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sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

A Psicologia da Loucura e o conceito de trauma

Winnicott, D. W. (1965). A psicologia da Loucura: Uma Contribuição da Psicanálise. In: Winnicott, C.; Shepherd, R. & Davis, M. (1994). Explorações Psicanalíticas: D. W. Winnicott. Porto Alegre: ArtMed, pp. 94-101.

"Por 'psicose' se quer dizer uma enfermidade que tem seu ponto de origem nos estágios do desenvolvimento individual anteriores ao estabelecimento de um padrão individual de personalidade (p. 95)".

Posso incluir na necessidade da intervenção precoce multidisciplinar intensa uma possível explicação da relutância dos psiquiatras não-psicodinâmicos em aceitar a esquizofrenia como um fenômeno psicológico:
"Todo psiquiatra possui uma carga imensa de casos graves. Está sempre sendo ameaçado pela possibilidade de suicídio entre os pacientes que se acham a seu cuidado imediato e existem pesados ônus associados com a tomada de responsabilidade pela certificação e decertificação, bem como com a prevenção de ciosas como o assassinato e o mau trato de crianças. Além disso, o psiquiatra tem de lidar com a pressão social, uma vez que todos aqueles que precisam de proteção quanto a si próprios ou precisam ser isolados da sociedade inevitavelmente vêm acabar sob os cuidados dele e, ao final, não pode recusá-los (pp. 95-96)".

"Deve-se deixar aberta a porta para a formulação de uma teoria em que uma certa experiência de loucura, seja o que for que isso possa significar, é universal"

Medo da loucura: elementos que se acham fora do funcionamento da lógica

A loucura original pertence a um estágio muito anterior à organização no ego dos processos mentais que abstraem as experiências catalogadas e apresentam-nas ara uso em termos de lembrança consciente.
"A loucura que tem que ser lembrada só pode ser lembrada em seu reviver (p. 98)".

"O paciente acha-se então sob uma compulsão - surgida de alguma premência básica que os pacientes têm no sentido de tornarem-se normais - de chegar à loucura e a necessidade de ser louco. (...) Pode-se ver, que se, em tal caso, o colapso é atendido por uma premência psiquiátrica à cura, todo o sentido do colapso é então perdido, pois, ao entrar em colapso, o paciente tinha um objetivo definido e o colapso não é tanto uma enfermidade quanto um primeiro passo no sentido da saúde (p. 99)".

As defesas se organizam em torno da ansiedade:
"no caso mais simples possível, houve portanto uma fração de segundo em que a ameaça da loucura foi experienciada, mas a ansiedade [ou agonia] neste nível é impensável. Sua intensidade acha-se mais além da descrição e novas defesas organizaram-se imediatamente, de maneira que a loucura, de fato, não foi experienciada. Por outro lado, contudo, ela foi potencialmente um fato (p. 100, grifo meu)".

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O conceito de trauma em relação ao desenvolvimento do indivíduo dentro da família (1965, pp. 102-105)

A natureza do trauma envolve fatores externos, ou seja, é do domínio da dependência. O trauma rompe a idealização do objeto pelo ódio advindo do indivíduo. O ódio é reativo ao fracasso desse objeto em desempenhar sua função: uma adaptação perfeita. Em certa medida, todos somos "traumatizados" por fracassos do ambiente, mas apenas quando a falha ocorre em um tempo ou dimensão que são incompreensíveis para o bebê, ou que ele seja incapaz de tolerar, aí sim decorre um trauma no sentido estrito do termo.

Medo do colapso

Winnicott, D. W. (1963). O medo do colapso. In: Winnicott, C.; Shepherd, R. & Davis, M. (1994). Explorações Psicanalíticas: D. W. Winnicott. Porto Alegre: ArtMed, pp. 70-76.

Experiências passadas do indivíduo e caprichos ambientais.
Colapso (breakdown): fracasso da organização defensiva.

"Notar-se-á que embora haja valor em pensar que, na área das psiconeuroses, é a ansiedade de castração que faz por trás das defesas, nos fenômenos mais psicóticos que estamos examinando é um colapso do estabelecimento do self unitário.
O ego organiza defesas contra o colapso da organização do ego e é esta organização a ameaçada. Mas o ego não pode se organizar contra o fracasso ambiental, na medida em que a dependência É um fato da vida" (p. 71)

-Inversão do processo de amadurecimento

Holding --> Handling --> object presenting

Desenvolvimento integrador
Indwelling (personalização): conluio psicossomático ----> relacionamento objetal

Agonias primitivas
-Retorno à não-integração --- defesa: desintegração)
-Cair para sempre (gravidade) --- defesa: self holding
-Perda do conluio psicossomático --- defesa: despersonalização
-Perda do senso de real --- defesa: exploração do narcisismo primário
-Perda da capacidade de relacionamento de objeto --- defesa: estado autista

A enfermidade psicótica como defesa
A agonia subjacente à defesa é impensável. A enfermidade psicótica é "uma organização defensiva relacionada a uma agonia primitiva, e é geralmente bem-sucedida (exceto quando o meio ambiente facilitador não foi deficiente, mas sim atormentador, que é talvez a pior coisa que pode acontecer a um bebê humano)" (p. 72).



O medo do colapso é o medo de um colapso que já foi experienciado.
"É um medo da agonia original que provocou a organização de defesa que o paciente apresenta como síndrome de doença.
A experiência original da agonia primitiva não pode cair no passado a menos que o ego possa primeiro reuni-la dentro de sua própria e atual experiência temporal e do controle onipotente agora (p. 73)".

A agonia original é um fato que o indivíduo carrega consigo, escondido no inconsciente que é tudo aquilo que foi vivido, mas que a integração do ego não foi capaz de abranger na área de onipotência. A regressão à dependência, na análise, permite ao indivíduo reviver a agonia na transferência e, se o analista foi suficientemente bom, tornar o inconsciente (não reprimido, mas não integrado) capaz de emergir à consciência. Caso contrário, o indivíduo busca o detalhe passado no futuro: a agonia primitiva passada se transforma, definitivamente, em ansiedade (e, consequentemente, em medo).

A transferência permite que o indivíduo gradualmente reúna o fracasso original do meio ambiente, atualizado nas falhas do analista, dentro da área de sua onipotência.

O diacrônico impossível e esquisito se torna sincrônico e possível. Libertador.

O medo da morte é similar ao medo do colapso e, no mais das vezes, faz uso da religião para ser negado e postergado para o futuro mais distante.
Morte fenomenal: envio do corpo a uma morte que já aconteceu na psique (suicídio).

"Tudo o que lhe peço é que me ajude a cometer suicídio pela razão certa e não pela razão errada".
A alternativa delirante: eu estou morto - querem me matar.

A morte, para o ego primitivo, é o aniquilamento: a continuidade do ser é interrompida para sempre; isto é, não há como entender que a intrusão terá fim (uma espera de meia hora para um recém-nascido?)

Medo do vazio: nada de proveitoso aconteceu quando poderia ter acontecido.

O vazio primário é o antes de começar a se encher. "Na prática, a dificuldade é que o paciente teme o horror do vazio e, como defesa, organizará um vazio controlado, não comendo ou não aprendendo, ou então, impiedosamente o encherá por uma voracidade que é compulsiva e parece louca. Quando o paciente pode chegar ao próprio vazio e tolerar esse estado por causa da dependência no ego auxiliar do analista, então receber em si pode começar a ser uma função prazerosa" (pp. 75-76).

Na análise de psicóticos, experienciar equivale ao lembrar da análise dos neuróticos. Em ambos os casos, apenas na transferência a regressão, e consequente afrouxamento das feresas, é possível.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Natureza humana

Criança indesejada? O mundo é que não foi desejado - o self é a possibilidade de se tornar capaz de existir (continuidade do ser, awareness) "a despeito" do mundo.

Dependência: holding ---concern---> triangulação (ódio, culpa e concern)

Saúde física: hereditariedade (nature) e criação (nurture). Os dispositivos inatos só se tornam reais mediante a experiência.

Doenças:
"É importante também que saibamos de que tipo é a ansiedade que produz a ameaça; por exemplo, as defesas podem ser contra o medo de perder o pênis, ou de perder alguma função importante associada a um instinto. Podem ser também defesas contra a depressão, ou seja, contra uma desesperança pertencente a sentimentos de culpa, inconscientes eles mesmos, ou relativos a algum elemento inconsciente. Também é possível que as defesas sejam contra o medo de perder o contato com a realidade externa, ou contra o medo de uma desintegração caótica"

Efeitos da psique sobre o corpo e seu funcionamento
A saúde física dá significado à saúde psíquica e vice-versa - o corpo terá de ser sacrificado em muitos pontos, já que a liberdade dos instintos é restringida no processo de socialização. O compromisso entre as exigências do instinto e as da realidade social pode, contudo, ser construído com um mínimo de prejuízo.
Conflitos na consciência: manejo constante.
Conflitos no inconsciente: formação mais cega de sintomas.

A psicanálise da criança permite conhecer um processo ainda em meio a sua formação e derivar acesso a formações rudimentares presentes no adulto. Não temos uma idade: temos todas as nossas idades juntas ao mesmo tempo: as idades passadas na história, a idade presente e as expectativas das idades futuras.

A psique "torna-se algo que é capaz de criar e de perceber a realidade externa, torna-se um ser qualitativamente enriquecido, em condições de ir além daquilo que se pode explicar pelas influencias ambientais, e capaz não apenas de se adaptar, mas também de se recusar a se adaptar, e de se transformar numa criatura com algo que parece ser capaz de fazer escolhas" (p. 47)

Pré-genital             ingestão -------------------- ruthless (implacável)
   Alimentar            excreção ------------------- anal
                                    (experiências)                 uretral
                                                                                             "coisa" excretada "boa"
                                                                                                                         "má"

Fálica                   Menino, e o menino dentro das meninas


                                         genital masculino ----------- penetrar
                                                                   ----------- engravidar (ativo)
Genital
                                                                | ser penetrada
                                        genital feminino | ser engravidada (passivo)
                                                                | reter e livrar-se



Importância da pré-genitalidade
Diferença entre fantasia da experiência fálica e da experiência genital

Experiência fálica:
Ereção (coisa importantíssima, cuja perda seria terrível),
Exibição (desejo exibicionista);

depois, um objetivo declarado (penetrar e engravidar)

O funcionamento genital feminino verdadeiro tende a permanecer oculto ou até mesmo secreto. A menina que não sabe guardar segredo não pode ficar grávida, do mesmo jeito que o menino que não sabe lutar ou enfiar um trenzinho no túnel não pode deliberadamente engravidar uma mulher.

Tudo isso se dá na saúde. "Feliz e saudável é o menino que chega precisamente a este ponto de seu desenvolvimento físico e emocional [, o do complexo edípico,] quando a família está intacta, e que pode ser acompanhado em meio a esta constrangedora situação em primeira mão pelos próprios pais, que ele conhece muito bem, pais que toleram ideias, e cujo relacionamento é firme o bastante a ponto de não temerem a tensão sobre as lealdades, criada pelos ódios e amores de criança" (p. 68, grifo meu).
Assim, a criança "tornar-se-á capaz de tolerar os sentimentos humanos mais intensos sem construir defesas excessivas contra a ansiedade. As defesas, porém, sempre existirão e levarão à criação de sintomas. Os sintomas neuróticos são organizações de defesa contra a ansiedade, na verdade contra a ansiedade de castração, ansiedade que surge dos desejos de morte inerentes ao Complexo de Édipo. O anormal aponta para o normal".


