia de grupos advém da psicologia individual~~
O desenvolvimento do nascimento até a morte - não se completa ou finaliza


Extensões graduais da palavra grupo dada às crianças:
família
pré-escola
lobinhos/fadinhas
escoteiros/guias
ideologias
religião
filosofia
cultura
civilização


Importância do ambiente no processo de amadurecimento em direção à integração
EU SOU
integração é criação de mundo interno, possibilitada pelo holding.
EU SOU significa perceber sua pele
e sentir-se nu.

A área intermediária, em que permanece parte da ilusão de criação onipotente, permite que um grupo seja uma realização EU SOU. O exterior(izado) não deve se tornar persecutório.

Para a criança desajustada dentro do grupo, aspectos de sua criatividade e seu sentimento de continuidade do ser foram atrapalhados por uma falta de adaptação do ambiente às suas necessidades precoces. A depender do grau de desajuste da criança, pode-se identificar a natureza da falha ambiental.

o Boby tá ca camisa sepi sujinha de sangue tiriquiti.



Classificação das crianças quanto a seu desajuste:
  1. Crianças que não se integraram em unidades e não podem contribuir para um grupo
  1. Crianças que desenvolveram um falso self (eu), o qual tem a função de estabelecer e manter contato com o ambiente e, ao mesmo tempo, proteger e ocultar o eu verdadeiro. Nesses casos, há uma integração ilusória que se desfaz assim que é admitida como ponto pacífico e convocada para uma contribuição
  1. Crianças retraídas. Neste caso, a integração foi realizada e a defesa se estabelece segundo linhas de uma redistribuição de forças benignas e malignas. Essas crianças vivem em seus próprios mundos interiores, os quais são artificialmente benignos embora alarmantes, por causa do funcionamento mágico. O mundo exterior dessas crianças é maligno ou persecutório
  1. Crianças que mantem uma integração pessoal através da ênfase exagerada na integração, e uma defesa contra a ameaça de desintegração que assume a forma de uma personalidade forte
  1. Crianças que conheceram um mundo intermediário com objetos que adquirem importância através da representação, ao mesmo tempo, de objetos internos e externos de valor. Essas crianças, não obstante, sofreram uma interrupção tal na continuidade de sua administração que o uso de objetos intermediários foi suspenso. Essas  são as crianças portadoras do comum "complexo de privação", cujo comportamento desenvolve qualidades antissociais sempre que começam de novo a ter esperanças. Roubam e anseiam por afeição e pretendem que acreditemos em suas mentiras. Na melhor das hipóteses, elas regridem de um modo geral, ou de um modo localizado, como no caso da enurese noturna, que representa uma regressão momentânea em relação a um sonho. Na pior das hipóteses, forçam a sociedade a tolerar seus sintomas de esperança, embora sejam incapazes de se beneficiar imediatamente de seus sintomas. Roubando, não encontram o que quere, mas podem finalmente (porque alguém tolera seus furtos) atingir um certo grau de nova crença em que o mundo lhes deve algo. Neste grupo há toda a gama de comportamentos antissociais.
  2. Crianças que tiveram um começo toleravelmente bom mas sofrem dos efeitos de figuras parentais com quem é inadequado para elas identificarem-se. Existem inúmeros subgrupos, como por exemplo
    1. Mae caótica
    1. Mae deprimida
    1. Pai ausente
    1. Mae ansiosa
    2. Pai de aparência austera, sem merecer o direito a ser austero
    3. Pais briguentos, a que se acrescentam condições precárias de moradia, o fato de a criança dormir no quarto dos pais etc.
  1. Crianças com tendências maníaco-depressivas, com ou sem um elemento hereditário ou genético
  1. Crianças que são normais, exceto em fases depressivas
  2. Crianças com expectativa de perseguição e tendência para se intimidarem ou para se tornarem fanfarronas e intimidarem outras. Nos meninos, isso pode constituir a base da prática homossexual
  3. Crianças que são hipomaníacas, com a depressão latente ou escondida em distúrbios psicossomáticos
  4. Todas aquelas crianças que estão suficientemente integradas e socializadas para sofrer (quando estão doentes) com as inibições, compulsões e organizações de defesa contra a ansiedade, as quais são geralmente classificadas em conjunto sob a designação de psiconeuroses
  1. Crianças normais - quando se defrontam com anormalidades ambientais ou situações de perigo podem empregar qualquer mecanismo de defesa mas não são impelidas para um tipo de mecanismo de defesa por distorções do desenvolvimento emocional pessoal



O curioso na classificação das crianças desajustadas de Winnicott é que, quanto mais "saudável" a criança, mais aspectos existem para ser descrito. Então o espectro vai da criança que não tem nada a contribuir para um grupo - e pensei no autismo - e passa por uma série de outras estruturações possíveis, as quais vão ficando crescentemente mais complexas.
No caso das crianças antissociais, por incomodarem mais, podem parecer "mais" doentes. No entanto, a riqueza de possibilidades de manifestação (esperança) é o que dá o aspecto de esperança que marca o comportamento antissocial.