"Para as crianças há ainda mais certeza quanto à frustração da vida instintiva do que na idade adulta, e é em parte por isso que observamos na infância uma valorização maior do brincar e da imaginação criativa" (p. 72)

Relações triangulares
"A criança odeia a terceira pessoa. Por ter sido um bebê, a criança já conhece o amor e a agressão, e também a ambivalência e o medo de que aquilo que é amado seja destruído. Agora, finalmente, na relação triangular, o ódio pode aparecer livremente, pois o que é odiado é uma pessoa que pode se defender, e que na verdade já é amada"
O ódio somente pode aparecer de forma saudável contra uma pessoa total, com capacidade de se defender e de retaliação, a qual já fora/é amada (outrora) e por isso também é capaz de perdoar.

"A criança deve empregar os tipos de experiência pré-genital e genital imatura que estão a seu alcance, e deve valer-se ao máximo do fato de que a passagem do tempo, algumas horas ou por vezes alguns minutos, traz alívio para praticamente tudo, por intolerável que pareça, desde que alguém familiar e compreensivo esteja presente, mantendo a calma quando o ódio, a raiva, a ira, o desespero ou a mágoa parecem ocupar o universo inteiro" (pp. 75-76).

Valor e perigo da cena primária
Sonho de ocupar o lugar de um dos pais na cena primária, construção da fantasia e risco de que ela se torne real. Os pais podem falhar na criação dos filhos por não serem capazes de distinguir claramente entre os sonhos da criança e os fatos (e assim também todas as pessoas da sociedade, particularmente ao ouvir de fantasias de destruição). A criança saudável não consegue tolerar compleramente os conflitos e ansiedades presentes no auge da experiência instintiva. A fantasia é, portanto, matéria prima que permite a civilização, pois "sem a fantasia, as expressões de apetite, sexualidade e ódio em sua forma bruta seriam a regra" (p. 78). Eu sou humano na medida de meus símbolos.

Autoconhecimento
"Os pacientes psicóticos (e as pessoas normais de tipo psicótico) pouco se interessam por ganhar maior autoconsciência, preferindo viver os sentimentos e experiências místicas, e suspeitando do autoconhecimento intelectual ou mesmo desprezando-o. Estes pacientes não esperam que a análise os torne mais conscientes, mas aos poucos eles podem vir a ter esperanças de que lhes seja possível sentir-se reais" (p. 79).

(...) a análise da psicose do tipo esquizoide (...) exige que o analista seja capaz de suportar a regressão real à dependência.

Holding = interpretação correta e oportuna no setting continente pelo analista suficientemente bom.


Desenvolvimento emocional característico da primeira infância
Oral (dentro e fora)
Reconhecimento bidimensional da membrana do self
EU e não-EU
Senso de responsabilidade pela experiência instintiva e pelos conteúdos do eu
Sentimento de independência do que está fora - há algo equivalente ao eu no fora: o seio como parte de uma pessoa (de um outro)

eu + objetos = relacionamento

Posição depressiva
Discriminação entre estado excitado e tranquilo - o "ataque" impiedoso cede lugar ao concern (a mãe é uma pessoa que cuida do EU ao oferecer uma parte de si mesma para ser comida). O bebê começa a se preocupar com os relacionamentos.

ruthlessness --- concern (possibilidade de fazer reparações)
repetição do machucar-e-curar

Separar o que é bom e o que é mau no interior do self.

Amor (oral), culpa (sádico) e reparação (anal)

A mãe, que sustenta e põe o tempo em marcha, oferece parte de si para ser comida. Por satisfazer o instinto e gerar prazer, o seu seio é bom e o bebê pode sentir que seu leite é bom: há algo de bom nele. Por, ao mesmo tempo, também se ausentar e deixar, em parte, o instinto não satisfeito, ela também proporciona desprazer na frustração. O bebê se enche de ódio dela e deseja destruí-la. A próxima mamada deixará introjetar também parte de um seio mau, e o bebê sentirá que há algo de mau nele (raiva). Aos poucos, por sustentar ser atacada e permanecer, ainda assim, o bebê sentirá que seus ataques podem destruir a mãe, que é boa e ao mesmo tempo má. Ele deverá fundir a agressão e o amor e tolerar a ambivalência. Se a mãe sobrevive, lhe será mais fácil tolerar a ambivalência e assumir responsabilidade pelos seus possível ataques. O bebê sentirá culpa e se preocupará com a mãe. Dotado de elementos bons ele mesmo, o bebê precisará de oportunidades de oferecer à mãe algo que a cure, que repare o mau causado. Esta será uma produção sua (as fezes), que será recebida pela mãe e o bebê poderá ficar tranquilo e suportar mais um dia.

1) Experiências instintivas
a. satisfatórias (boas)
b. insatisfatórias, complicadas por raiva devida à frustração (más)

2) Objetos incorporados (experiências instintivas)
a. no amor (bons)
b. no ódio (maus)

3) Objetos ou experiências interiorizadas magicamente
a. para controlar (mau potencial, persecutório)
b. para usar como enriquecimento ou controle (bom potencial)

O potencial dependerá da experiência para vir a se tornar fato, ou pode permear também as fantasias.
A separação é a capacidade de esperar o futuro e reconhecer a constância do objeto.

O que a posição depressiva permite descobrir:
O self é uma unidade; o objeto externo é uma coisa inteira. O tempo e o espaço existem, a psique está integrada ao corpo. O bebê pode se preocupar quanto ao objeto e quanto às consequências no self da experiência excitada.

"A partir do momento em que a integração é alcançada (mas não antes), a criança controla os impulsos instintivos por causa das ameaças ao seu movimento implacável, que provoca uma culpa intolerável - ou seja, o reconhecimento do elemento destrutivo na ideia excitada primitiva e bruta" (p. 99).
"A culpa pelos impulsos amorosos primitivos representa uma conquista do desenvolvimento", ou seja, não é inata.

"Os psicóticos são portadores de distúrbios derivados de um estágio ainda mais precoce e básico. Suas dificuldades e problemas são especialmente aflitivos. Por não serem inerentes, não fazem parte da vida, e sim da luta para alcançar a vida - o tratamento bem-sucedido de um psicótico permite que o paciente comece a viver e comece a experimentar as dificuldades inerentes à vida" (p. 100)

Quando a ansiedade é grande demais, processos mágicos acontecem, enquanto substitutos dos processos externos anteriores (alimentação e alucinação). O fenômeno interno mau que não pode ser controlado, contornado ou excluído é sentido pela criança como uma ameaça que vem de dentro, frequentemente se transforma em dor. Experiências más internas têm menor limiar de tolerância (como fugir?). Elementos persecutórios podem ser projetados, percebidos ou encontrados no mundo exterior. "Quando existe a expectativa de perseguição, uma perseguição real traz alívio, um alívio devido ao fato de que o indivíduo não precisa se sentir louco ou delirante" (p. 101).
A função anal depreende da possibilidade de expulsar objetos maus internos, intoleráveis, (potencialmente) ingeridos (introjetados) e persecutórios - não farão mal ao corpo, pois podem ser (e são) naturalmente jogados fora, todos os dias. Alguns conjuntos de perseguidores, contudo, são grandes demais e precisam ser projetados magicamente. "Os indivíduos lentamente aprendem como levar o mundo a persegui-los, de modo a poderem obter alívio da perseguição interna sem estarem expostos à loucura do delírio" (p. 105).
A capacidade de se deprimir, de apresentar uma depressão reativa, de sofrer um luto por uma perda não é inata, nem constitui uma doença (...) O importante é a capacidade do bebê ou do indivíduo de aceitar a responsabilidade pela intenção destrutiva no impulso amoroso total, incluindo a raiva pela frustração" (p. 106) e direcionar-se para a reparação.

Ansiedade hipocondríaca
Dúvida=doença

Desenvolvimento emocional primitivo
O primeiro contato influencia o padrão de relacionamento com a realidade externa.
A mãe torna possível a ilusão de que o seio foi criado pelo impulso originado na necessidade. A total dependência demanda uma adaptação perfeita: mas as falhas permitem o desilusionamento.

necessidade --- desejo
ilusão ----> desilusão

E neste momento o bebê está pronto para ser criativo, já que o potencial de excitação, em algum momento, de fato, resultará na produção de leite na mãe. Assim, o bebê cria uma realidade que, de fato, está lá para ser criada. Caso a "mamada teórica" seja forçada, a realidade é outorgada sobre o bebê e ele não tem espaço para criar.
Ao chupar o dedo ou agarrar um pano, o bebê declara seu controle mágico sobre o mundo e prolonga a onipotência originalmente satisfeita pela adaptação realizada pela mãe. A loucura seria a persistência da exigência de tolerância à criatividade onipotente do bebê na área transicional.
Quando a mãe é incapaz de satisfazer as vontades do bebê de forma sensível, o contato com a realidade fracassa. Ele não necessariamente morre, mas sua existência está fadada a um destino débil. São desenvolvidos tipos diferentes de relação objetal, que podem existir desconectados um do outro.
- De um lado estará a vida do bebê, na qual os relacionamentos têm por base a sua capacidade de criar, mais do que a memória dos contatos anteriores,
- e do outro lado estará um falso self, que se desenvolve sobre uma base de submissão e se relaciona com as exigências da realidade externa de forma passiva (p, 127-128).

No Rorschach, isso pode aparecer em termos de:
FQu                                         L alto
H baixo                                    D alto
A alto                                       p>a+1

"Nos graus menos extremos dessa doença não é tanto o estado primário de cisão que iremos encontrar e sim uma organização secundária cindida que indica uma regressão diante de dificuldades encontradas num estágio posterior do desenvolvimento emocional" (pp. 128-129). A desintegração, portanto, pode ser um processo de defesa ativa, porquanto se origina do ser, e não é reativa a falhas do ambiente.

"Há um tipo de artista que inicia seu trabalho com a representação bruta dos fenômenos secretos do self ou da vivacidade pessoal, que para ele é repleta de significados, mas que num primeiro momento não têm sentido para os outros. A tarefa dele é tornar inteligíveis suas representações e, para fazê-lo, ele deve até certo ponto trair a si próprio. Quanto à sua criação, na verdade, se ela for apreciada em excesso, o artista poderá retrair-se inteiramente, pela sensação de ter sido falso para si próprio. Esse artista é apreciado por pessoas retraídas, aliviadas por encontrar algum (não demasiado) compartilhamento daquilo que é basicamente pessoa e essencialmente secreto".
--devemos reconhecer a criatividade potencial não tanto pela originalidade de sua produção, mas pela sensação individual de realidade da experiência e do objeto.

Filosofia do real
"Alguns bebês têm a sorte de contar com uma mãe cuja adaptação ativa inicial à necessidade foi suficientemente boa. Isto os capacita a terem a ilusão de realmente encontrar aquilo que eles criaram (alucinaram). Eventualmente, depois que a capacidade para o relacionamento foi estabelecida, estes bebês podem dar o próximo passo rumo ao reconhecimento da solidão essencial do ser humano. Mais cedo ou mais tarde, um desses beb~es crescerá e dirá: "eu sei que não há nenhum contato direto entre a realidade externa e eu mesmo, há apenas uma ilusão de contato, um fenômeno intermediário que funciona muito bem para mim quando não estou muito cansado. A mim não importa nem um pouco se aí existe ou não um problema filosófico" (p. 135).
De fato, àqueles que se preocupam com esse tipo de questão seguramente foi precedida uma experiência de dúvida ou frustração no estabelecimento desse pensamento: "bebês que tiveram experiências um pouco menos afortunadas veem-se realmente aflitos pela ideia de que não há um contato direto com a realidade externa. Pesa sobre eles o tempo todo uma ameaça de perda da capacidade de se relacionar. Para eles o problema filosófico se torna e permanece sendo vital, uma questão de vida ou morte, de comer ou passar fome, de alcançar o amor ou perpetuar o isolamento" (P. 135)

A possibilidade de transformação da dor em arte ou filosofia:
“What is a poet? An unhappy man who hides deep anguish in his heart, but whose lips are so formed that when the sigh and cry pass through them, it sounds like lovely music.... And people flock around the poet and say: 'Sing again soon' - that is, 'May new sufferings torment your soul but your lips be fashioned as before, for the cry would only frighten us, but the music, that is blissful.” (Soren Kiekergaard)

Integração
Momentos de convergência aglutinadora do self como um todo promovem gradualmente a integração. "O bebê se desmancha em pedaços a não ser que alguém o mantenha inteiro" (p. 137).
-incorporar e manter lembranças.
-a integração é um estado precário (Humpty-Dumpty), é o que provoca o sentimento de sanidade e a perda, para sempre, do estado de não-integração. Gera novas ansiedades (estar vivo e ser um, ansiedade da morte e da fragmentação, da perda e da separação) e a defesa da desintegração é, em parte, responsiva a estas, como uma esperança de voltar à não-integração (a não estar vivo).


Os estados iniciais

O nascimento "normal" é aquele que é provocado pelo bebê. O estar-vivo já ocorre antes do nascimento e este pode ser produzido pelos impulsos do próprio bebê em direção ao movimento e à mudança que se originam diretamente do estar-vivo. Não há capacidade de espera ou de antecipação, pois o tempo ainda não foi posto em marcha. Qualquer demora ou antecipação é infinita.
O ambiente põe os dias em marcha, dá os primeiros sinais do que é o ritmo (respiração, frequência cardíaca da mãe). O impulso e a necessidade são construções criativas e vem de dentro. É preciso um período de recuperação após cada falha do ambiente, para reequilibrar a constituição ainda frágil de dentro e fora.

Desenvolvimento segundo as relações objetais
 - solidão
 - dependência absoluta (dupla dependência)
 - impulso instintivo (ruthless)
 - preocupação e culpa (dependência relativa, objeto parcial)
 - reparação
 - relação triangular
 - rumo à independência

Indivíduo e meio: como será feito o contato?
O movimento do próprio indivíduo descobre o ambiente
O ambiente "invade", por meio de uma intrusão (impingement), que é imprevisível e demanda reação. Neste modo de relacionamento, a excitação torna-se intrusiva (é um "intruso"). O mundo o invade - e a única possibilidade de interação é submissa.
O narcisismo primário, ou o estado anterior à aceitação de que existe um meio ambiente, é o único estado a partir do qual o ambiente pode ser criado. Um meio intrusivo não pode ser criado.

No princípio, há uma solidão essencial, inorgânica: solidão absoluta na dependência absoluta.
Desconhecimento do ambiente, a continuidade do ser depende da adaptação.
"O estado anterior ao da solidão é um estado de não-estar-vivo, sendo que o desejo de estar morto é em geral um disfarce para o desejo de ainda-não-estar-vivo. A experiência do primeiro despertar dá ao indivíduo a ideia de que existe um estado de não-estar-vivo cheio de paz, que poderia ser pacificamente alcançado através de uma regressão extrema. Muito do que geralmente é dito e sentido a respeito da morte, na verdade se refere a este estado anterior ao estar-vivo, no qual o estar sozinho é um fato e a dependência ainda se encontra muito longe de ser descoberta" (p. 154)

Caos
Intrusões
Desintegração: alternativa para a ordem, defesa contra ansiedades advindas da integração
Depressão: controle mágico do caos interno (tentativa de exteriorizar o caos interno)

Na cisão:
O verdadeiro self, dotado de esponaneidade, é incomunicável;
O falso self, baseado das intrusões do meio, é o que se relaciona com o meio externo.

Na dissociação: excessiva falta de comunicação entre os diversos elementos da personalidade.

Na repressão: perda de vários sentimentos, pensamentos, devido à dor intolerável que eles causam quando são trazidos à consciência

"Se o desenvolvimento transcorre favoravelmente, o indivíduo torna-se capaz de enganar, mentir, negociar, aceitar o conflito como um fato, e abandonar ideias extremas da perfeição e do seu oposto, que tornam a existência intolerável".
O ser humano é cruel, mas não está de todo estragado.

A função intelectual
Explica, admite e antecipa (memória) a desadaptação (criatividade).
Controle e racionalização: espécie de babá da criança.

Retraimento e dependência
Regressões no processo psicoterapêutico: o narcisismo permite ao sujeito o não reconhecimento da dependência, a onipotência e a verdade, já que não há intrusão. No narcisismo primário, o bebê não é forçado a reconhecer o ambiente e reagir a ele.

---No início, o ambiente se adapta às necessidades do bebê, permite que ele (crie a ilusão) ilusione a criação do mundo a partir de suas necessidades (excitações de origem interna que se transformarão em desejo). Na medida em que o bebê retém as ifnromações sobre a adaptação do meio, ele reconhece sua dependência e desenvolve a capacidade de:
-estar só na presença do outro;
-cuidar de si;
-se preocupar com o outro.
O ambiente começa a se desadaptar e desilusiona o bebê, que tolera a imperfeição do ambiente e a sua própria, na tolerância da ambivalência.

A espera infinita do nascimento "fornece uma base muito poderosa para coisas tais como a questão da forma na música, onde, sem a rigidez da moldura, a ideia do fim é mantida diante do ouvinte desde o início. A música sem forma aborrece. E a inexistência de formas é infinitamente enfadonha para aqueles que se sentem particularmente aflitos por este tipo de ansiedade, por conta de adiamentos impossíveis de compreender ocorridos em sua primeira infância" (p. 167)

No Rorschach, a atribuição repetitiva e enfática das formas (Lambda alto) pode aparecer como organização defensiva contra o infinito.

O ambiente
Pode ser mais fácil enfrentar a guerra e a morte do que algo como o imbroglio.
Mãe: ilusão de contato com o mundo externo (construção da área transicional).
Preocupação materna primária: capacidade de se identificar com o bebê (a partir do bebê que a mãe foi).

Handling (ancora a psique no corpo, cuidado técnico do corpo)
Holding (sustenta e permite o envolvimento, cuidado emocional, expressão de amor)





Narcisismo e apassivação

Varella, M. R. D. (2008). Narcisismo e apassivação. Tese de doutorado, Instituto de Psicologia, Universidade de Brasília, Brasília.

O aspecto totalizante da excitação das zonas erógenas, que antecede a integração do corpo unificado, é também fonte de angústia, já que tem como característica uma unidade, uma fragmentação, implicando uma desintegração da imagem corporal.

Contudo, podemos compreender como o seio-boca, fonte de satisfação da necessidade, de excitação e causa de prazer, representa um fragmento que tem o caráter de ser, ao mesmo tempo, audível, visível, tátil, olfativo e nutritivo, numa totalidade de prazeres. A boca torna-se "o representante pictográfico e metonímico das atividades do conjunto de zonas" e o seio - "será representado como fonte global e única dos prazeres sensoriais". Dessa forma, seio-boca, "zona-objeto complementar", constitui-se fantasia originária, numa relação complementar e de intepenetração recíproca. Essa complementaridade faz com que o desprazer, resultante da ausência ou inadequação por excesso ou falta, seja vivido como ausência ou inadequação da própria zona. Daí decorre que, nesse período precoce, as falhas ambientais ainda não possam ser experienciadas desta forma pelo bebê, e os "defeitos" do ambiente são vivenciados como falhas do próprio bebê. A rejeição do objeto implica a rejeição da zona, sendo que o dilaceramento e a rejeição entre a zona e o objeto são a representação de ódio presente em Thanatos, que quer destruir aquilo que traz excesso ou falta, e Eros, que quer totalizar, unificar, apaziguar (p. 79-80). Winnicott critica a necessidade de uma pulsão específica como Thanatos, e atribui a outros fatores a raiz da agressão.

-Aulagnier (1975). A violência da interpretação. Do pictograma ao enunciado. Rio de Janeiro: Imago, 1979, p. 53.

--fusão dos objetos parciais: imagem do objeto-zona complementar
-Ver sobre pulsão de vida e de morte em O inconsciente.

Husserl: O Eu é a transformação da afetação, em sentimentos das imagens, em representação de ideias, que coincide com a constituição mesma do inconsciente, num processo que nunca cessa de ser elaborado (p. 82).

A percepção é um fator importante no processo de formação do Eu, mas que também está submetido aos investimentos e às transformações libidinais, que estão na origem do Eu e fundam a realidade psíquica.

Narcisismo primário e denegativa
(ou denegação, A negativa, 1925).

O processo primário difere do secundário pelo reconhecimento que se estabelece da separação de dois espaços corporais. Tal reconhecimento, advindo da experiência ausência-presença, é representado pela relação que une o separado, na identificação com o desejo do outro, no qual se reconhece e se nega a separação.

O processo de alucinação

Freud, 1911b: Formulações sobre os dois princípios do acontecer psíquico.
"foi preciso que não ocorresse a satisfação esperada, que houvesse uma frustração, para que essa tentativa de satisfação alucinatória fosse abandonada. Em vez de alucinar, o aparelho psíquico teve então de se decidir por conceber as circunstâncias reais presentes no mundo externo e passar a almejar [desejar] uma modificação deste" (p. 66).

Uma nova função passa a ser utilizada: não mais se espera que as impressões sensoriais apareçam, vai-se ao encontro delas. A realidade passa a ser modificada pelo agir: "a realidade do pensar torna-se equivalente à realidade exterior e o mero desejar já equivale ou equipara-se até mesmo à ocorrência do evento desejado".

Narcisismo primário e estágio do espelho

No processo de incorporação, "a identificação direta e imediata da representação especular captura o filho que existe como a mãe que o vê".

Ética e responsabilidade
+
Pensamento consequente

culpa e moral


Análise do delírio
"uma crença profunda que o sujeito apresenta e que não provém de seus elementos falsos e nem é motivada por uma incapacidade de julgamento. Acontece que existe uma parcela de verdade oculta em todo delírio, um elemento digno de fé, que é a origem da convicção do paciente, a qual, portanto, até certo ponto, é justificada" (Freud, 1907, Gradiva de Jansen, p. 83)

--"Em certo sentido, portanto, o paranoico tem razão, pois ele reconhece algo que escapa à pessoa normal: vê com clareza maior do que alguém de capacidade intelectual normal, mas o que ele reconhece faz com que seu reconhecimento não tenha valor" (Freud, 1901. Psicopatologia da vida cotidiana, p. 221).

Conclui, portanto, que o sentimento de convicção do paranoico é justificado, pois há algo verdadeiro nele. Mas este saber perde o valor, pois não é assumido como pertencente ao próprio sujeito, e sim como se fosse de um outro.