Programa de estudo: Winnicott e as psicoses


A corrida da cerveja de Brasília está acontecendo bem embaixo da minha janela. Coloquei o trumpet jazz só pra não ouvir o funk automotivo e cair na tentação de colocar o tênis e descer as escadas...
Programação para estudar Winnicott (:
Falta comprar alguns livros, mas encontrei parte das obras dele em PDF - pena que em espanhol~~


1. Saúde e doença psíquicas. A importância do diagnóstico
A Cura, 1986. Tudo começa em casa.
Psiquiatria infantil, serviço social e atendimento alternativo, 1970. Pensando sobre crianças

2. Diferentes critérios de classificação dos distúrbios psíquicos
Os doentes mentais na prática clínica, 1963c. O ambiente e os processos de maturação
Variedades de psicoterapia, 1984i. Tudo começa em casa
Considerações teóricas no campo da psiquiatria infantil, 1958q. A família e o desenvolvimento individual
Classificação: existe uma contribuição psicanalítica à classificação psiquiátrica?, 1965h. O ambiente e os processos de maturação
Influências de grupo e a criança desajustada, 1965s. Privação e delinquência (em especial o item classificação de casos)

3. O conceito winnicottiano de trauma. Classificação geral dos traumas
O conceito de trauma em relação ao desenvolvimento do indivíduo dentro da família., 1989. Explorações psicanalíticas
A psicologia da loucura: uma contribuição da psicanálise, 1989vk. Explorações psicanalíticas

4. Conceito e classificação das agonias impensáveis
Ansiedade associada à insegurança, 1958d. Da pediatria à psicanálise
O medo do colapso, 1974. Explorações psicanalíticas
O conceito de regressão clínica comparado com o de organização defensiva, 1968c. Explorações psicanalíticas
A psicologia da loucura: uma contribuição da psicanálise, 1989vk. Explorações psicanalíticas
A comunicação entre o bebê e a mãe e entre a mãe e o bebê: convergências e divergências, 1968k. Os bebês e suas mães

5. Etiologia das agonias impensáveis. Estudo da falha ambiental
A mente e sua relação com o psique-soma, 1954a. Da pediatria à psicanálise
Recordações do nascimento, trauma do nascimento e ansiedade, 1958f. Da pediatria à psicanálise.
O relacionamento inicial da mãe com o filho, 1965v. A família e o desenvolvimento do indivíduo

6. As psicoses como organizações defensivas: cisão, dissociações e defesa contra o retorno das agonias impensáveis
Capítulos 1, 2, e 6 da parte IV - Natureza Humana, 1990
Psicoses e cuidados maternos, 1953a. Da pediatria à psicanálise
Distorção do ego em termos de falso e verdadeiro self, 1965m. O ambiente e os processos de maturação
O conceito de regressão clínica comparado com o de organização defensiva, 1968c. Explorações psicanalíticas
O gesto espontâneo, 1987. Cartas n 27, 30, 40 e 82

7. A cisão entre o verdadeiro e o falso si-mesmo
Distorção do ego em termos de falso e verdadeiro self, 1965m. O ambiente e os processos de maturação
Capítulos 1 e 4 da parte IV
Teoria do relacionamento paterno infantil, 1960c. O ambiente e os processos de maturação
Classificação: existe uma contribuição psicanalítica à classificação psiquiátrica?, 1965h. O ambiente e os processos de maturação (em especial o item Falso Self)

8. O medo do colapso
O medo do colapso, 1974. Explorações psicanalíticas
A psicologia da loucura: uma contribuição da psicanálise, 1989vk. Explorações psicanalíticas

9. Esquizofrenia infantil e autismo. Um caso de autismo
Serralha, C. A. (2003). "O autismo na teoria do amadurecimento humano de Winnicott". Revista Natureza Humana, v.5, n.1.
____________ (2004). "A perspectiva winnicottiana sobre o autismo no caso de Vitor". Revista Psyché, ano VIII, n. 13, jun.
Autismo, 1996c. Pensando sobre crianças
A etiologia da esquizofrenia infantil em termos do fracasso adaptativo, 1968a. Pensando sobre crianças.

10. Personalidades fronteiriças: o falso si-mesmo patológico
Distorção do ego em termos de falso e verdadeiro self, 1965m. O ambiente e os processos de maturação
A criatividade e suas origens, 1971g. O brincar e a realidade
Os doentes mentais na prática clínica, 1963c. O ambiente e os processos de maturação
O brincar: a atividade criativa e a busca do eu (self), 1971r. O brincar e a realidade (caso clínico)

11. Esquizofrenia latente
A mente e sua relação com o psique-soma, 1954a. Da pediatria à psicanálise
Sum: eu sou, 1984h. Tudo começa em casa
Uma nova luz sobre o pensar infantil, 1989s. Explorações psicanalíticas

12. Personalidades esquizoides
Ausência e presença de um sentimento de culpa, ilustradas em duas pacientes, 1989b. Explorações psicanalíticas (ler o segundo caso clínico)
O conceito de trauma em relação ao desenvolvimento do indivíduo dentro da família., 1989. Explorações psicanalíticas
Distúrbios psiquiátricos e processos de maturação infantil, 1965vd. O ambiente e os processos de maturação (ilustração clínica)
Objetos transicionais e fenômenos transicionais, 1953c. O brincar e a realidade (parte III - material clínico)

13. Depressão esquizoide
O valor da depressão, 1964e. Tudo começa em casa
Capítulo 1 da parte III - Natureza Humana
Os doentes mentais na prática clínica, 1963c. O ambiente e os processos de maturação

14. Ilustração clínica um caso clínico de psicose tratado por Winnicott (caso Bob)
Introdução a parte I de Consultas terapêuticas em psiquiatria infantil
Bob aos 6 anos, caso 4 de Winnicott 1971b. Consultas terapêuticas em psiquiatria infantil

15. O caso da moça que sonhou com a tartaruga
Dependência no cuidado do lactente, no cuidado da criança e na situação psicanalítica, 1963a. O ambiente e os processos de maturação