Freud enfoca que as pessoas que não se libertam completamente do estágio do narcisismo, que se encontram aí fixadas, acham-se expostas ao perigo de que uma força intensa dessa libido, ativada por algum motivo e não encontrando escoadores, venha a produzir uma sexualização das relações sociais, desfazendo sublimações que haviam sido alcançadas no curso do desenvolvimento.


---Sartre, J.-P. (2012). Com a morte na alma. Rio de Janeiro: Nova fronteira. Trabalho originalmente publicado em 1949.

"Não são verdadeiros, pensou, são os sósias. Onde andam os verdadeiros? Em qualquer lugar, mas não aqui. Ninguém está aqui de verdade; eu não mais que os outros" (p. 38).

Winnicott - "Pode-se dizer que uma proteção do ego suficientemente boa pela mãe (em relação a ansiedades inimagináveis) possibilita ao novo ser humano construir uma personalidade no padrão da continuidade existencial. Todas as falhas que poderiam engendrar a ansiedade inimaginável acarretam uma reação da criança, e esta reação corta a continuidade existencial. Se há recorrência da reação desse tipo de modo persistente, se instaura um padrão de fragmentação do ser. A criança cujo padrão é o de fragmentação do ser tem a tarefa do desenvolvimento que fica, desde o início, sobrecarregada no sentido da psicopatologia. Assim, pode haver um fator muito precoce (datando dos primeiros dias ou horas de vida) na etiologia da inquietação, hipercinesia e falta de atenção (posteriormente designada como incapacidade de se concentrar)" (p. 59)

A integração do ego no desenvolvimento da criança (1962)
O caos da desintegração pode ser tão "ruim" como a instabilidade do meio, mas tem a vantagem de ser produzido pelo bebê e por isso de ser não ambiental. Está dentro do campo de onipotência do bebê.

Provisão para a criança na saúde e na crise (1962)
"O padrão consiste em nos identificarmos de algum modo com o indivíduo, de tal maneira que possamos prover aquilo de que ele necessita a qualquer momento" (p 67)

Séchehaye (1951). Symbolic Realization. New York: University Press.
--Aspecto central no tratamento da esquizofrenia, caracterizada pela incapacidade de estabelecer relações objetais



sábado, 15 de dezembro de 2012

Teoria do relacionamento paterno-infantil

Na psicanálise, reconhecemos que não existe trauma que fique fora da onipotência do indivíduo, tudo fica sob o controle do ego e as interpretações que podem mudar coisas são aquelas que podem ser feitas em termos de projeção.
Na infância, contudo, acontecem coisas boas e más que estão bem fora do âmbito da criança. O paradoxo é que o bom e mau no ambiente da criança não são projeções, mas é preciso, para a criança, que tudo pareça sê-lo. Daí a onipotência e o princípio do prazer em operação; o reconhecimento de um não-eu verdadeiro é uma questão de intelecto, se sobrevirá em termos de sofisticação e amadurecimento.
No princípio, era a pulsão - enfiaram em minha boca em pranto um seio e todos os meus desejos começaram.
---Freud: Objetar-se-á com razão que uma organização que era escrava do princípio do prazer e negligenciava a realidade do mundo externo não se poderia manter viva pelo mais curto espaço no tempo, de modo que não poderia chega a resistir de modo algum. O emprego de uma ficção como essa é contudo justificado quando se considera que o lactente - uma vez que se inclua nele o cuidado que recebe da mãe - quase que concretiza um sistema psíquico deste tipo. Ele provavelmente alucina a satisfação de suas necessidades internas; revela seu desprazer quando há uma aumento do estímulo e uma ausência de satisfação pela descarga motora de berrar e espernear com seus braços e pernas e então experimenta a satisfação que tinha alucinado. Mais tarde, como criança mais velha, aprende a empregar estas manifestações de descarga intencionalmente como método de expressão dos sentimentos. Desde que o cuidado posterior das crianças está modelado no cuidado dos lactentes, a dominância do princípio de prazer pode realmente vir a ter fim somente quando a criança atingiu a separação psíquica completa de seus pais".

O ego se constitui mediante a empatia da mãe-ego-auxiliar. O ego materno é a principal razão para o desenvolvimento da capacidade de controle e integração do id no ego (tornando-o forte e estável).
As forças do id clamam por atenção. De início elas são externas ao lactente. Normalmente o id se torna aliado a serviço do ego, e o ego controla o id, de modo que as fatisfações do id fortalecem o ego. Na psicose infantil (ou esquizofrenia) o id permanece total ou parcialmente "externo" ao ego, as satisfações do id permanecem físicas e têm o efeito de ameaçar a estrutura do ego.

prazer--------------------tríade realidade

unidade -----> diade ego -----> defesas do ego

dependência absoluta (dupla) ----> dependência relativa ---> rumo à independência

autoerotismo (ego=id) ---> narcisismo (ego=objeto) ---> relações objetais

O lactente
Os lactentes vêm a ser - desde que sempre seja aceito que o potencial herdado de um lactente não pode se tornar um lactente a menos que ligado ao cuidado materno (o potencial se materializa na experiência, possibilitada pelo ambiente).

-O potencial herdado e seu destino
cuidado paterno (holding, mãe-bebê, pai+mãe+criança): viver com (relações objetais)

Isolamento do indivíduo
O núcleo central do ego é afetado e esta é a natureza real da ansiedade psicótica. Normalmente o indivíduo logo se torna vulnerável a este respeito, e se fatores externos o irritam há meramente um novo grau e qualidade no ocultamento do self central. A esse respeito a melhor defesa é a organização de um falso self. A satisfação instintiva e as relações objetais constituem uma ameaça ao vir-a-ser pessoal do indivíduo.
As relações objetais normais podem se desenvolver na base de uma conciliação, uma que envolve o indivíduo no que mais tarfe poderia se denominar engodo e desonestidade, enquanto que uma legação direta só é possível na base de uma regressão ao estado de fusão com a mãe.

Aniquilamento
O potencial herdado, possibilitado pela experiência e pelo meio, permitem a continuidade do ser. A alternativa a ser é reagir, e reagir interrompe o ser e o aniquila.
Sob ocndições favoráveis o lactente estabelece uma continuidade da existência e assim começa a desenvolver a sofisticação que torna possível estas irritações serem absorvidas na área da onipotência.
A morte exige consideração pela pessoa humana completa (Hpuro), que pode ser mutilada. Ao contrário, a aniquilação é reação e interrupção no SER (que não É AINDA humano ou indivíduo, mas completamente depentende).

O papel do cuidado materno
Holding: proteção contra agressão fisiológica, promove a sensibilidade do bebê, põe o tempo em marcha (rotina completa) e introduz ao amor.
Tudo isso leva a, inclui e coexiste com o estabelecimento das primeiras relações objetais do lactente e suas primeiras experiências de gratificação instintiva. O holding não exige que a mãe exista, e o bebê pode seguir com a ilusão da onipotência, cria a mãe que está lá para ser criada.
-A esquizofrenia ou psicose infantil ou uma predisposição à psicose em uma data posterior se relacionam com uma falha da provisão ambiental. Por mais que possam ser descritas em termos do indivíduo (distorção do ego, defesas contra ansiedades primitivas).

Ao redor do fim da fusão, quando a criança se tornou separada do ambiente, ela tem que transmitir sinais. Quando a mãe não aguarda estes sinais, e satisfaz as necessidades do bebê antes mesmo que ele possa senti-las, o gesto criativo, o choro e o protesto ficam faltando, o que o deixa com duas alternativas: ou fica fundido com a mãe, em estado permanente de regressão, ou repudia completamente a mãe, ainda que uma mãe aparentemente boa. Porque, no fim das contas, o que importa é não se trair.
Isso é dificilmente compreendido pelas mães, por causa do fato das crianças vacilarem entre um ponto e outro: em um minuto estão fundidos e querem empatia, no outro estão separados e, se a mãe souber suas necessidades por antecipação, a criança pode sentir-se invadida, a mãe é uma bruxa perigosa.
O resultado de cada falha no cuidado materno é que a continuidade do ser é interrompida por reações às consequências desta falha, do que resulta o enfraquecimento do ego.

As mudanças na mãe
Em geral, as mães se identificam com o bebê dentro delas, e, por identificação projetiva, podem atingir uma percepção muito sensível do que o bebê necessita.



A capacidade para estar só

Winnicott, D. W (1958). A capacidade para estar só. Em: Winnicott, D. W. (1983). Ambiente e processos de maturação. Porto Alegre: ArtMed.

A verdadeira culpa se situa na intenção inconsciente - ansiedade com uma qualidade especial, ansiedade sentida por causa do conflito entre amor e ódio na tolerância da ambivalência.
SUPEREGO: gênese da culpa é uma questão de realidade interna, a culpa reside na intenção.

Psicopatologia do sentimento de culpa: uma falha na oportunidade adequada para o trabalho construtivo pode levar a um sentimento de culpa intolerável e inexplicável. A diminuição da carga do sentimento de culpa se segue à diminuição da repressão.
Na neurose obsessiva muitas vezes verificamos um ritual que é como uma caricatura da religião, como se o Deus da religião estivesse morto ou temporariamente inatingível. A confusão é mantida para ocultar algo muito simples: em uma situação específica, o ódio foi mais poderoso do que o amor.

Fusão agressão+erótico=sádico. Agressão associada às frustrações e fruto dos primórdios do princípio de realidade.

"Nenhuma experiência mais fascinante espera pelo analista do que a observação do crescimento gradativo da capacidade do indivíduo de tolerar os elementos agressivos no seu impulso amoroso primitivo" (p. 26). Crescimento gradativo da capacidade de tolerar os elementos agressivos do instinto amoroso: dúvida com relação ao resultado da lura entre forças do bem e do mau.

sentimento de culpa --> valoração bom/mau

"É interessante reparar que o artista criativo é capaz de chegar a um tipo de socialização que obvia a necessidade do sentimento de culpa e a atividade reparativa e restitutiva associada que forma a base do trabalho construtivo habitual; O artista ou pensador criativo pode, na verdade, falhar em compreender, ou pode mesmo desprezar, o sentimento de preocupação que motiva uma pessoa menos criativa; e dos artistas se pode dizer que alguns não têm capacidade de sentir culpa e ainda assim atingira numa socialização através de seu talento  excepcional. As pessoas habitualmente governadas pelo sentimento de culpa acham isso surpreendente; ainda assim tenho um respeito sub-reptício pela falta de piedade que leva de fato, em tais circunstâncias, a conseguir mais do que o trabalho orientado pela culpa" (pp. 28-29).


Relacionamento a duas (posição depressiva) e a três (complexo edípico) pessoas
--ficar realmente só: fenômeno sofisticado.
Paradoxo: capacidade de estar só na presença de outra pessoa. Depois do coito, derivação dos sentimentos gerados pela cena primária: raiva e masturbação, responsabilidade pela fantasia, fusão da agressividade e do erotismo
Objeto interno bom: construir uma crença num ambiente benigno. Deve haver uma falta relativa de ansiedade persecutória, os objetos bons estão no mundo interno pessoal do indivíduo, disponíveis para projeção.

"I am alone"
I - afirmação topográfica da personalidade como um ser.
I am - estágio no crescimento individual, tem forma e vida. Pode ser vulnerável e persecutório, demanda um meio protetor.
I am alone - apreciação por parte da criança da existência contínua do meio (a mãe).

A capacidade de ficar só se baseia na experiência de estar só na presença de alguém.

Relacionamento com o ego
-relacionamento da criança com a mãe (matriz da txf).

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

A psicose na metapsicologia freudiana

Simanke, R. T. (2009). A formação da teoria freudiana das psicoses. São Paulo: Loyola, pp 225-247.

1º problema: As duas realidades

A castração é o protótipo de todo rompimento posterior com o mundo. A partir da formulação do complexo de Édipo, o questionamento: existiria, na psicose, um mecanismo equivalente à repressão?
Alucinação, narcisismo e mecanismo específico da psicose: influências na noção de "ruptura com a realidade".

Noção de realidade: a realidade psíquica não é a totalidade do que é subjetivo. Há um problema epistemológico na descrição da realidade psíquica, que é a comparação desta com a realidade material. Freud oferece ordem de realidade ao que é próprio do inconsciente: pensamentos intermitentes e de transição (o que é subjetivo, pensamentos voluntários, devaneios) não teriam realidade, embora sejam subjetivos. Ao contrário, desejos inconscientes em sua expressão última e verdadeira são uma forma particular de existência e mereceriam o estatuto de realidade psíquica, porquanto causam (ou seja, determinam) os eventos psíquicos.

Velho embate:
Interno x externo
Subjetivo x objetivo
Real x não real
Em que medida essas dimensões se interpolam e se interdeterminam?

Para Freud, a realidade psíquica é mais do que a subjetividade, mas não compreende, em absoluto, o objetivo e o externo. Ao discorrer sobre a aquisição psíquica, Freud descreve que o prazer se localiza no ego e o desprazer é projetado para fora. No artigo "A negativa" (1925), ele descreve a função do juízo, ou seja, a prova de realidade (questão central da psicose), como tarefa do ego-realidade final, o qual é derivado do ego-prazer inicial: algo é julgado como real se a representação puder ser encontrada na percepção. Podemos ver a confusão entre representação e percepção na alucinação e paranoia. O externo é julgado como algo fora do ego, mas não necessariamente ele estará fora do psíquico, o que deriva que a realidade psíquica não é somente interna.

Mais ainda, a realidade psíquica:
- não é somente individual (ou subjetiva),
- não é livre, como a imaginação,
- possui determinação externa, mas não se confunde com os elementos externos.

Pulsão sexual e a teoria da sedução
Laplanche e Pontalis: teoria da sedução generalizada. A pulsão sexual é inclulcada no bebê pela sedução do adulto (cuidado corporal erogeneizante);
Melanie Klein sugere que a pulsão sexual é totalmente endógena, os objetos sexuais são constituídos a partir da fantasia, extremamente precoce;
Freud devente posição intermediária: as pulsões têm sua fonte nas zonas erógenas, mas encontram seus objetos na realidade externa (que pode, inclusive, ser o corpo próprio).

Breuer: "os histéricos sofrem de reminiscências" - não quaisquer, mas um tipo especial de memória constitui o núcleo do trauma, o qual se manifestará a partir de associações e formações simbólicas. O núcleo, em si, não é elaborado, resiste a análise e é o ponto de inserção do mundo concreto no psiquismo, onde se situa a realidade psíquica. A memória é uma fantasia infantil e a cena primária é o momento do enengramento do psíquico pela ação da realidade externa. A fantasia é primária: elabora, assimila e está relacionada, ainda que apenas isomorficamente ou por meio de associações simbólicas, a um evento real. A fantasia, portanto, é a expressão da pulsão. O objeto da repressão primária (que retorna na repressão propriamente dita) é o primeiro representante psíquico da pulsão, este constitui o ponto de inserção da realidade externa no psiquismo.

Daí decorre que:
Os registros mnêmicos não verbais, inacessíveis à consciência, pertencem ao inconsciente, são o núcleo irredutível, resistem à interpretação e são reais.
Na alucinação, estratégia primária de realização de desejo, o sujeito vive em realidade psíquica. A perda da realidade na psicose é a perda da relação mediata com o inconsciente, onde há somente representações de coisa. Na psicose, decorrente da impossibilidade de diferenciar representações e percepções, a representação se torna coisa. A realidade psíquica parece um "nó heterogêneo", relativamente exógeno, pois o percebido, após virar traço mnêmico, está sujeito ao processo primário: está condenado à "inefabilidade qualitativa", já que o sujeito só recebe a quota energética daquilo que tem que processar. O externo só tem, na metapsicologia freudiana, o estatuto econômico/energético.

Com o abandono da teoria da sedução, Freud não desiste da determinação real e histórica das fantasias: busca, então, a determinação nos diversos âmbitos da produção cultural e subjetiva humana:
-mitologia,
-antropologia,
-filo e ontogenia.

Teoria do complexo de castração
Efeito traumático da ameaça de castração: ameaça à integridade narcísica. A psicose seria a recusa da castração e o retorno (fixação) no narcisismo. A ablação do falo é uma fantasia, assinala o lugar do sujeto em um mundo sexuado, com a diferença entre os sexos (e entre as gerações, na entrada no complexo de Édipo, muito tempo depois).
No narcisismo, a relação de objeto é de identificação, o objeto parental é idêntico ao ego (com as frustrações, o ego apela ao id: "me ame, eu sou tão parecido com ele...).

Diferença entre representação e percepção:
Só com a superação do narcisismo primário as noções de dentro e fora, eu e outro começam a fazer sentido. Na menina, a decepção fálica introduz ao Édipo e à captura do pai por desejo de um filho-falo. No menino, a mãe fálica era idêntica a ele e a descoberta da castração (dela) insere a criança no complexo - a ausência/inveja do pênis divide o mundo em dois conjuntos de seres irreconciliáveis. E o fato de esta diferença estar estritamente relacionada ao sexo e à reprodução faz desta questão, para a criança sexuada, essencialmente central e traumática. A castração se torna realidade da própria vida, universal.

Narcisismo
O narcisismo primário é a inserção do objeto na identificação primária, quando ego=objeto. A onipotência imaginária não dá limites para a satisfação do desejo. A alucinação é característica da psicose enquanto quadro de regressão ao narcisismo. A castração é todo limite imposto ao desejo pela realidade, significa ruptura da situação narcísica: é a resistência da realidade à satisfação do desejo. A passagem pelo Édipo permite evitar, em parte:
-a confrontação com a realidade da castração;
-a confrontação com a realidade da ferida narcísica que ela implica.

O incesto (interdito, proibição) resulta do sepultamento do Édipo e oferece objetos possíveis ao sujeito, ao mesmo tempo em que o distancia da castração. O tabu do incesto permite dizer que, se os sujeitos, femininos e masculinos, só se satisfazem parcialmente e com objetos algo inadequados, é por causa da interdição do incesto e não à diferença sexual real, que acaba com a fantasia narcísica. Isso porque a transgressão a uma proibição é, em tese, possível. A proteção contra a ameaça de castração é a repressão contra desejos incestuosos e a identificação (secundária) de parte do ego com as figuras parentais (Édipo direto+invertido=completo), um algo de conservação do narcisismo: SUPEREGO.

Narcisismo secundário da perversão ≠ psicose (modo da recusa).

No neurótico, o superego é porta-voz da ameaça de castração.
O conflito ego x superego na neurose substitui o arcaico conflito ego x realidade, próprio da psicose.

Em Eva, por exemplo, o registro narcísico mantido após o complexo de Édipo retorna com a "realidade material" de um outro (do filho), que é rejeitado. Na psicose, há a perturbação do vínculo do ego com a realidade pela recusa em dar inscrição psíquica à realidade da diferença sexual. Em muito se parece com a defesa perversa...

Verleugnung: fragilidade original da construção da realidade da diferença sexual devido à recusa de dar inscrição psíquica a um dos seus elementos mais fundamentais.

Desinvestimento do inconsciente: as representações de coisa são "percebidas" (perceber=recordar). O modo particular de defesa da psicose extingue (desinveste) sucessivamente as representações de coisa que assinalam o ponto de inserção da realidade insuportável (complexo de castração?). "É uma espécie de sangramento do investimento próprio desse sistema através da brecha deixada pela ausência de inscrição psíquica de uma realidade concreta tão decisiva como a castração" (p. 239).

A confrontação com essa realidade só produz desagregação (ameaça de castração --> ameaça de aniquilamento).

"Esboço de psicanálise": dificuldade demarcatória entre psicose, neurose e perversão (verleugnung?)

Lacan: Verwerfung - forclusion ~ forma mais drástica de rejeição da representação intolerável (alucinaçaõ, Neuropsicoses de defesa); recusa da castração em Homem dos Lobos. O que é foracluído no simbólico (cuja inscrição psíquica é recusada) retorna no real.

Laplanche e Pontalis (vocabulário): termos que denotam uma recusa em tomar conhecimento de algum conteúdo que não é repressão.

Schreber: conteúdo psíquico cancelado (aufgehoben) dentro e que ressurge desde fora, por projeção.

Fetichismo: duas séries psíquicas paralelas (cisão do ego), numa das quais a falta do pênis feminino estaria reconhecida (ambiguidade). Na psicose, a série com a falta do pênis está ausente. A ausência de um esquema de regulação edípico deixa o sujeito psicótico perplexo diante do surgimento de obstáculo à realização do desejo (alucinação). Na falta das representações de coisa, desinvestidas pela defesa psicótica, à realização de desejo, sempre regressiva, não resta alternativa senão a via alucinatória.
(A interpretação dos sonhos: o desejo inconsciente é o impulso psíquico para reinvestir as representações de coisa na falta do objeto).

Presença de alucinações em quadros clínicos que não a psicose. Na histeria, a invervação conversiva do aparato sensorial (daí também nossa postura de não chamar essas pessoas de psicóticas, que dirá esquizofrênicas, não importa quanto tempo durem as alucinações). Na psicose, contudo, o desinvestimento no inconsciente ocorre em cadeia e esvazia o sistema de sua excitação própria, até a constituição do delírio. Na histérica, a formação do sintoma é simbólico, a representação está reprimida (O inconsciente).

Alucinação verbal: despersonalização.
"O sujeito não tem mais a impressão de coincidir com sua palavra própria. Eis aí o germe da ilusão da palavra estrangeira" (Merleau-Ponty, 1949, p. 58).

Winnicott: o que importa é proteger o verdadeiro self.

O delírio passa a ser um esforço pra recuperar os vínculos perdidos com a realidade (tentativa de cura, remendos psíquicos).

As representações de palavra (veículo para o delírio) perderam o vínculo associativo (afetivo) com as representações de coisa, os instrumentos de mediação e prova de realidade realizados pelo ego, aniquiladas pelo desinvestimento psicótico e, por isto mesmo, a palavra é tomada como coisa (e investida pela quota de afeto livre?)

A possibilidade de uso da linguagem compartilhada (consciente) depende da reanimação dos traços mnêmicos. O delírio é pensar com palavras investidas de libido narcísica (daí decorre que o paranoico ama seu delírio como a si mesmo, onipotência do sintoma)

Decisão na relação eu-outro
-As instâncias psíquicas são sedimentos dos investimentos objetais primários abandonados
objeto da pulsão (parcial) --> falta --> objeto do desejo
A nova ação psíquica que leva do autoerotismo ao narcisismo é o início da diferenciação entre ego e id. No narcisismo, ego=objeto.
Narcisismo secundário: retorno a um modo arcaico de relação objetal.
Privado das referências que assinalam o limite da subjetividade, o psicótico só pode perceber sua palavra como proveniente da realidade externa (alucinação auditiva: regressão tópica, formal e temporal)

O psicótico freudiano parece virado ao avesso (inconsciente a céu aberto).

"A história do conceito de psicose em Freud é toda - ou quase toda - uma pré-história (p. 248)".

Discussões sobre a diferença entre a noção de psicose na
psicanálise x psiquiatria
Não estamos falando da mesma coisa... Postura epistemológica na construção da classificação psiquiátrica, um manual diagnóstico "ateórico" é impossível.




sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Neurose e psicose - A formação da teoria freudiana das psicoses

Simanke, R. T. (2009). A formação da teoria freudiana das psicoses. São Paulo: Loyola.

Freud enfatiza a idéia de que é o fracasso da defesa, isto é, o malogro em obter o esquecimento desejado, que instaura o conflito patológico. (...) [No caso da conversão histérica], trata-se de debilitar a representação conflitiva (p.86)

A quantidade de excitação livre, oriunda do desinvestimento da representação conflitiva, pode encontrar, em princípio, qualquer destino em termos de inervação somática. Assim, uma inervação motora pode dar origem a paralisias ou neuralgias musculares; uma inervação da musculatura involuntária ou visceral pode causar os conhecidos sintomas de náuseas ou vômitos histéricos; a inervação do aparato sensorial, enfim, originaria as alucinações visuais, táteis, auditivas, cinestésicas etc., cujo conteúdo encontrar-se-ia relacionado com o conteúdo da representação excluída. É nestes termos que se coloca o problema das relações entre a alucinação e a conversão histérica. Contudo, às alucinações características da confusão alucinatória serão atribuídas uma natureza, uma função, uma origem, uma explicação, enfim, completamente diferentes daquelas atribuídas à alucinação resultante da conversão (p. 87)

Ora, existe uma modalidade defensiva muito mais enérgica e exitosa, que consiste em que o ego rejeite (verwirft) a representação insuportável, juntamente com seu afeto, e se comporte como se a representação nunca tivesse comparecido. Só que, no momento em que se conseguiu isto, a pessoa se encontra em uma psicose que não admite outra classificação que “confusão alucinatória” (Freud, 1984, p. 59 – Projeto)


Angústia – Assim como no Projeto... (...) não há neurônio sem Q, não há também afeto que não esteja ligado a um neurônio, exceto no caso da angústia, mas aí já fora da esfera representacional, pois se trata de excitação puramente somática manifestando-se diretamente como desprazer psíquico (p. 89) – Y?

Realidade – A realidade começa a ser tratada [nas primeiras formulações sobre a paranóia e a projeção], antes de tudo, como uma realidade representada para e pelo sujeito – o que coloca limites para uma interpretação excessivamente realista da posição freudiana (...) –, e as representações que a compõem têm, como todas as outras, seu acesso à consciência condicionado pelo interjogo das forças psíquicas. (...) [Freud] sugere que o grau da realidade percebida não é, afinal, superior ao das demais, e que a percepção é um fenômeno complexo, sujeito às leis do suceder psíquico, e não uma apreensão imediata do mundo (p. 90).
Apagamento da fronteira entre normal e patológico – Da mesma maneira que a ideia de realidade vai perdendo, para Freud, sua conotação “natural”, a questão dos limites ego/ mundo, interior/exterior assume, aos poucos, o aspecto de conquista da evolução psíquica do sujeito, que pode ser posta em risco a qualquer momento, em razão das vicissitudes deste mesmo psiquismo (p. 95)

Delírio – Nesse momento, o delírio já começa a assumir o caráter de um esforço empreendido pelo ego para manter ou recuperar sua unidade interna diante do retorno do reprimido (ou seja, de uma tentativa espontânea de cura, p. 99). Delírio de assimilação: o sujeito ama seu delírio como a si mesmo, só reconhece como próprio o que emerge no delírio.

A dúvida e a incerteza presentes na neurose se relacionam ao processo simbólico presente na formação do sintoma: o símbolo histérico, o objeto no qual o afeto da representação reprimida é investido, vem como uma nova representação que encobre e representa o reprimido. “Tal ambigüidade não existe no delírio: ele é uma tradução em representações de palavra do reprimido que retornou maciçamente na forma de signos perceptivos (p. 100)”

Lógica do inconsciente: não há não. Uma concepção da psicose como o tipo de afecção que se caracteriza por ser uma perturbação apenas do pensamento...
Sabendo que qualquer órgão é, potencialmente, uma zona erógena, o retraimento da libido para o ego pode erogeneizar qualquer órgão, na constituição de um delírio hipocondríaco.
[Em uma neurose narcísica], a libido liberada por frustração não fica aderida aos objetos na fantasia, mas sim se retira sobre o ego.


Caso Schreber: ou o sujeito é capaz de aceitar as moções pulsionais homossexuais e eclode a homossexualidade manifesta, ou se defende vigorosamente contra elas e, caso seja incapaz de restabelecer a repressão e/ou refazer as sublimações anteriores agora desfeitas, acaba por mergulhar no delírio paranoico (p. 156).

A projeção, ao menos no caso da paranoia, forma a contrapartida do desinvestimento dos objetos que
caracteriza as neuroses narcísicas: uma vez transposta para o exterior a fonte dos sentimentos condenáveis, a libido do sujeito fica livre para ser investida no ego.

A teoria delirante de Schreber constitui um magnífico exemplo do processo assimilativo: esforço para integrar no ego o reprimido que retorna maciçamente nas alucinações. Reprimido?? O cancelado dentro retorna desde fora: o delírio como tentativa espontânea de cura, de reorientação da libido aos investimentos objetais.

Esquizofrenia e paranoia
Diferentes polos inicial e terminal do processo defensivo, mantendo em comum o termo médio, que é a repressão propriamente dita, a qual, tanto num caso como no outro, se apoia na retração da libido objetal e no investimento regressivo do ego. (p, 162)

Na esquizofrenia, a tentativa de recuperação que se segue ao processo patogênico não se dá por projeção, como na paranoia, mas por um mecanismo alucinatório (histérico).

Ponto de fixação da esquizofrenia: retorno até o autoerotismo. Essa regressão de maior alcance, até um momento menos estruturado da atividade pulsional, responderá pela maior desagregação observada nos estados esquizofrênicos, ao contrário da impenetrável coerência dos sistemas delirantes na paranoia.

De alguma maneira a natureza oculta do inconsciente se faz evidente na esquizofrenia.

Vínculo com a histeria: a linguagem toma frequentemente uma referência a órgãos e inervações corporais – linguagem de órgão, o traço hipocondríaco do enunciado esquizofrênico. Causa e efeito estão atualizados no discurso, e a relação de simbolização se esvai. O modo privilegiado de registro que vigora no pré-consciente é também atingido pelo processo primário: as palavras passam a sofrer o mesmo processo dos sonhos, a deformação onírica. Tudo se passa como se o próprio inconsciente viesse à tona, submetendo a seu regime as representações de palavra do pré-consciente: falta a referência a um registro lógica, tópica e temporalmente anterior e diz-se que, na esquizofrenia, não há regressão tópica.

Retraimento da libido investida na representação de objeto, que é formada pela representação de coisa + representação de palavra – apenas o investimento da representação de coisa foi retirado para o ego: a representação de palavra do objeto permanece investida e é submetida ao processo primário, funcionando como representação de coisa.

O sistema Icc contém os investimentos de coisa dos objetos, que são os investimentos de objeto primeiros e genuínos; o sistema Prcc nasce quando esta representação de coisa é sobreinvestida pelo enlace com as representações de palavra que lhe correspondem (Freud, 1915).

Mas o inconsciente é mais do que representações de coisa reprimidas, ou impossibilitadas de investir em representações de palavra pré-conscientes. A esquizofrenia exige um processo além da repressão para poder ser entendida como “inconsciente a céu aberto”.

Na alucinação, o investimento inconsciente (da representação de coisa, característica do processo primário) se transpassa ao sistema percepção-consciência, sendo capaz de animar sua própria percepção sem a presença de um objeto externo. É a culminação do processo patológico da neurose narcísica, o maior estágio de retração dos investimentos objetais, resulta na fantasia de fim de mundo e o deliro, tentativa de explicação das alucinações, é o reinvestimento das representações de palavra pré-conscientes.


A tomada de consciência depende da reanimação alucinatória das representações de palavra. Desinvestido o próprio inconsciente, os registros mnêmicos e as imagens acústicas das palavras seriam metabolizados pelo processo primário na constituição de uma linguagem peculiar, particular. Sobre a terra arrasada pelo conflito defensivo, o sujeito reconstroi o mundo a partir dessas imagens e, nesse movimento, reconstroi sua esfera subjetiva.

A falta da referência às representações de coisa faz com que estas imagens verbais sejam tratadas como objetos, “como os investimentos de objetos primeiros e genuínos”, e disto resulta o caráter típico da linguagem esquizofrênica, que faz que a semelhança na expressão linguística substitua a semelhança da coisa designada na construção das formações delirantes (um buraco é um buraco).
Sem nada a não ser palavras para reconstruir o mundo, a equivalência verbal não poderá senão redundar em identidade de fato.

Perda da referência à motivação intrínseca do processo: na melancolia, não se sabe bem o que se perdeu (fixação na etapa narcísica).

Identificação: etapa prévia ao investimento objetal; é incorporando em si as características de um objeto privilegiado que o ego se constitui como unidade autônoma e diferenciada do não ego.

Identificação primária: o ego se identifica com tudo o que é prazeroso, mediante uma identificação narcísica.
Ego e objeto se constroem simultaneamente.

Hollós e Ferenczi: Zur Psychonalyse der paralytischen Geistesstörung (prevenção das psicoses).

Ego, um servidor de três amos: o mundo exterior, a libido do id e a severidade do superego.

Perda da realidade: cancelamento da percepção, perda da eficácia psíquica da percepção. "O ego cria para si um novo mundo exterior e interior, e há dois fatos indubitáveis: que este novo mundo se edifica no sentido das moções de desejo do id e que o motivo desta ruptura com o mundo externo foi uma grave frustração de um desejo por parte da realidade (Freud, 1924a)".

Fator etiológico comum para a neurose e psicose: frustração de um desejo. O efeito patogênico depende do modo como o ego age.
Ponto de vista econômico preponderante.
Qual será o mecanismo, análogo a uma repressão, por cuj0o intermédio o ego se desliga do mundo exterior? (idem)

Na psicose, a perda da realidade é primária, um mecanismo análogo à repressão neurótica (rejeição?) arranca o ego da realidade dentro de um processo silencioso (não pontuado por sintomas). A ruidosa proliferação sintomática da psicose decorre das tentativas empreendidas pelo ego de refazer seu contato com a realidade (esforços para retomar os vínculos perdidos com o objeto). Na medida em que a realidade interna se perde concomitantemente com a realidade externa, o processo patogênico da psicose coincidiria com a aniquilação completa da interioridade.

A pulsão de morte ensina à libido o caminho para os objetos.


A renegação assume valor de elemento diferenciador entre a neurose e a psicose, torna-se pré-condição da reconstrução do mundo efetuada pelo delírio. Nesse contexto, insere-se a alucinação, cuja função é fornecer percepções tais que correspondam à realidade a ser reconstruída. Diferentemente do neurótico, que se refugia na fantasia para uma satisfação simbólica, o psicótico quer impor seu reservatório de representações para satisfazer as formações de desejo. De acordo com Klein, a psicose é uma deficiência na capacidade de expressão simbólica. Também o mundo de fantasias é desinvestido na psicose, a fantasia psicótica tem que ser fabricada “do nada” com as imagens acústicas alucinatoriamente revividas, privadas de seu significado original. Mas não é possível criar um substituto plenamente satisfatório para a pulsão reprimida no id e nem a realidade é infinitamente plástica.

No início, havia o bom (prazeroso) e o mau (desprazeroso), o juízo de atribuição antecede o de existência. Decidir sobre a existência de alguma coisa é um interesse do ego-realidade, que se desenvolve como um modificação do ego-prazer (a existência de um objeto na realidade só pode ser alvo de uma crença e não de uma demonstração).

Exame de realidade: pressupõe a distinção entre dentro e fora, já que se trata de decidir se uma coisa existe somente como representação (internamente) ou se, além dessa presença interna, existe também exteriormente.

Negação: na psicose, a negação exige a anulação da afirmação inicial, que é o desinvestimento das representações de coisa. É o que Freud dá a entender ao falar do “gosto de negá-lo todo, o negativismo de muitos psicóticos” (Freud, 1925c).


[Em O ego e o id], Freud ratifica a concomitância da constituição do ego e do objeto total. No começo de tudo, ou seja, no momento mais originário possível, que corresponde à primitiva fase oral do desenvolvimento da libido, “é por completo impossível distinguir entre investimento de objeto e identificação” (Freud, 1923a, p. 31).

No narcisismo, há a integração dos objetos/ identificações parciais, na medida em que o ego se separa do id, a partir do acúmulo de experiências com as catexias parciais (pulsões parciais) nos objetos parciais. Assim,
“Quando o ego adquire os traços do objeto, por assim dizer, se impõe ele mesmo ao id como objeto de amor, busca reparar-lhe sua perda, dizendo-lhe: ‘Veja, podes amar a mim também, sou tão parecido com o objeto...’” (p. 32).

O corpo próprio, ou antes, sua superfície, é dotada dos elementos dos objetos parciais e pode ser tomado como objeto de amor. Similaridades com o “estágio do espelho”, de Lacan.

Complexo de Édipo composto: direto e invertido, bissexualidade constitucional. Herdeiro do complexo de Édipo, o superego (ideal de ego) é “expressão das mais potentes moções dos mais importantes destinos libidinais do id” (p. 37). Assim, “conflitos entre o ego e o ideal espelharão, refletirão, em última análise, a oposição entre o real e o psíquico, o mundo exterior e o mundo interior" (p. 38).

Fase fálica e castração: desde o início, o indivíduo experiencia frustrações as mais intensas, como o nascimento, o desmame e o depósito cotidiano das próprias fezes. Na medida, contudo, que seu corpo é dotado de integridade imaginária, no narcisismo, ele pode ser submetido a uma localização corporal da frustração, que, a partir de agora, pode ser entendida como restrição dos desejos. A fase fálica inaugura o complexo de castração.

A restrição do desejo dentro do complexo de castração atinge a dimensão da realidade corporal, sobre a fantasia narcísica. Na neurose, é em vista da preservação do narcisismo ameaçado pela castração que o sujeito aceita a renúncia pulsional edípica. Os investimentos de objeto são abandonados e substituídos por identificações - a autoridade do pai (severidade, proibição do incesto) é introjetada no ego e aí se forma o núcleo do superego, que reassegura o ego contra o retorno do investimento libidinoso de objeto e permite a sublimação (fase de latência).

Por que o psicótico falha em dar cabo desse processo?


quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Ensaio Rorschach, psicodiagnóstico e psicopatologia


Para o corpo de Berenice
Ou o coração Wall Street
Para o último tempo
Ou a primeira dose de tóxico
Para dentro de si
Ou para todos
Para dentro de si
Ou para todos
Pra sempre todos emigram.
(Alberto da Cunha Melo, 2001)


É frequente que, em face de uma dor ou grande angústia, nossa primeira tentativa de enfrentá-la aconteça numa visita ao médico. Acostumados como estamos com esta rotina, procuramos o doutor e tentamos relatar-lhe com o maior detalhamento possível tudo aquilo que consideramos sintomático, indicial, causal, enfim, importante. O doutor nos olhará por cima de suas grossas lentes, auscultará nosso coração e nos recomendará uma série de exames. Caso a dor esteja relacionada a um problema banal, podemos ter a sorte de sair do consultório com um diagnóstico e um receituário, em poucos minutos. Aliviados, buscamos então o farmacêutico e voltamos para casa com a sensação de que a angústia irá embora. Em grande parte dos casos, ela realmente se aplaca (ao menos em relação a este problema específico) e podemos continuar a tocar a vida. A gripe ou o pé quebrado nos incomodará ainda por um tempo, mas logo isto será superado. Talvez carregaremos uma cicatriz que servirá de lembrança para usarmos precauções e aprendemos com nossos erros. Somos mais fortes agora.

Em alguns momentos da vida, no entanto, a dor vivenciada é de outra sorte. Pode ser que a simples descrição de sintomas indiciais, desconfiança ou perda de apetite, não seja suficiente para que o doutor entenda e qualifique a angústia. O médico nos olha com espanto e, diante de nossa angústia, revisando os resultados de vários exames fisiológicos, nos diz: “você não tem nada”. A visita ao consultório muito pouco aplaca a angústia. Martins (2005) lembra que o paciente clínico, em sua formulação queixosa, reconhece explicitamente a importância de eventos encobertos, não somente encobertos pela pele ou pela camada de seus músculos, mas de algo ainda mais profundo. Ao dizer que o médico, os pais ou a sociedade não entendem o que ele sente, o indivíduo angustiado reclama a qualificação de fenômenos realmente invisíveis.
Nos manuais de psiquiatria, há o repetido enfoque no sintoma psíquico como perda de funcionamento, mal-estar, desadaptação. Ora, a adaptação é ligada à ideia de uma realidade empiricamente verificável. Se ao psiquiatra é possível dizer que, de fato, há uma realidade lá fora, a conclusão lógica é que o indivíduo deverá dispor de recursos cá dentro para adaptar-se a ela. Do ponto de vista das ciências naturais, no melhor viés positivista, a norma é obtida a partir de experimentações empíricas da natureza, é marca da regularidade dos fatos e fenômenos investigados. A ciência médica diz que dor no peito indica problemas cardiovasculares. Investigadas as causas e efeitos, por meio dos instrumentos adequados, se pode planejar a intervenção que trará alívio e saúde.

No entanto, quando a dor no peito é por conta de um coração partido, a metáfora corporificada não pode ser investigada pela instrumentação médica tradicional. É necessário ir além, pois a causa dessa dor é invisível.

A medicina tradicional, ciência natural por excelência, adota critérios de normalidade que, no mais das vezes, remetem dados normativos, estatísticos. A identificação de síndromes, por exemplo, é fundada na frequência estatisticamente relevante do aparecimento dos mesmos sintomas em condições semelhantes e em um número significativo de casos. Contudo, em medicina “mental”, a adoção de critérios estatísticos puros é enganosa. Isto porque a relevância estatística de um sintoma ou grupo de sintomas é um critério lógico para a descrição de normalidade ou adaptação. Estes critérios lógicos dirigem o pensamento do médico em na realização de um julgamento diagnóstico, terapêutico.

A norma para comportamentos e modos de vida, para emoções e formação de pensamento, todavia, não pode ser aplicada da mesma maneira que a norma para os compostos da estrutura óssea. Quando a queixa está relacionada a fenômenos internos, invisíveis, a aplicação puramente lógica da norma implica o caráter ideológico e narcísico de quem fará o julgamento. Martins (2005) salienta que este fazer “é também largamente conhecido como um critério autoritário e narcísico. Julgar o outro a partir de si mesmo não deixa de ser uma insistente projeção de si mesmo sobre os outros” (p. 104). A norma aproxima-se da lei e adquire uma conotação moral facilmente detectável.

A medicina tradicional ainda olha para o louco com estupefato. Seu sintoma, sua angústia, indica um oposicionismo que afronta a realidade tal como o cientista positivista a concebe: como uma realidade dada, comum e compartilhada. Aquele que se opõe a ela o faz por perceber uma realidade social injusta e a necessária alteração de seus ditames. Ele precisará, no entanto, da proteção do manto da história para se tornar um grande homem. Os santos maiores são comumente denominados os “loucos de Deus”, em uma radicalidade transformadora. Contudo, esses “loucos” não vivenciam, necessariamente, desintegração ou perda de funcionamento. São, sim, desadaptados e podem vivenciar muito mal-estar. No entanto, não estão doentes, por mais não-normais pareçam ser.

Algo semelhante ocorre com pessoas em crise. Ao procurar pela primeira vez o consultório do médico, foram mobilizadas por um forte estranhamento, a sensação avassaladora que, de fato, há algo errado. Estando algo errado, estranho demais, lhes advém a angústia como o impulso em face da urgente necessidade de mudança. De fato, a radicalidade e a extrema dor que comumente acompanham os estados de crise não são fáceis de entender. Ao ouvir o discurso estranho da pessoa em crise, “surtada”, a família, o médico e o seio social mais imediato realmente “não sabem” como ela se sente. O reducionismo costumeiro faz com que seu sofrimento seja identificado como uma doença. Há algo errado dentro do sujeito que sofre. O uso indiscriminado de medicação psiquiátrica pode estar associado à necessidade de embotar grande parte da vivência afetiva na crise. Este procedimento responde a uma dupla justificativa: a hipótese de organicidade da “doença mental” em vias de se instalar e a necessidade de controle de comportamentos potencialmente danosos para o sujeito e para seu meio.

O paciente que “não sabe (será?), mas sente” e o médico que “não sente, mas (em tese) sabe”.

A tentativa feita pela psiquiatria é de descrever e compreender o fenômeno psíquico a partir do mesmo olhar da medicina somática. A esperança é de que, quando os avanços tecnológicos o permitirem, a descrição sintomatológica das síndromes “mentais” encontrará sua etiologia fisiológica, numa determinante finalmente neuroanatômica. A “alma” estará localizada em sua morada final: o sistema nervoso.

Numa reflexão epistemológica, Gaston Bachelard questiona o conhecimento do real pelo cientista moderno (1978). Se o conhecimento do real, pelo psiquiatra moderno, toma a dupla rubrica do pitoresco e do compreensível no louco, o sentido epistemológico psiquiátrico vai do racional ao real e a aplicação de seu método científico é essencialmente realizante.  Falar de um quadro nosológico em um instante da experiência humana é entregar-se à escolha de um estado, entre uma infinidade de outras escolhas aparentemente arbitrárias. Se o paciente não responde, se ele se cala, o psiquiatra poderá conhecer que ele não fala e reconhecer que ele entrou em carreira psicótica. “Mas reconhecer não é conhecer. Facilmente se reconhece o que não se conhece” (Bachelard, 1978, p. 145).

As escolhas do psiquiatra são aparentemente arbitrárias. Aparentemente, porque o cientista psiquiátrico há de escolher as variáveis segundo critérios ancorados em sua prática. Interesses políticos, econômicos e sociais estão envolvidos na própria “escolha” do positivismo como referencial de ciência. As variáveis são hierarquizadas segundo sua possibilidade de controle, sua previsibilidade e em que medida os resultados podem ser replicados. Um cientista normal, fora de uma crise ou revolução epistemológica, não é crítico do paradigma em que trabalha (Chalmers, 1993).  Ele faz uso de categorias, classificações nosográficas, que não necessariamente existem. De fato, elas foram tornadas reais pela aplicação do raciocínio científico e pelo reconhecimento da psiquiatria.

Michel Foucault (1975, 1978) questiona o posicionamento da psiquiatria tradicional. Ele argumenta que os modernos perderam o contato puro com a loucura. Esta aparece como um monólogo da razão, por mais que as duas tenham origem ontológica diferente. A experiência da loucura, ao contrário, se relaciona a partir da determinação social. Em sua investigação sobre a transformação histórica do trato e da experiência da loucura, da excentricidade ao silenciamento, Foucault pontua que a loucura se torna o contraponto da razão, se torna desrazão. Com a psiquiatria, se a loucura é doença, a razão é saúde. O anormal preenche os critérios da psiquiatria, os quais são classificações construídas no seio social. Para os modernos, o discurso do louco é uma alteridade radical e inacessível, a qual somente tem como referência de acesso a classificação científica.

Para ele (1975), o manual diagnóstico dos transtornos mentais tenta, com grande esforço, aplicar os mesmos conhecimentos da medicina somática ao que se entendeu por doença mental. A psiquiatria estabelece um paralelismo abstrato entre as duas formas de adoecimento, mental e físico. Neste processo, se perde a noção que este paralelo, esta simetria entre o somático e o psíquico, entre o corpo e a mente, é uma metáfora. O psiquiatra tradicional toma a metáfora da “doença mental” na literalidade, a partir da perspectiva científica positivista, que fundou a medicina moderna. Comparará os sintomas de seu paciente à norma, poderá prescrever a seu paciente o receituário dos psicotrópicos, mas ainda não qualificará seus eventos internos. Mas este trabalho reducionista não abarcará a complexidade da loucura, uma vez que a psicologia da personalidade não ofereceu à psiquiatria a mesma contribuição que a fisiologia forneceu para a medicina somática.

Thomas Szasz (1960, 1979) critica a “verdade mentirosa” (lying truth) da psiquiatria. Para ele, a história da psiquiatria é perpassada por construtos falaciosos e o principal deles é o próprio termo doença mental. Ele aponta a confusão epistemológica presente no dualismo simétrico entre sintomas mental e físico na metaforização do cuidado médico ao sofrimento psíquico. A noção de sintoma mental é intrinsecamente relacionada ao contexto social em que ele é fabricado, dado que rotular a fala de uma pessoa como um sintoma mental envolve a atribuição do julgamento do médico, a comparação entre as ideias e crenças do referido “paciente” e as do observador, ambos inseridos em uma cultura e numa história.

O que o psiquiatra considera como doença mental são comunicações, expressão de ideias quiçá inaceitáveis, organizadas em uma fala não usual, incomum. A categorização psiquiátrica refere a eventos privados, sociopsicológicos, a respeito dos quais o observador (quem faz o diagnóstico) também forma compromisso. Neste sentido, Szasz aponta para a especificidade ética necessária na reflexão da psiquiatria sobre suas próprias práticas, particularmente quando é envolvida a dimensão coercitiva.

A partir das classificações sindrômicas dos comportamentos, a psiquiatria tradicional não faz senão aumentar o fosso social existente entre normais e anormais, quando a única diferença entre eles é a convencionalidade das metáforas utilizadas em sociedade. Este raciocínio tautológico (é doido porque age feito doido) torna difícil a distinção de etiologia e semiologia. Cada sutileza no comportamento do paciente ganha um novo título, uma taxonomia sígnica que aparentemente refere à realidade, julgada no saber médico da época e a partir de ordens políticas imperantes as mais diversas. A palavra passa pela assepsia da semiologia clínica, a desconfiança e a angústia viram sintomas possivelmente neuronais e a prática coercitiva da psiquiatria demove o ser humano diferente, não-normativo, de sua linguagem e humanidade.

Ileno Costa (2003) argumenta, com Szasz, que a perspectiva médica atrela a loucura a um absurdo lógico, pertencente tão somente ao indivíduo doente e que demanda uma resposta da sociedade. Ao isolar a doença mental, o psiquiatra não identificou apenas mais um tipo de doença, mas justificou a prática estabelecida de confinar loucos mediante a hospitalização compulsória. Uma vez reconhecida a doença, a institucionalização deve ser decidida. Por óbvio, esta decisão não cabe ao sujeito “doente mental”. O reconhecimento da doença, desde o início, foi um ato coercitivo.

Em Psicopathologia I – Prolegômenos (2005), Francisco Martins reabre o estudo da psicopatologia, em uma problematização que foi esquecida e empobrecida por soluções tranquilizadoras, comuns à modernidade, quando a avidez se direciona à posse de princípios que afastem a dúvida e o desespero. Sua obra busca tudo aquilo que tem facticidade como elemento essencial da psicopatologia. O autor qualifica o pathos, com Heidegger, como manifestação de uma realidade existencial, “um modo de ser momentâneo, duradouro ou permanente, carregado de subjetividade e capaz de comunicação intersubjetiva” (p. 37). De fato, ao traduzir pathos como disposição afetiva fundamental, a psicopathologia permite a consideração da loucura como um destino possível da experiência humana. O pathos carrega, ao mesmo tempo, a possibilidade de perda de harmonia e as formas mais sublimadas da existência.

Costa (2010a) salienta que o sofrimento psíquico, alvo da classificação psiquiátrica, é experiência de angústia, sempre presente na vivência humana. Este autor refere à ambiguidade e aos vários sentidos presentes nas manifestações do que é o sofrimento psíquico, que perpassam valores culturais, compreensões filosóficas e éticas do que é próprio do ser humano. Para ele, o discurso médico deve passar pela crítica de sua visão do que é signo sintomatológico. A palavra louca, diferente da febre, é portadora de sentido afetivo e comunica, associa interlocutores. Sempre presente nas construções e relações humanas, a desorganização de natureza páthica não é necessariamente negativa ou paralisante. Chico Science, poeta e compositor pernambucano, o refere de maneira contundente ao afirmar “que eu desorganizando, posso me organizar/ que eu me organizando, posso desorganizar” (1994).

Hermann Rorschach, em seu experimento de interpretação de formas fortuitas (1921/1967), elaborou os princípios de uma técnica de psicodiagnóstico que ia além da anamnese sintomática e o agrupamento sindrômico. Ao apresentar as manchas de tinta aos pacientes, ele pôde acessar um funcionamento interno que, de alguma maneira, estava relacionado aos sintomas apresentados. O obsessivo, com suas ideias fixas e seus rituais rígidos, apresentava muitas cinestesias e poucas cores, em um estilo de vivência introversivo, dominado pelo pensamento e desajeitado para as relações interpessoais. A prova das manchas de tinta não indica “o que ele experimenta, mas como ele experimenta. Internamente conhecemos grande parte das qualidades e das disposições, tanto de natureza associativa como afetiva ou ainda de natureza mista, com as quais o examinado se mantém na vida” (p. 90, grifos do autor). Mais ainda, Rorschach, a partir de seu experimento e, certamente também da influência da psicanálise, entende que “somente o impulso transforma os ‘momentos’ disposicionais em tendências ativas” (p. 91).

Ao longo de seu texto, todas as vezes que ambicionou descrever quais seriam as características normais ou ideais de um indivíduo, descobria a impossibilidade de uma recomendação geral. Questões culturais, étnicas, raciais, relacionadas à profissão e constituição social do indivíduo, demandariam ajustes. O que é problemático para uns muitas vezes possibilitava a qualidade específica de uma pessoa. Assim, uma pessoa normal idealizada seria alguém “coartado”, ou seja, desprovido dos recursos de enfrentamento facilmente evocados por obsessivos, histéricos ou psicóticos e, ainda assim, profundamente afetada pelo sofrimento.
Segundo John Exner (2003), o Rorschach dá maior ênfase à personalidade do indivíduo, em vez de sistematizar os comportamentos. Este tipo de informações vai além do enfoque sindrômico na sintomatologia e etiologia. É fornecido um recorte atual das condições psíquicas e relacionais do indivíduo e fundamenta o psicodiagnóstico profundo e complexo, consistente com a visão da psicopatologia crítica. Além disto, a própria natureza do método leva a pessoa a interpretar a mancha a partir de seu próprio arcabouço de recursos e demandas. Assim, ela é levada a uma situação de resolução de problemas ambíguos, dos mais simples aos mais complexos, sempre ligado à sua própria integridade pessoal, a sua história pessoal e a seu padrão de relacionamentos (Yazigi & Gazire, 2002).

O psicólogo dispõe de ferramentas várias, para além das utilizadas pela psiquiatria tradicional. Dentre elas, as técnicas projetivas, como o método de Rorschach, podem auxiliar na construção de um psicodiagnóstico que seja da especificidade do psicólogo. Tais instrumentos permitem que os eventos invisíveis sejam qualificados. Esta qualificação orienta o olhar do clínico para algo além dos comportamentos, para além da superfície. Mesmo sem oferecer grandes garantias, as contribuições da psicanálise permitem ao psicólogo considerar a causalidade psíquica como uma possibilidade da loucura. E que a loucura também é busca de saúde. O paranoico não deseja, em sua queixa, se livrar da desconfiança que ele tem do perseguidor. A desconfiança é o que o protege, garante minimamente sua vida. Ele quer é se ver livre do perseguidor. Para se tornar um “tu” verdadeiro, interlocutor do sintoma, da personalidade, do discurso, do ser louco, o psicólogo há de não mais se unir a “eles”. Ele deve virar algo parecido com o “eu” louco: um humano, afinal.



REFERÊNCIAS

Bachelard, G. (1978). A filosofia do não; O novo espírito científico; A poética do espaço. São Paulo: Abril Cultural.
Chalmers, A. F. (1993). O que é ciência afinal? São Paulo: Brasiliense.
Chico Science e Nação Zumbi (1994). Da Lama ao Caos. São Paulo: Chaos/ Sony Music.
Costa, I. I. (2003). Da Fala ao Sofrimento Psíquico Grave: Ensaios acerca da Linguagem Ordinária e a Clínica Familiar da Esquizofrenia. Brasília: ABRAFIPP.
_________. (2010a). Crises psíquicas “do tipo psicótico”: distanciando e diferenciando sofrimento psíquico grave de “psicose”. In: Costa, I. I. (Org.). Da Psicose aos Sofrimentos Psíquicos Graves: Caminhos para uma Abordagem Complexa (pp. 57-63). Brasília: Kako Editora.
Exner, J. E. (2003). The Rorschach: A Comprehensive System. Hoboken, HJ: John Wiley & Sons.
Foucault, M. (1975). Doença mental e psicologia. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro.
__________. (1978). História da loucura. São Paulo: Perspectiva.
Martins, F. (2005). Psicopathologia I – Prolegômenos. Belo Horizonte: PUC Minas.
Melo, A. C. (2001). Canto dos Emigrantes. In: Pinto, J. N. (Org.) (2001). Os Cem Maiores Poetas Brasileiros do Século. São Paulo: Editorial.
Rorschach, H. (1921/1967). Psicodiagnóstico. São Paulo: Mestre Jou.
Szasz, T. (1960). The myth of mental illness. The American Psychologist, 15, 113–118.
______. (1979). The lying truths of psychiatry. Journal of Libertarian Studies, 3(2), 121-139.
Yazigi, L. & Gazire, P. (2002). Avaliação cognitiva e Rorschach. Psico-USP, 7(1), 109-112.